Este texto é uma profissão de fé. Todo cronista faz, em algum momento, uma confissão sobre o que escreve, como escreve, como imagina quem o lê, etc. Oxalá eu escreva durante muito tempo pra poder refazer as diversas profissões que fizer, já que, sabemos, uma pessoa interessante é necessariamente contraditória e equivocada.
Este texto é uma tese sobre essa escrita que estamos fazendo e sobre minha presença nela.
O título desse blog é Futebol e Honra. Recentemente, tivemos discussões sobre o significado ou significados desse título. Um argumento foi o fato de usar honra no título, porque seria uma forma pretenciosa de nos apresentarmos. Particularmente, acredito muito nesse título porque é só nesse contexto que consigo falar sobre futebol – se é que tratamos de fato sobre o tema que dá título ao blog. Com efeito, a pretensão já está implícita no fato de nove amigos muito queridos e com laços profundos entre si resolverem escrever sobre um tema sobre o qual nada conhecem. Esticando a baladeira, poderia dizer que dois ou três de nós conhecemos alguma coisa sobre futebol. E é isso.
A distância da minha cidade e desses laços que construí, tão fortes que me perfuram, permite uma saudade que faz pensar sobre o que fazemos.
Sempre me questionei porque nos emocionamos quando vemos Sam levantar Frodo e não somente pegar o anel; ou quando vemos alguém se sacrificar por outro; ou quando vemos um oficial alemão informar do ataque ao front francês na noite de Natal; ou quando vemos um grupo de amigos se reunir para matar um amigo que pediu pra morrer; ou quando vemos um homem apaixonado ficar para a guerra e dar adeus à sua amada dizendo We'll Always Have Paris. Ainda: quando lemos um prefácio emocionado de um homem reacionário como Vargas Llosa sobre um livro de Ángel Rama; ou quando identificamos a dignidade do velho na cantina paulista bradar com seu charme contra a TV; ou quando reconhecemos a nobreza dos vilões – os melhores; ou quando vemos a profunda amizade de Charles e Erik; ou quando vemos a senadora Kátia Abreu ser expulsa do PMDB por defender o mandato de Dilma Rousseff até o dia 31 de agosto de 2016.
Essa emoção que sentimos é uma espécie de enlevação e de reconhecimento de um sublime. Tenho pra mim que esse sublime é o que podemos chamar de honra. A honra é dissimulada e não se mostra. O que me atrai nela é esse seu caráter.
Cena de Les invasions barbares na qual Rémy se reúne com seus amigos para morrer ao lado deles.
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Sou um homem nascido nos anos 1990 e que frequentou a Universidade nos anos 2000. No curso de Letras, tomei contato com uma importante reflexão sobre o que hoje chamamos de pós-modernidade. Esse conceito é ótimo. Ele apenas informa um estágio posterior à modernidade. Ao longo de todo o curso, as teorias que mais me interessaram foram aquelas que questionavam algumas certezas que tinha, principalmente de nação. Me interessei porque não consegui – na data, e ainda não consigo hoje – equacionar essa sensação de que sinto o Brasil pulsando nas lágrimas que descem ao ver a presidenta ser destituída.
Acredito que esse sentimento é o que define minhas alegrias e minhas agruras. Mas, como certa vez me disse uma cartomante, sou um homem antigo e nada pós.
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Sublime é o ambíguo; aquilo que é maravilhoso e perigoso. Um dinossauro é o sublime, assim como a vingança.
Nesse esforço de justificar a presença da honra no título desse blog sobre futebol – e honra -, lanço minha tese. Esse texto é, afinal, uma tese. Esse sentimento tênue e dissimulado que nos constrói como pertencentes a um sublime e nos coloca em uma encruzilhada sobre a complexidade de sentidos do mundo; o espelho turvo que nos põe em abismo de entendimento sobre nossa espécie no mundo e no ocidente; a ordenação cosmológica sobre a qual te reconheço e tu me reconheces: a isso, nesse momento, dou o nome honra.
Las meninas, de Velázquez.
A honra é uma necessidade de uma cultura fundada na razão. É a correlativa da culpa. É só uma palavra na tela do computador, mas como dói! Em especial porque sentimos, em um momento somente que seja. Penso, agora, ao escrever esse texto, que talvez seja o maior ganho da civilização, esse laço esfumaçado que nos comove em grupo ou solitários.
O futebol, em nossa cultura, talvez seja um ótimo sintoma da tenacidade desse laço. Ouço muitos velhos com quem esbarro em bares sujos pelas ruas, ouço comentaristas saudosistas atestarem uma época em que os jogadores não entravam em campo por protesto contra uma ditadura; as copas todas eram eventos nos quais a pobreza podia entrar e os estádios vendiam cerveja porque era preciso estar bêbado de fantasia ao ver um gol.
Talvez estejam certos, os velhos.
Talvez o futebol, nesse momento, reflita o processo de revisão pela qual a sociedade brasileira está passando. Talvez tenhamos de amargar uma transição com neymares. Talvez os sonhos envelheçam. Mas, de novo, como uma cartomante uma vez me disse, sou um homem antigo. Sou um homem Moderno. Os sublimes são uma caminhada ao sol sobre um deserto. Demoram e são quase intermináveis.

