segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Palmeiras 1 X 0 Vasco - 12/08

Nunca gostei muito do Vasco. No dia 30 de dezembro de 2000, o Vasco jogava a final da Copa João Havelange (nome dado ao campeonato brasileiro naquele ano) contra o São Caetano em São Januário quando o alambrado do estádio cedeu. Minha memória é do ex-presidente e cartola vascaíno, Eurico Miranda, descendo ao gramado para exigir da arbitragem que o jogo continuasse normalmente, a despeito dos feridos pela tragédia. Desde então, a imagem do Vasco ficou marcada, para mim, como a do time da cartolagem de pior tipo que existe.


Eurico Miranda, escandaloso.


Já o Palmeiras, ah, Palmeiras... Como cruzeirense, não consigo não nutrir alguma simpatia pelo outro Palestra Itália. Olho aquele uniforme verde e sofrido e imagino logo uma cantina num canto de São Paulo, regida por um sujeito de rosto sanguíneo, que esbraveja, para uma televisão 42 polegadas recém-comprada, insultos e clamores dos piores tipos, desejoso de recuperar a glória que talvez um dia o time quase alcançou. Vejo, nessa cena, o pior tipo de conservador de que se tem notícia. Mas há um charme nisso. Porque o pior tipo de conservador de que se tem notícia está apaixonado pelo que sua tevê mostra. E sofre tanto. Sua ancestralidade, suas artérias pulsantes, sua saúde cardíaca, seu prazer pequeno-burguês: tudo está em jogo enquanto ele sofre. E, se você olhar com o carinho necessário, fica fácil enxergar a beleza dessa decadência humana, demasiadamente humana.

Então os dois times se encontraram neste domingo de dia dos pais (e meu personagem é obviamente um pai – os conservadores, mesmo os estéreis e sem filhos, são sempre pais). O Palmeiras ganhou de 1 a 0. 

O primeiro tempo foi quase todo do time alviverde. Muitos ataques, domínio de jogo, blá, blá, blá. O Vasco, por sua vez, tinha um jogador chamado Pikachu que, além de estragar qualquer intenção literária da minha narração com esse apelido, deu algum trabalho pro rival. Mas foi só isso. Jogo civilizado, não muito aberto, tiro de meta pra cá, tiro de meta pra lá. Nada define melhor um jogo ruim do que a frase “apenas tiro de meta para equipe do...”. O tiro de meta é a frustração maior. É a vitória da castração. É o segundo nome do tédio.

No segundo tempo, um pouco menos de tédio. Nem tanto tiro de meta. Algumas faltas. Para efeitos de comparação, no primeiro tempo, Gustavo Scarpa, do Palmeiras, se machucou sozinho em campo. No segundo, teve um pênalti – que foi, contudo, anulado, exaltando os ânimos um pouco mais. Mas foi pouco, para falar a verdade. Cheguei a sonhar acordado, enquanto via algumas faltas, com um jogo mais violento. Pensei “como é que esses caras não se matam com mais frequência?”. É que o jogo, meus pacientes leitores, é a vitória da civilização sobre a barbárie. O jogo é filho da nossa capacidade de abstração. É irmão, portanto, dos nossos desejos civilizatórios. Por isso, o jogo encanta a tantos – é um acordo que é aceito por todos os pretensos civilizadores contemporâneos, desde o mais apaixonado comunista até o meu personagem ali na cantinazinha italiana de São Paulo. É por isso que o Brasil é tão afeiçoado ao jogo. Não somos lúdicos por alegria. Somos lúdicos e amantes de coisas como futebol porque vivemos nesse lugar abstrato demais. Jogar, ou ver um jogo, é um vício necessário. Sem isso, o ar fica muito rarefeito.

O futebol brasileiro atual, no entanto, não deixa o ar ficar rarefeito. Na verdade, temos oxigênio de sobra. Ninguém perde muito o fôlego. São pontos corridos. Hoje, se um alambrado cair, não veremos o desespero de um Eurico Miranda descendo de seu trono para ralhar com o juiz. Fica pra quarta que vem. Atrasa-se um pouco, ajeita-se a matemática. O futebol, hoje matemático assim, é um irmão muito orgulhoso dos nossos projetos civilizatórios mais conservadores. Aprendeu até a ser burocrático.

A verdade é que meu personagem descendente de italiano, apaixonado e à beira de um enfarto, é uma figura um pouco fora do tempo e fora do tom. Neste domingo, dia 12, ele foi vitorioso. Continuou ranzinza, mas foi vitorioso. Do outro lado da sua tela de 42 polegadas, outro descendente de italiano (só que gaúcho), também ranzinza, retornava ao time de onde, na minha opinião, nunca deveria ter saído. Luiz Felipe Scolari fez seu retorno ao Palmeiras, escalou um time reserva, manteve sua carranca por incríveis 90 e poucos minutos e ganhou de 1 a 0. Assim, civilizadamente, também foi um ranzinza vitorioso.

90 minutos de jogo.

A propósito do Vasco, o que posso dizer? Seu atual presidente não é o Eurico Miranda. No sábado, sem escândalos, Alexandre Campello estava em um outro campo, para uma pelada, quando teve o susto de que escapou meu personagem palmeirense: passou mal e se submeteu a um cateterismo. Agora está bem.

Vitória da civilização.