domingo, 2 de dezembro de 2018

Like Father, Like Son

O ritual de jogos do Palmeiras é sempre o mesmo: 

Meu pai se esparrama no sofá da sala com sua bacia de pipoca e um copo de Coca-Cola. Segundo minha mãe, o pai nunca foi muito chegado em cerveja ou bebidas alcoólicas. Tudo que sei sobre o meu pai são informações que recebo dos outros e penso com certa frequência que se fôssemos só eu e ele, provavelmente só saberia seu nome (Luiz), seu emprego (pasteleiro) e seu nível de parentesco comigo (pai). Enquanto ele liga a TV para assistir Palmeiras e Vasco, imagino que talvez nem saberia seu time de futebol, não fosse os comentários de meus tios corinthianos nos jantares de família. É importante que se saiba que meu pai é palmeirense numa família de corinthianos e é importante que se saiba que ele quase nunca fala ou demonstra sentimentos. 

Nunca vi meu pai xingar algum jogador ou comemorar um gol. Independente da situação do Palmeiras, ele continua impassível sem esboçar qualquer reação. A imagem do pai com camiseta de time, lata de cerveja na mão e a cara vermelha de tanto gritar (ou beber) é algo distante para mim. 

O jogo começa, mas não tenho muito tempo de prestar atenção nele ou em meu pai. Na verdade estou muito irritada de ter que lidar com o barulho na vizinhança justo no dia em que preciso escrever páginas e mais páginas para o trabalho de Literatura Portuguesa. Agradeço por meu pai não ser o velho que está berrando no bar do outro lado da rua e que observo com atenção - de repente qualquer coisa parece mais interessante do que escrever cinco páginas sobre Almeida Garrett. 

Quando finalmente consigo ultrapassar a barreira das duas primeiras páginas, meu pai muda de canal para um filme natalino. O intervalo de tempo entre a mudança brusca de canal e os gritos de gol e fogos que se seguiram não foi suficiente para que eu pudesse entender a atitude de meu pai. Ele volta para o jogo xingando baixinho enquanto acompanha a reprise do gol da vitória. 

Ao final do jogo meu pai mantém um sorriso de canto de boca raramente visto. 

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A última vez que vi aquele sorriso em meu pai é uma lembrança confusa da primeira infância. Estávamos reunidos na casa da minha avó enquanto Palmeiras e Corinthians jogavam. Meus tios provocavam meu pai de todas as formas possíveis e ele continuava imperturbável, como se não estivesse de fato ali. 

O primeiro gol do Palmeiras fez o silêncio na sala. Meu pai não disse nada, como sempre. Se levantou do sofá e saiu. Minha mãe e minhas tias estavam muito ocupadas na cozinha dando atenção para meu irmãozinho que tinha acabado de nascer e não perceberam quando meu pai atravessou a mesa de jantar para chegar do lado de fora.

Meu pai estava parado no jardim segurando aquele mesmo sorriso. Ficamos por lá até o final do jogo, fingindo que estávamos muito interessados nas flores e plantas da minha avó. Mesmo quando o Corinthians conseguiu finalmente virar o jogo meu pai não abandonou o sorriso. Ele ouviu as piadas e provocações, me pegou pela mão e disse que era hora de voltar para casa. 




segunda-feira, 26 de novembro de 2018

O campeão

Uma vez um amigo meu disse em seu texto sobre as virtudes e defeitos do novo e o antigo esporte bretão. Ali, dissecou em uma, ótima, forma didática. Até ousou em dizer quais são os sonhos para que cheguemos à pós-modernidade do futebol. Um texto que abrangente, sonhador, mas sem esquecer da realidade atual. Aliás, diga-se de passagem, este foi a resenha do companheiro de blog Vitor Brauer, anterior a este que escrevo no momento.

Acredito que, nesta segunda-feira, 26 de novembro, têm histórias mais interessantes para contar. Se você procurar o que aconteceu no mundo da bola neste fim de semana, você encontrará assuntos dos mais diversos, interessantes, polêmicos. Espero que um de nossos colaboradores do blog o façam, tenho certeza de que saíra coisa boa daí. De toda forma, de alguma maneira, eu senti a necessidade de tratar sobre a Sociedade Esportiva Palmeiras e Luiz Felipe Scolari (o Felipão). O clube e treinador recém campeão do Assaí 2018, como diz a CBF. Repetirei este nome, Assaí, algumas vezes durante o texto. É uma piada interna. Assaí, só de falar começo a rir.

Mera foto ilustrativa do campeão do Brasileirão Assaí 2018
E aqui chegamos. Ainda resta mais uma rodada para este Brasileirão terminar. A briga para não ser relegado a segunda divisão está acirrada como de costume. A partir de semana que vem começam-se as especulações sobre contratações, quem entra e quem sai de cada clube. E todo ano discutimos, também, o estado do futebol nacional. É de praxe. Várias análises podem ser feitas e diversos ângulos serão cobertos com minúcias. Neste caso, estou aqui para dar continuidade ao que meu amigo Vitor vinha dizendo em sua breve análise, como ele disse. 

Palmeiras tinha Roger Machado, um técnico que tenta praticar o futebol moderno, o futebol  envolvente, a bola no chão como dizem. Um time que tenha uma movimentação mais fluida no ataque, aquela troca de passes que nos enchem os olhos. Um repertório ofensivo completo. Uma linha defensiva compactada, que pressione e roube a pelota no campo adversário para estar a poucos metros da baliza adversária. Roger tentou aplicar tudo o que sabe e se prega sobre a evolução do futebol. E assim fracassou no comando do time após a décima quinta rodada. O verdão é o time de maior poderio financeiro do país e, por isso, com melhor grupo de jogadores do Assaí. Um dia após a demissão de Machado, Felipão estava lá, iniciando os seus trabalhos. Por mim, seria melhor se ele apenas estivesse iniciando os trabalhos com uma cerveja na mão, diz a moda da internet, suas fotos e  hashtags. Contudo, para o meu desgosto ele estava de volta e comandando mais uma equipe após o vexame do 7x1. 

Muita coisa aconteceu após aquele placar inesquecível. Poderia citar, porém me perdoe, a preguiça falou mais alto. Estou aqui sentado em minha folga do trabalho e tudo o que quero é não ter de adentrar em uma pesquisa, abrir 5, 10 abas da minha ferramenta de navegação. E se tenho que te dizer uma coisa, é que o futebol não mudou. Pelo menos é a impressão que passa. Palmeiras não estava lá tão errado em trocar de técnico naquela altura, naquela hora o esquadrão verde não estava bem como o futebol moderno pede. Definitivamente a entrada de Scolari foi uma surpresa a todos. 

E lá ele foi, com seu jeito de comando. Em uma recém matéria publicada na Folha de São Paulo, Luiz Felipe Scolari disse que impôs ordem ao Palmeiras. Disse, também, que deu uma cobrança um pouco mais incisiva, deixou claro que estava ali para ser campeão e que, para isso, precisava que cada um cumprisse ordens. Fale por você, mas eu fiquei completamente assustado quando li. Olhando com calma e mais distante, não esperaria menos. Ele sempre foi assim, essa figura impositiva. Não atoa ele tem esta alcunha, Felipão, um macho-alfa, o patriarca. Talvez você se lembre na Copa do Mundo de 2002 quando existiu a "Família Scolari". Uma ordem deve estabelecida afinal de contas.

Felipão cala seus críticos após mais uma conquista
Em todos seus clubes que passou ele prezou por uma defesa sólida e uma forma de atacar nada fluida, nada criativa e dependente dos brilhos individuais de seus jogadores. O Palmeiras foi a equipe que mais rebateu bolas neste campeonato. Deixe-me explicar, sabe aquele chutão que os defensores dão para o ataque para afastar e pela pobre forma de elaborar jogadas, foram 32 vezes por jogo. O clube alviverde, também, foi a equipe que mais tentou lançamentos durante o Assaí 2018, uma média de 43 por partida. Vamos analisar rapidamente, não desanime, fique aqui comigo, eu ficarei muito feliz se você continuar até o final. Cada leitura que uma pessoa dá significa muito para nós do blog e para cada um, individualmente. Estas duas jogadas são as antíteses de toda a evolução que o futebol propõe. Isto se dá porque nestas jogadas a bola é alçada ao ar, a sorte. E, na maioria das vezes, a bola fica para o time adversário. Se você quer ganhar uma partida, logo você deve ter a bola em seus pés. E tê-la pela maior parte do tempo deve garantir na, grande parte, as melhores chances para vencer o certame. Cuidar bem do caroço é aonde o futebol pós-moderno se norteia.

Após a maior e mais humilhante derrota do futebol de todos os tempos, o 7x1, o comandante Felipão minimizou a derrota e suas falhas.Todavia, para a sorte dele, desta vez o elenco era o melhor do país. Para a sorte dele, a bola que rola aqui, também, não mudou. Para a sorte dele, o tão sonhado futebol pós-moderno que o meu caro colega, Brauer, apontou anteriormente, não chegou e assim foi campeão do Assaí 2018. Devo dizer que existem méritos nesta conquista, talvez não consiga enxergar, afinal, sou míope. Mas estão lá. Ele foi campeão, certo? 

Jajaja a discussão sobre o futebol praticado, as resoluções para o ano que está por vir, as promessas de melhora, tudo isso será dito daqui até janeiro. Quiçá até fevereiro e seu carnaval. Aí sim o ano irá começar, e tudo continuará normalmente. Alguns passos para frente e milhares para trás. Parece um ciclo interminável, espero que foquemos nos passos que nos leve adiante. À Sociedade Esportiva Palmeiras, ao Felipão, aos jogadores e seus torcedores, parabéns pela conquista. Posso não gostar e nem concordar, mas o respeito sempre deve vir em primeiro lugar. 

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Em Defesa do Futebol Moderno e o Sonho do Futebol Pós-Moderno

Alexandre, o Pires, com sua barbixa mais torta que as concepções sobre futebol

Iniciando os trabalhos de quarta-feira, é necessário dizer que "não estou aqui só pra contrariar", como diria Alexandre Pires, apesar do nome da sua banda. Mas vale a pena se perguntar sobre o status quo das críticas contemporâneas sobre o "futebol moderno" e se elas estão certas ou erradas, se é que existe essa coisa de certo ou errado. Para começar nosso texto jornalístico-investigativo-de-google, é preciso se perguntar: o que é o futebol? Sabemos que essa pergunta soa boba e que devemos escrever na terceira pessoa do plural, mas realmente o que é o futebol? Para algumas pessoas, futebol seria o esporte e apenas ele. Para essas pessoas seguirem uma linha lógica e não entrarem em contradição o futebol é apenas o que ocorre dentro das quatro linhas ou dentro do campo como um todo. Para outras, futebol envolve toda uma gama de elementos, desdos torcedores assistindo na sua tevê, passando por torcidas organizadas, donos de clubes, CBF, FIFA, empresários e árbitros, até o pé do jogador que chuta a bola. Existem outras posições mais cinzas entre uma e outra perspectiva, mas vamos adotar essas duas como principais para tentar analisar o futebol antigo e o moderno. Devemos estabelecer também o que é conhecido por "Futebol Moderno" e o que é conhecido como "Futebol das Antiga", como o forró. Chamaremos de "Futebol Moderno" o futebol à partir do nascimento de Cristiano Ronaldo, o Cricri, pois ele é o maior representante da raça moderna. "Futebol das Antiga" é até o Cricri nascer. Vamos começar estabelecendo o que é positivo e negativo, de forma bem geral porque isso não é um trabalho de conclusão de curso, para cada um dos lados do futebol. Estamos usando como material de estudo o futebol mundial, não só o futebol brasileiro (antes que cheguem as pessoas e falem que aqui no Brasil não é assim e que isso é so lá na Europa, etc).

Pontos positivos do "Futebol das Antiga":

+ o contato entre fãs e clube era mais direto e íntimo
+ ingressos mais baratos
+ os campeonatos eram mais equilibrados e não existia uma diferença econômica tão grande entre times "grandes" e times "pequenos"

Pontos negativos do "Futebol das Antiga":

- o futebol era mal jogado, muito por conta da falta de investimento
- os estádios eram mais perigosos, tanto no nível estrutural quanto no nível de violência (isso mais lá fora que aqui)
- as ligas eram menos estruturadas
- futebol feminino praticamente inexistente
- futebol muito homofóbico e racista

Pontos positivos do "Futebol Moderno":

+ o futebol é jogado melhor, especificamente por conta do investimento
+ ligas são mais estruturadas e desenvolvidas
+ estádios mais seguros
+ futebol feminino recebendo um pouco mais de investimento e popularidade
+ racismo e homofobia estão sendo combatidos cada vez mais

Pontos negativos do "Futebol Moderno":

- clubes tratam torcedores como consumidores
- a diferença dos níveis de investimento deixa os campeonatos muito menos equilibrados
- jogadores não tem paixão pelo time e muitos são conhecidos por serem mercenários à procura de quem dá mais dinheiro
- ingressos caros

Os pontos acima, são de caráter objetivo (apesar de isso ser uma ilusão como sabemos bem), com base em dados e pesquisas em geral. Temos agora finalmente os pontos que eu chamo de "mais ou menos". Estes, diríamos, são de caráter menos claro e por isso subjetivo.

Pontos mais ou menos entre "Futebol das Antiga" e "Futebol Moderno":

+ ou - a globalização fez o futebol e os torcedores ganharem um caráter heterogêneo, isso traz coisas boas e ruins, uma das coisas boas é o fato de existirem torcedores da Juventus ou do Arsenal no meu grupo do Cartola e de você ver um ambulante com uma blusa de um jogador desconhecido do Napoli que ele é fã, ao mesmo tempo essa mesma globalização fez com que os torcedores se transformassem em "mentirosos fingidos" ou "torcedores modinha", torcedores que não torcem realmente para seus times e não os apoiam em momento de necessidade
+ ou - o grande nível de investimento dos clubes fez com que o futebol tomasse um caráter estéril, que pode vir para o bem e para o mal, vantagens disso vemos como o exemplo dos jogadores terem mais preparo físico para longos jogos e carreira mais duradoura, e a infraestrutura geral dos estádios e a transparência (ainda que pouca) do gasto de clubes e contratação de jogadores, como desvantagens vemos os times perderem a fidelidade aos torcedores antigos e sua localidade, como mudar o nome de seu time, mudar o lugar do estádio, até às vezes mudando de cidade por conta de melhor estrutura e mais lucro
+ ou - os grandes avanços tecnológicos tornaram o futebol mais jogado e menos jogado ao mesmo tempo, por um lado vemos grandes vantagens - como na tecnologia da linha do gol - por outro lado vemos uma lambança total no que diz respeito ao VAR, que deveria retirar os erros subjetivos dos juízes e acabou transformando em mais subjetivas do que nunca as decisões dos árbitros
+ ou - os craques antigamente se sobressaíam mais e mais, hoje em dia não se sobressaem pouco, isso pode ser positivo ou negativo, dependem do ponto de vista e muitos até poderiam argumentar que os craques ainda se sobressaem muito hoje em dia

Esses não são os únicos pontos vantajosos e desvantajosos do "Futebol das Antiga" e do "Futebol Moderno" mas essa não é uma monografia, então tentamos ser breves.

Marta ganhando sua quinquagésima Bola de Ouro, ao lado de DJ Big Driis

É possível ver que o "Futebol Moderno" ganha por pouco. Algumas das vantagens, no entanto, não provêm do futebol em si, mas sim de transformações sociais gerais como a defesa dos direitos dos negros, das mulheres e dos homossexuais. O caminho ainda é muito longo nesse quesito, mas estamos andando. Há vinte anos atrás era claro o preconceito, desde apelidos maldosos até o próprio racismo direto em humilhações públicas. Casos iguais ao do infame Torcedores Racistas do Grêmio vs Aranha eram muito comuns e socialmente aceitos antigamente, hoje nem tanto, graças a Deus.

Fora as questões de caráter social (mas na verdade entrando fundo nelas), principais vantagens e desvantagens de como o jogo é jogado hoje em dia vem de mãos dadas ao dinheiro investido. O futebol é o esporte mais popular do mundo e o sistema capitalista não deixa passar uma oportunidade. A ideia de ir contra o "Futebol Moderno" no final das contas é dizer não ao controle das grandes corporações e empresários sobre o esporte. Isso é louvável. No entanto, é bem comum se ver torcedores com uma posição saudosista e nostálgica em relação aos tempos anárquicos e sem controle do "Futebol das Antiga". Esses torcedores dizem que vivemos como marionetes do sistema e os times marionetes de grandes empresários, enquanto assistimos os jogos. Faz sentido, mas será que vivemos mesmo? E antigamente era diferente? É clara a manipulação do social e econômica por meio do esporte, mas isso não é coisa nova e todos sabemos (vide Copa de 70 e todas mãozadas que Corinthians e Flamengo já deram em decisões). Além disso, entramos na contradição maior desses torcedores saudosistas: em tempos anárquicos seus times roubavam e subornavam, e eram roubados e subornados, para cima e pra baixo, e mesmo assim existe essa visão romântica de que o futebol era jogado melhor e era mais puro. Sendo bem pessimistas, é provável somos e sempre seremos marionetes do sistema capitalista, até os que se dizem visionários e lutam contra ele. Mas qual a saída então?

Pós-modernidade

O Sonho do Futebol Pós-Moderno

Ao nosso ver, são necessárias quatro ações para melhorar o "Futebol Moderno" ao ponto da melhora ser inegável. Sempre existirão saudosistas e nostálgicos e sempre existirão grandes empresários e empresas (será?) se houver lucro no esporte. Infelizmente, somos humanos e somos o que somos. As quatro ações que concluímos com esse texto são:

1 - Regulamentação da mídia e dos investimentos dos clubes: um 50+1 da Bundesliga adaptado à brasileira unido a uma regulamentação da mídia (parecida com a que foi proposta por Haddad na última eleição) que dividiria as concessões de mando de campo e de transmissão para times menores e canais menores. O que ocorre ao nosso ver é que pequenos canais e pequenos times não possuem possibilidade de competição e investimentos iniciais, visto que não tem torcedores e não tem torcedores pois não possuem tempo de transmissão em canais locais. É um ciclo - o patrocinador não quer patrocinar o time pois ninguém vê a blusa - se o time não tem patrocinador o time não tem dinheiro - se o time não tem dinheiro o time não ganha - se o time não ganha o time não tem torcedor. É uma coisa impossível de se imaginar hoje em dia, mas quem sabe no futuro. Resta pressionar a CBF e votar melhor nas eleições para que o governo não deixe que a Globo compre tudo quanto é direito à venda e para passar pra Band simplesmente para outros canais não poderem comprar.

2 - Contato mais direto entre torcedor e clube: após a primeira ação, a segunda será mais fácil de ser cumprida. É necessária a valorização dos torcedores locais e antigos e ao mesmo tempo um contato com o mundo globalizado. A descentralização centralizadora dos times e torcedores. A globalização é vantajosa para os clubes e bonita de se ver quando se trata de um xadrezista russo com a blusa do Neymar, mas é desvantajosa quando o clube se esquece de quem enche seus estádios todo dia de jogo. É necessário pressionar os clubes para que olhem ao mesmo tempo para fora e para dentro para que os clubes não percam suas raízes e ao mesmo tempo possam crescer como uma árvore majestosa. Apesar de árvores não poderem voar, é possível que os torcedores associados há muitos anos paguem menos por ingressos e blusas, algo do tipo.

3 - Valorização do futebol feminino: precisamos de valorizar mais o futebol feminino, pois com mais torcedores, virão mais patrocínios, e com mais patrocínios mais times, com mais times mais jogadoras, com mais jogadoras mais competição, com mais competição melhor futebol. A crítica constante ao futebol feminino é que tem um tom desengonçado, lento e mal jogado, parece muito com o futebol das antiga poderiam dizer. Dizemos: talvez o futebol feminino seja a real vacina necessária para que o futebol volte a ter esse sentimento de fidelidade e honestidade, como era antigamente, e ao mesmo tempo seja algo globalizado. Por estar ainda em um estágio "inicial" (apesar das mulheres jogarem futebol há muitos e muitos anos), o futebol feminino e suas competições estão afastadas das grandes garras maldosas do capitalismo e dos grandes empresários, por enquanto. Tomara que elas acertem onde nós homens, erramos. Mas para o futebol feminino crescer ele precisa de torcedores reais.

4 - Resolver essa porra dessa história desse VAR do caralho: desculpa o palavreado mas é isso mesmo, não somos contra o VAR mas é necessária uma regulamentação clara e objetiva, algo adaptado do que acontece nos esportes americanos ou no tênis e no vôlei por exemplo. O problema da regulamentação atual do VAR é que ela só traz desvantagens. A primeira é que o jogo para durante muito tempo e perde seu ritmo, graças aos vídeos estarem numa salinha na puta que pariu e quem assiste os vídeos não terem contato direto com juízes e bandeirinhas ali no campo. A segunda é que apesar dos jogadores não poderem pedir o VAR, toda hora eles enchem o saco pedindo o VAR e isso para o jogo mais ainda. A terceira é que a decisão no final das contas ainda é de um juiz só e ele ainda comete os mesmos erros, independente de ter um monte de lunático assistindo o lance em um monte de tela numa salinha escura na puta que pariu. Se a regulamentação fosse mais simples, mais clara e mais objetiva resolveria tudo. Um exemplo seria o de que o time pode pedir dois VAR por jogo e apenas isso (o que acontece com substituições, ninguém fica pedindo uma substituição a mais não, tem o número e acabou), o jogo não ia parar durante tanto tempo e o povo não ia ficar enchendo o raio do saco. Outro exemplo seria colocar os vídeos em campo mesmo para árbitros e bandeirinhas unidos pudessem eles mesmo tirar as conclusões, e não numa sala lá na puta que pariu pra depois mandar pra um cara só decidir. Outro exemplo seria deixar a jogada acabar para depois olhar a porra do troço, ao invés de apitar e já ir olhando. Enfim, dá pra fazer muita coisa, mas todos sabemos que a maneira como está não dá.

Conclusão

O futebol moderno é melhor que o das antiga, sim. Chorem o quanto quiserem. A sociedade caminhou pra frente e o futebol também, aceitem. Mas existem coisas positivas no futebol antigo que vale a pena serem reinstituídas, como a valorização do torcedor como pessoa e o contato direto entre clube e fãs. O futebol moderno tem de melhorar muito ainda pra virar o futebol pós-moderno bom de verdade e estar acima de qualquer crítica. Até lá, nos resta lutar para que cada vez fique melhor esse esporte do capeta. Se alguém vier falando sobre futebol moderno mande esse texto para ele.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

As guerras esquecidas


 Nemanja Matic, à esquerda

Os conflitos da Primeira Guerra Mundial acabaram exatos cem anos atrás, no dia 11 de novembro de 1918, com a assinatura do Armistício de Compiègne pelos Aliados e pela Alemanha. O documento oficializava o fim do combate na terra, no mar e no ar. Com isso, desde 1921 os cidadãos dos territórios britânicos usam os “poppies” – um broche vermelho em forma de papoula – pra honrar os membros das forças armadas que morreram em serviço, número que ultrapassa um milhão. Em todos os anos, desde então, a homenagem se prolonga por dias durante o mês de novembro, até o Remembrance Day, que em 2018 foi um domingo.

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Quando o vilarejo sérvio de Vrelo foi bombardeado em 1999, numa ofensiva da OTAN pra expulsar forças sérvias do Kosovo, Nemanja Matic tinha 12 anos. Esse foi um dos episódios da Guerra Civil Iugoslava, uma sequência de conflitos armados que aconteceram na antiga Iugoslávia, cujo objetivo, entre outros, era a formação de um estado sérvio. Quase todos os crimes de guerra foram cometidos, como limpeza étnica, crimes contra a humanidade e estupro. O Reino Unido é membro da OTAN desde 1949.

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Quando James McClean era um garoto em Derry, Irlanda do Norte, também por volta de 1999, ele ouvia histórias sobre as seis pessoas que viviam no seu bairro e haviam sido mortas no Domingo Sangrento, em 30 de janeiro de 1972, aquele mesmo de "Sunday Bloody Sunday", do U2. Nesse dia, o Exército Inglês atirou em católicos e protestantes desarmados que manifestavam contra a mania do Governo Britânico de prender cidadãos suspeitos de terrorismo sem julgamento e contra as diferenças religiosas em seu país. Catorze pessoas morreram. A Irlanda do Norte faz parte do Reino Unido desde 1921, quando foi fundado o estado após a separação do que se tornaria a República da Irlanda.

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Nos últimos anos, as ligas profissionais inglesas de futebol adotaram o uso dos poppies no uniforme dos clubes pra lembrar os mortos, mas não sem causar constrangimento entre os jogadores que discordam da prática. Matic, do Manchester United, e McClean, do Stoke City, não usam o broche e tiveram de se justificar publicamente depois de repreensão pela imprensa e ameaças por parte dos torcedores dos próprios clubes em que jogam. Com os motivos explícitos revelados pelos atletas, fica implícito que eles enxergam no poppy a desapropriação de um ato genuíno por políticos britânicos do presente que impulsionaram guerras no Afeganistão, no Iraque ou na Síria, por exemplo. Antes disso, óbvio, estão as experiências dos dois jogadores, que viram de frente o gosto por guerra do país que criou o futebol.
 
James McClean, à esquerda

Matic e McClean não falharam em prestar respeito aos mortos da Primeira Guerra mesmo sem usar o poppy. Do outro lado, o Reino Unido também não falhou em violar o direito à vida desses jogadores e de tantos outros sérvios, irlandeses e cidadãos de outras nações ao longo dos últimos cem anos. Quando o apocalipse se torna prioridade e é guerra o que se deseja, é preciso encarar as consequências e não as deixar pra caridade ou homenagens póstumas. Não existe lado certo na guerra, mas nos tempos de paz também é necessário lembrar dos mortos no outro lado da trincheira.

Aqui no Brasil, domingo foi dia de prova II do Enem e nenhum brasileiro recebeu homenagem por ter morrido na Primeira Guerra. Eu, que não tenho nada que ver guerras mundiais e Reino Unido, não usei o poppy. Eu não gosto de guerra nem de forças armadas, mas gosto de futebol e de U2. Nunca duvidei da força social que move esse esporte e acredito que ele seja lugar pra expressão de todos os pontos de vista que interessem às comunidades local e global.

Na Inglaterra, o grito silencioso de dois jogadores – que não foram os únicos – foi ouvido de longe e incomodou. Incomodou porque guerras esquecidas foram lembradas a uma nação cujo patriotismo exacerbado promoveu a separação do resto da Europa, o que faz com que eu me pergunte quando vão lançar o broche em homenagem à sensatez soberana britânica.

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Matic entrou em campo nesse domingo, e seu time perdeu o clássico de Manchester por 3 a 1. O Stoke City de McClean jogou sábado contra o Nottingham Forest e não saiu do 0 a 0. Mais uma vez eles não usaram o broche.


quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Os Daronquinho

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ESCLARECIMENTO

DARONQUINHO (do grego vulgar Daronco + -inho, in "brasilian affective diminutives")
          Da-ron-qui-nho: Subs. Masc. Sing.

         Aquele que, em certames e jogos, faz cumprir as regras estabelecidas; árbitro, julgador; juíz. Autoridade máxima dos preceitos da moral e ordem.

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Daronquinho 1

Antes de mais nada, vamos esclarecer uma coisa: consultei um especialista nas linguagens das ruas paulistas, o internacional Tiago Baccarin, primo da Morena Baccarin e faixa-preta em significados informais das palavras portuguesas na internet, só para trazer essa novidade. O hodierno termo vem suprir a necessidade de nomear aqueles juízes que por vezes ou parecem não dominarem totalmente as determinadas normas existentes no desporto ou então dominam muito mais do que nos deixam saber as "regras do jogo". Isto é, esclareço ainda mais, tomam algumas decisões, naqueles calorentos momentos, minimamente questionáveis, o que nos faz pensar que talvez as "regras do jogo" sejam um pouco diferentes daquelas documentadas em papéis. 

De acordo com o nosso especialista, o termo Daronquinho deriva de um monstro da arbitragem, Anderson Daronco, cujo os braços são maiores que seu currículo. Até onde consta, pelo viés popular, a nova palavra acabou se desvinculando de sua origem, tornando-se singular. Apesar disso, ainda é um excelente objeto ilustrativo para se pensar o papel dos Daronquinho nos vários jogos de diferentes níveis disputados nesse Brasilzão de Deus. Como o nosso blog é totalmente imparcial, não poderíamos afirmar, por exemplo, todo o "amor" que os palmeirenses nutrem pelo Daronco original, afinal foi ele quem em várias ocasiões prejudicou o verdão, hoje líder do Assaí. Também não podemos afirmar ser bastante questionável a inalienação seletiva de determinados juízes por aí ao condenarem alguns e caucionarem outros. Afirmaremos, todavia, que estaremos discutindo somente, e tão somente só, as ações de Daronquinho que, no limiar da verdade, transpassam algumas de suas motivações ou incapacidades de arbitragem no decorrer de suas ações. 

E não é de se espantar que quando presenciamos as ações dos juízes tomemos, por nós, certos juízos. Obviamente que tais juízos jamais seguirão totalmente desconectados da realidade, e mesmo que não sejamos inteiramente capacitados, nossos julgamentos se aproximam do que nos ensinam as regras existentes e fundamentadas, os indivíduos discricionários dotados de poderes e, para não dizerem que não sou de humanas, uma porcentagem mínima de uma praxe subjetiva e pessoal. Assim se salvaguarda o direito a sistematização de eventos populares, como o esporte, e a tentativa de se organizar essa festa, já afirmada aqui em outra oportunidade, emanada pela democratização e carnavalização popular. Salvaguarda-se também o ingrato papel da arbitragem nessas várias festas, visto que o caráter burocrático tende a diminuir diferentes pesos que porventura podem ser aplicados a uma só medida. Entretanto, é importante elucidar que há igualmente o salvaguardamento do direito ao questionamento desses poderes, pelo princípio básico de cada um que é a tentativa... Repito, a tentativa de se aperfeiçoar e minimizar injustiças. Todavia, há injustiças. E por mais que o texto sirva mais como uma evidenciação anedótica que propriamente como um discurso fundamentalmente científico, ainda assim há injustiças praticadas por injustos em posição de juízo que precisam ser discutidas. Nesse sentido, lanço mão à pergunta: quem julga os julgadores?

Daronquinho 2

A bola da vez para ser discutida é o Inter. Nessa trigésima segunda rodada do brasileirão alguns argumentaram que o colorado sagrou-se vencedor por 2 a 1 na partida contra o Atlético Paranaense por interferência direta do juiz, mas não o juiz da foto, que é o Igor Junior Benevenuto, mas do juíz Rodrigo Ferreira. Na partida contra o Furacão, o Daronquinho Ferreira chamou a responsabilidade para si ao marcar alguma coisa sobre Rossi na entrada da área. Eu sei que existem algumas discussões relacionadas no Brasil recentemente sobre "pós-verdades" e qual a melhor maneira de se lidar com tanto erro de leitura cometidos por brasileiros, porém no lance a gente verifica perfeitamente que não foi pênalti. Tudo bem, na realidade tudo acontece muito rápido e muito bagunçado, e às vezes essas figuras de arbitragem se guiam mais pelos instintos que propriamente por toda a racionalidade de um replay. Pois bem, na trigésima primeira rodada do Assaí, uma antes dessa polêmica, o Inter se envolveu numa outra polêmica acerca de pênaltis, só que dessa vez contra o Vasco e dessa vez contra a si. A partida foi incendiada por Kelvin que, aos 44 do segundo tempo, tentou invadir a área e foi supostamente derrubado por dois jogadores colorados. Verdade seja dita, o Daronquinho Benevenuto apenas acatou a marcação daquele encostado que fica sentado ao lado do gol, e marcou um pênalti não existente, o que concedeu a Maxi Lopez a oportunidade de empatar a partida em 1 a 1. Na trigésima rodada, mais uma vez o Inter, agora sem pênalti, viu um de seus gols anulado no empate por 2 a 2 contra o Santos, num lance em que, após uma divisão entre Cuesta e Sánchez, a bola sobrou para Leandro Damião que numa rara oportunidade fez um belíssimo gol. Anulado. Coitado do Damião, nunca faz gol, e quando faz tem lá um Daronquinho pra atrapalhar. 

Recentemente o presidente do Internacional encabeçou uma iniciativa. Com apoio inicial de 14 clubes da série A do brasileirão, o intuito era aplicar ao campeonato a utilização do famigerado VAR nos restantes jogos da competição. Mais tarde, quatro outro clubes juntaram-se ao manifesto (apenas o Vasco se omitiu, e o Atlético Mineiro, até onde saiba, apoiou, porém com ressalvas). O pedido foi negado, afinal não adiantaria ter esse tipo de iniciativa ainda nesse campeonato. Em entrevista após o último jogo contra o Furacão, Marcelo Medeiros comentou sobre o mais recente erro dos Daronquinho. E não tem muito para comentar sobre isso, já que se fossemos continuar a contagem de erros a favor ou contra qualquer equipe brasileira em competições nacionais ou internacionais ficaríamos apontando em quase todas as partidas os mesmos "erros capitais". A imagem que fica é que as justiças feitas assemelham-se muito mais a injustiças recorrentes, travestidas de exceções num balanceamento e nivelamento pelo "regular". Por fim, fica evidente o comentário do Coronel "Daronquinho" Marinho, presidente da Comissão de Arbitragem da CBF, que disse que se fossemos balancear os acertos e erros estaríamos em saldo positivo. Em entrevista ao Sportv no dia 24 de outubro, a avaliação pelo Coronel Daronquinho sobre a arbitragem foi "bom". Muito sucinto.

Daronquinho 3


Acredito que tenha sido Walter Benjamin que afirmou em sua vasta bibliografia ser a realidade composta de inúmeras injustiças, a grande maioria delas sem possíveis remediações, e sendo, não obstante, a maior dessas injustiças a nossa eventual apatia frente ao estado de absurdo da realidade. Temos o direito, como foi dito, de manifestarmos e apontarmos as injustiças. Pois, apesar de gritarmos aos ventos,  gritamos com a segurança de não estarmos apáticos e pecadores do maior dos pecados. E mesmo que as instituições sistematicamente burocráticas existam para moderarem a ocorrência de um maior número de injustiças comparadas àquelas já ocorrentes, ainda assim são passíveis de críticas, por mais levianas que sejam, tal como esse texto. A própria figura de autoridade por si é contraditória, uma vez que ela busca minimizar, senão acabar, com as contradições de seu campo. Como falei, é ingrato o papel de árbitro... O d'Os Daronquinho, nem tanto. O papel dos Daronquinho é servir de exemplo elucidativo da incapacidade de se ajustar totalmente a sociedade ou manifestações sociais a um tipo de comportamento inteiramente moralista e ordenado. O papel dos Daronquinho é fazer a gente ver que um dia um time ganha, noutro o time perde, por vezes com interferências externas, e tudo que podemos fazer é aguentar e seguir em frente, porque amanhã pode ser a nossa vez de sermos beneficiados em detrimento de se prejudicar outro alguém. O papel dos Daronquinho é afirmar o caixa 2 como um dos piores crimes democráticos e depois afirmar que está tudo bem o Ônix Lorenzoli ser possível ministro, já que ele se desculpou, e não ter problema nenhum em aparentar estranheza quanto a sua tendência pessoal.

No jogo das comparações, talvez seja ingrato, da minha parte, julgar essas figuras de autoridade do conforto da minha casa sentado na minha cadeira de plástico escrevendo no meu blog amado. Talvez esse não seja o meu papel, o de julgar os julgadores. Mas de uma coisa eu tenho certeza, é meu papel colocar os Daronquinho com erro de concordância em todo o texto, porque se eles não concordam entre si lá fora, não sou eu quem vai fazê-los concordarem aqui dentro. 



***
Fica registrado meu apoio ao Paraná, matematicamente rebaixo. Força, consagrados!
Fica registrado também meus agradecimentos ao Tiago Baccarin, o primo que, com muito senso de humor, concordou aparecer nesse blog. Muito obrigado. 

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Elogio à teimosia


Mil vezes a derrota dos teimosos à vitória dos embusteiros. Só mesmo vacilão pra tomar o lado de certos vitoriosos, e não faltam casos que deem conta disso na história dessa nossa terrinha sofrida. Eu poderia narrar aqui a fibra dos sertanejos que preferiram acabar cravados de petardos e soterrados pelos escombros da sua comuna evangélica em Canudos a levar desaforo dos graúdos, ou o atrevimento de Zumbi no cerco derradeiro ao quilombo de Palmares que, não se sabe se por conhecimento de causa ou intuição de gênio, imitou a estratégia empregada por outro escravo insurgido dezessete séculos antes dele, contra o general romano Caio Clódio. Encurralados no monte Vesúvio, Espartaco e sua galera improvisaram um rapel com as cordas de que dispunham, arrodearam o despenhadeiro, subiram por trás dos inimigos e cobriram eles de porrada. Zumbi não teve a mesma sorte e os quilombolas foram lançados abismo abaixo, eu poderia até entrar a sordidez dos detalhes, mas como o blog trata é de futebol, vou contar a história da derrota que me levou a escolher a camisa do Galo. Além do mais, são tempos sinistros, a treta se assoma no horizonte e eu não quero pesar a onda de ninguém.

Em meados de sei lá quando, eu vivia de favor com uma porção de familiares aparentados por sangue e por empréstimo, espalhados por casinhas e barracões num mesmo lote, não tão longe do Mineirão, e o Galo caiu pra segunda divisão. Num desses barracões, morava meu primo Igor Galo Doido. Calculem que, além desse apelido que dispensa comentários, meu primo era conhecido na família por não vestir azul. Na época, eu fazia pouco caso do futebol, mas mesmo assim me impressionei com a atitude do meu primo: diante da derrota, Igor e Túlio, seu parceiro de camisa e de copo, prometeram ir a todos os jogos disputados em casa pelo Galo, até que ele voltasse à primeira divisão, e eu perdi a conta de quantas vezes vi os dois saírem uniformizados com a peita alvinegra e voltarem roucos e trocando as pernas. Não foram poucas as estradas que os dois pegaram pra acompanhar a campanha do time em outros estados. Enfrentaram a derrota com teimosia.


Foi também com teimosia que os times brasileiros enfrentaram a justiça seletiva do árbitro de vidro na Libertadores esse ano. Primeiro o Cruzeiro contra o Boca e depois o Grêmio contra o River. Conforme apitava a conveniência, o juiz do futuro arquivava lances duvidosos, ou interrompia suas férias pra martelar sentenças questionáveis. O Grêmio sofreu nas mãos de um juiz carcamano, como chamavam antigamente os comerciantes italianos pelas bandas do Paraná (acredito que a ascendência italiana me confira o direito de usar essa injúria), que forçou com as mãos um dos lados da balança usada pra sopesar os lances do jogo: resultou daí que carcar a mão na bola tinha um peso e penalidade diferentes pra cada time. No caso do River, carcar a mão na bola não foi sequer a julgamento; já no caso do Grêmio, foi crime punido com penalidade máxima e um gol que não foi marcado pela mão de Deus, mas com um empurrãozinho do juiz. Nem por isso o Grêmio abandonou a partida, enfrentou a injustiça com teimosia. É verdade que perdeu e foi eliminado, mas haverá outras Libertadores pra disputar, o mundo gira, vacilão roda e, mesmo quando a derrota lhe faz cara feia, a vida teima em continuar.

sábado, 27 de outubro de 2018

Uma nostalgia para tempos vindouros

Belo Horizonte é uma cidade que é uma espécie de conjuntos de vales rodeados por montanhas. Nesses vales – se é que posso chamá-los assim – nesses vales, então, a cidade foi construída: uma das primeiras capitais brasileiras planejada, desenhada, racionalmente sonhada. BH foi pensada como avatar da Modernidade e da utopia de conter nossos desejos nos tracejados da Avenida do Contorno; cidade do futuro, para o progresso e o iluminismo. 

Por entre os vales e entre as montanhas, no entanto, a cidade com o belo horizonte se especializou em produzir uma escrita do tempo marcada pela melancolia. Os morros da Bahia em direção à Praça da Liberdade ou as espeluncas do centro da cidade são, desde sempre em meu coração, melancólicos. Quando a gente sua subindo os vários morros daqui, os versos do Drummond buliçam nossos olhos. 

Estou aqui em Belo Horizonte hoje. Na semana que passou, o Cruzeiro jogou contra o Ceará e, contra todos os prognósticos, perdeu por 2 a 0. Na quarta-feira, esse jogo me passou despercebido, mas ontem e hoje, pareço não parar de pensar. Torço – bem de leve – para o Cruzeiro devido ao meu pai. O Cruzeiro é, pra mim, a representação máxima da herança e da tradição incrustada nas pedras de BH. Sempre admirei mais a torcida do galo, mas, como boa herança paterna, não se larga somente com uma vontade. Todas as vezes em que me lembro que torço para o Cruzeiro, me lembro de Belo Horizonte, de meu pai ausente e, principalmente, da melancolia de minha cidade. 

Torcida do Cruzeiro em 1996, quando o time ganhou a Copa do Brasil

Escrevo hoje sobre o passado porque estou nostálgico de um futuro que pode não chegar. Escrevo sentado num dia nublado de Belo Horizonte, daqueles de outubro em que faz muito calor num céu sem sol. O Ceará jogando contra o Cruzeiro me lembrou que moro na terra do sol e, longe de lá, penso sobre nosso futuro no Brasil.

Essas últimas linhas que vou teclando acontecem na véspera da eleição mais importante do Brasil dos últimos tempos. Mais: instaura um tempo em que cada eleição vai ser mais importante que a anterior. Talvez esse texto seja esquecido por um resultado desastroso na eleição de amanhã, mas nossa esperança nostálgica de um futuro afetuoso permanece. 

sábado, 20 de outubro de 2018

Quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Boa noite, D. Como passou a semana? 
Acho que ainda não me acostumei com a ideia de escrever cartas. Fico pensando sobre essa disciplina e o que levou nosso professor a querer que escrevêssemos cartas uns aos outros. Talvez daqui alguns anos outros estudantes da USP leiam nossas cartas para entender o que se passava na cabeça dos jovens de nossa época. Desde já me sinto mal, se nós não entendemos o que está a acontecer, que dirá eles. Ou talvez entendam muito melhor e olhem para nós com resignada tristeza, assim como nós olhamos as fotografias em preto e branco de 64. A você e aos leitores do futuro deixo minhas sinceras desculpas por nunca saber o que dizer em minhas cartas, recebi e escrevi poucas em minha vida.

Em sua última carta você mencionou que é um grande fã de futebol. Gostaria de dizer que também sou, assim poderíamos trocar várias cartas com longos comentários sobre jogos e campeonatos. O assunto nunca se esgotaria. Me interessa e me fascina o esporte, mas confesso que não tenho muito tempo para acompanhar e não torço para nenhum time. J. continua a insistir que tenho cara de alvinegra durante as aulas e isso me diverte. Fico imaginando se você pensa da mesma forma. Pelo forma que ela escreve, só pode ser alvinegra. Não tenho certeza se as cartas de Clarice Lispector estão em nosso programa, mas você sabia que ela era Botafogo? Jamais imaginei algo do tipo. 

Hoje o expediente acabou tarde. No metrô várias pessoas acompanhavam a final da Copa do Brasil pelo celular. Meu primo enviou uma foto sorridente no Itaquerão em meio as discussões políticas do grupo da família e acho que todos nós entendemos aquilo como um pedido de trégua. Na baldeação da Sé fiquei sabendo do primeiro gol do Cruzeiro. 

Esta noite torci secretamente pelo Corinthians. Talvez J. esteja certo. Apesar de não ter um time, nunca simpatizei com tricolores. Venho de uma família e de um bairro majoritariamente corinthiano. Em final de campeonato é tudo muito intenso, muita gritaria e fogos pela rua. Lembro do episódio em que o hino do Corinthians tocou a madrugada inteira pela vizinhança, impedindo o sono de todos. 

Quando lembro dessas alegrias, quase me permito esquecer dos episódios de bateção de panela pelo bairro. Infelizmente tenho uma memória muito boa e o esquecimento não é um privilégio meu, nunca poderá ser. Você se lembra da história do sequestro do embaixador norte-americano em 1969? O professor comentou na minha turma, não sei se na sua também. Em 1969 o embaixador Charles Burke Elbrick foi sequestrado por militantes da Aliança Libertadora Nacional e da MR8. Ele foi solto na tarde de 7 de setembro de 1969, após a libertação de 15 presos políticos da ditadura. Havia uma partida de futebol acontecendo naquela tarde no Maracanã, o mesmo Cruzeiro vencia o Fluminense. Na dispersão da torcida, os militantes libertaram o embaixador e escaparam em meio a torcida. 


Manchete do Jornal do Brasil sobre o sequestro. Exatamente dois meses após o sequestro, Marighella foi encurralado e morto. 

Esta noite eu esperei por qualquer coisa assim. 
Silêncio total no bairro. Sem fogos, sem gritos, sem hino do Corinthians pela madrugada. Esperei por alguma manifestação de alegria, miníma que fosse. Ela não veio. A rua não estava em festa como já esteve. 

Peço desculpas por sempre escrever sobre coisas tristes, mas me parece cada dia mais difícil me alegrar por qualquer coisa. Se daqui alguns anos estas cartas forem objeto de estudo para a epistolografia, espero que elas ajudem a entender o momento político e histórico que vivemos. Acredito que a narrativa individual e a narrativa dos sofrimentos também ajudam a escrever a história. 

Amanhã espero poder recomeçar. 
Me escreva sobre qualquer coisa e me diga seu time de futebol. Torço para que seja algo feliz. 

Um abraço,
M. 

terça-feira, 2 de outubro de 2018

Paixão e Objetividade

Ultimamente tenho me encontrado cercado de dúvidas, das mais diversas. Me sinto sem respostas às indagações que faço interior. Então, não sei lá muito bem o que sairá deste texto ao final e assim é a paixão e a objetividade. Existe uma grande dificuldade ao analisarmos certos assuntos que nos envolvem emocionalmente e, ainda sim, sermos justos, objetivos e, por fim, reconhecer o certo e errado. Normalmente prefiro dizer que existem apenas caminhos, e que cada decisão leva a um caminho diferente. Exceto o óbvio ululante.

Isto posto, reflito como este esporte tem impactado a mim durante todos estes anos. Já passei momentos em que acompanhava afinco, ora indo ao estádio, por outra escutando na pachequíssima rádio Itatiaia. Esta, por sinal, me causa um grande mal estar. Não gosto destes tipos de emissoras que parecem mais torcer para os times locais e que preferem passar a mão na cabeça dos times e seus cartolas para conseguir perguntas sem nenhuma relevância aos fins de jogos.


Vista aérea do antigo Mineirão e seus arredores

Anos se passaram, as ridículas participações em Copas do Mundo, a pobreza do futebol jogado nos campeonatos caseiros continuou e o cinismo entrou. Nessa época, há alguns anos, já estava deixando de lado o futebol. Mal vi o meu time ser campeão duas vezes
da maior competição nacional. Compartilhava uma alegria aqui e ali, mas alguma coisa parecia errado. Passei a ver o negativo em tudo e no jogo também. Sabia destrinchar da cabeça aos pés as mazelas. O mal jogo praticado, os técnicos com estilos ultrapassados, dirigentes dos times cometendo decisões questionáveis a todo instante, chegando, claro, até a piada maior, a Confederação Brasileira de Futebol. Justo nós, tido como o país do futebol, o maior celeiro de talentos de todo este planeta.

Nesse momento, me vejo numa situação nova. Várias questões pessoais mudaram nesta última década vivida e a natureza desta vida têm me mostrado muito benéfica. Até para uma pessoa do contra. Todos conhecemos este tipo de pessoa, preferem torcer a mão do que reconhecer algo. “Jamais me renderei ao futebol moderno” esta e outras frases sobre vários assuntos. De toda forma, os tempos mudaram, e aqui estou escrevendo e voltando a acompanhar futebol. Não com a mesma paixão de antes mas animado e vivo.


Gol da vitória do boca juniors

Há duas semanas atrás eu me dei a oportunidade de ver o jogo do Cruzeiro contra o Boca Juniors. Saí mais cedo do trabalho, comprei cerveja, tinha petiscos, tinha meu pai, minha mãe, minha tia e meu tio. Tava animado, promessa de jogo bom, de emoção para os dois lados. Me deu até vontade de ir ao estádio com meu pai novamente. Reviver uma antiga experiência. Seria legal. Talvez. Os estádios antigos morreram. Nenhuma destas Arenas, que parecem mais shopings, podem trazer de volta aquela sensação. Era diferente, melhor ou pior, acredito que aquilo ali era mais real. Inclusive os tremores das instalações quando os torcedores pulavam nas arquibancadas. Era o máximo, pergunte a qualquer um.

Talvez eu só esteja sendo saudosista, sempre buscamos o passado como uma forma de nos trazer conforto de alguma forma. Assim como foi assistir o jogo junto ao meu pai. Hoje, estou feliz de estar aqui escrevendo com este grupo de amigos, acompanhando de uma forma mais saudável e menos objetiva. Acredito que somos indivíduos que tomam a maioria das decisões com mais paixão do que objetividade de fato. Ultimamente está muito claro, para mim. Talvez eu esteja errado. Sei que naquele dia do jogo a paixão prevaleceu, e me senti melhor do que se eu realmente tivesse sentado para analisar aquele jogo. Já me sinto pessimista a maior parte do tempo, pelo menos ultimamente tenho conseguido reconhecer alguns momentos onde a paixão e o otimismo tenham mais cor.

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Liberdade de expressão não paga o meu ingresso

"Dia 15 vote"

No início dos anos 1980, o Corinthians vinha de temporadas ruins, sem resultados expressivos dentro de campo, mas teve um dos times mais importantes da história do futebol brasileiro. Liderados por Sócrates, o único do escrete que vestia a camisa amarela, e por outros jogadores politizados – Wladimir, Casagrande e Zenon –, eles criaram um movimento que mais que nunca deve ser lembrado, a Democracia Corinthiana.

A proposta era muito simples, mas muito inovadora: as decisões do clube, como contratação e escalação de jogadores, concentração da equipe, o restaurante em que jantariam e até mesmo se beberiam cerveja depois dos jogos, eram tomadas por meio de uma votação democrática, em que todos os membros, do técnico ao roupeiro, tinham o mesmo peso. Num esporte conservador como futebol (que fica anos sem mudar as regras, que por décadas proibiu as mulheres de o praticarem) isso é de uma relevância incontestável, principalmente quando você se lembra que eram os últimos anos da Ditadura Militar, e a palavra "democracia" era ainda censurada no Brasil.

A ideia teve base no diretor de futebol Adilson Monteiro Alves, um sociólogo, que se ocupava em ouvir os jogadores e demais membros, uma atitude que até hoje nos soa revolucionária. Nessa gestão, que logo se tornou uma autogestão do clube, o Corinthians, cujos jogadores casados eram dispensados da concentração pra ficar com a família, chegou a uma semifinal de Campeonato Brasileiro e venceu dois Paulistas em cima do São Paulo, o time da elite (veja você que conveniente!). Esses mesmos jogadores, que tragavam cerveja e cachaça depois dos jogos, eram tidos como descompromissados pela imprensa, numa demonstração vulgar de repúdio ao movimento.

Essa politização do clube não reverberava somente nos assuntos futebolísticos, já que a Democracia era um ataque silencioso à opressão da Ditadura. A prova disso é o próprio uniforme do clube. Numa época em que as marcas começavam a estampar suas logos nos uniformes de futebol, o Corinthians, ainda sem patrocinador, entrava em campo com as frases "Diretas Já" ou "Dia 15 vote" estampadas na camisa, essa última em referência às eleições estaduais de 1982, as primeiras em 20 anos. 

Em 1984, depois de resultados ruins em campo e mudanças na direção do clube, o movimento enfraqueceu, e Sócrates cumpriu o que havia prometido. Ele disse que sairia do Corinthians se as Diretas Já não fossem aprovadas pela Câmara dos Deputados no dia 25 de abril, e na Itália ele foi jogar.

 
"Ganhar ou perder, mas sempre com democracia"

Damos um salto pra 2018 e estamos com a democracia supostamente instaurada no Brasil. As eleições presidenciais estão chegando e, naturalmente, cada um tem a sua visão de país. Jogador de futebol hoje joga muito menos e ganha muito mais, mas, como não são artistas, a gente nunca espera um posicionamento político muito forte deles, o que não nos impede de sentir enorme desapontamento quando nossos ídolos falam qualquer besteira no Twitter. Quando o Neymar, em 2014, declarou apoio ao Aécio, a gente relevou, afinal alguém esperava alguma consciência social do jogador que desde os 13, 14 anos ganha um salário de CEO? Eu não.

Pois bem, a coisa começa a ficar feia quando você vê esportistas, muitos deles de origem humilde, apoiando o Jair Bolsonaro, um político que dispensa adjetivos. Se você não sabe quem são, eu vou dedurar alguns deles aqui: Felipe Melo, do Palmeiras; Lucas Moura, do Tottenham; Jadson, do Corinthians; e Maurício Souza e Wallace, da Seleção Brasileira de Vôlei.

O esporte pode ser uma mudança no quadro de comportamento de quem assiste e pratica. E quando você pensa no futebol, que tem como torcedores os operários mais incansáveis da nação, qualquer manifestação antidemocrática é muito grave. Sendo torcedor de um time do povo, que tem como ídolo o Reinaldo, um cara que, além de jogar muito, era abertamente contra o regime, eu me questiono sobre o que o Sócrates diria de ver jogador do Corinthians votando em candidato que faz apologia a tudo aquilo que a gente mais condena. E, sim, eu tive a pachorra de me colocar lado a lado dele que não foi o melhor, mas foi o mais importante jogador do Brasil. 

Eu acredito na democracia e eu poderia morrer pela liberdade, mas, se você paga ingresso pra gritar o nome do Bolsonaro, como fizeram torcedores do Galo outro dia, você entendeu errado o que é o esporte mais popular e democrático do planeta, o único em que o pequeno pode ganhar do grande. Isso não é liberdade de expressão, isso é compactuar com alguém que quer o seu mal, porque você certamente não faz parte da patota dele. Você vai perder, assim como aqueles que você quer prejudicar.

O Corinthians acabou com a minha infância em 1999 quando levou o Brasileirão em cima do Atlético, mas eu dou a ele o respeito que ele merece por ter feito algo inédito e que certamente não vai se repetir enquanto houver cartolagem e CBF, e por isso eu espero muito que eles acabem com o Cruzeiro na final da Copa do Brasil.

(Antes de escrever esse texto eu assisti aos documentários "Ser campeão é detalhe: Democracia Corinthiana", de Gustavo Forti Leitão e Caetano Biasi, e "Democracia Corinthiana", produzido pela Coritinthians TV, ambos disponíveis no YouTube.)

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Quem chora por nós

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A concretização do erro na mitologia brasileira

O Apóstolo João deve ter ficado com uma pontinha de "eu avisei" quando as pessoas pareceram não dar tanta razão para seu evangelho. Mal sabia ele das desventuras de se escrever sobre um mito de fundação... Ou talvez soubesse, mas preferiu mesmo assim tentar ilustrar a real materialidade das coisas, ao invés de pontuar diretamente a imaterialidade daquilo que vemos.  Coitado do João! E eu, que ainda não me chamo João, vou tentar explicar de novo. Por isso peço uma modesta licença, antes de apresentar o verdadeiro tema desse texto.

Em São Paulo acabei por ter mais convicção de que não será pelo viés científico que se salvará o futebol. Afinal, algumas pessoas ainda discutem o lance ilustrativo acima como se fosse possível encontrar o real problema. Será que o juiz acertou? Será que ele errou? A resposta não interessa. Interessa muito menos ainda a discussão sobre o VAR. Será que ele vai acabar com os erros? Cadê aqueles 99,3% de acertos? Para piorar, pode-se argumentar que esse lance talvez conste entre os 0,7% de erros humanos, resguardando, assim, a ferramenta. Porém, mais uma vez, a resposta não interessa.

O que talvez interesse mais é olhar para outros lugares.

Juca Kfouri, por exemplo, um de nossos concorrentes no mercado de Blogs, foi conciso: "O duro no futebol brasileiro é isso. É ver quem defende a lisura de procedimentos". O blogueiro e escritor e jornalista e petista se refere ao "homem forte do futebol" do Cruzeiro, Itair Machado. Parece que o tal Itair saiu reclamando justiça à CONMEBOL, tudo com uma pitada de propagandinha. Logo ele, um dos responsáveis por trazer Gerson Magrão para o Cruzeiro. Contudo é Juca quem fala em justiça. Em seu pequeno Blog, quase tão pequeno quanto esse, Juca (ou João) reconhece a contradição dos injustos que cobram por justiça elegendo ainda mais injustos para postos de juízo.

O que mais me enraivesse é saber que no fundo a gente não pode nem falar sobre isso. Porque quando se fala em "domínio de pauta" é falar também que, ao criticarmos, normalmente criticamos a coisa errada. Seria como falar que o brasileirx não pode demorar mais cinco minutos no mimo do banho quente porque o Brasil não tem mais água, e simplesmente ignorar os impactos da agropecuária. Toda a conjuntura é desprezada pela maioria na medida em que se põe os holofotes sobre alguma âncora qualquer. Nesse caso, nem ao menos é a injustiça o maior problema, e sim os afetados. Podemos não entender a totalidade da conjuntura que levou propriamente a utilização do VAR para a maneira que é utilizada, por outro lado não podemos nos esquivar da realidade que é o balde de água fria que sempre é jogado sobre um pobre coitado. No exemplo da água, é sempre o pobre quem sofre, e, no do futebol, o torcedor.

E o VAR, de herói a vilão, continua sendo o tema, sendo a pauta. Nunca é demais reafirmar, para esclarecer, que a utilização da ferramenta não muda em nada os problemas do esporte. Pois existe uma vergonha interna que impede qualquer um ali dentro de exercer quaisquer tipo de justiça. Infelizmente, os verdadeiros prejudicados acabam sendo os torcedores. Não que eles sejam completamente inocentes, mas torcedor é um coisa tão sofrida, tão coitada, que é ele quem sempre chora.

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Estudiantes de La Plata, mais um time argentino que põe luz sobre problemas no Cruzeiro

Por isso o futebol mexe com a gente de um jeito pessoal. E não é de se espantar que as pessoas se agarrem nas primeiras coisas que aparecem - para o bem e para o mal. E é só falar de Gerson Magrão que me vem à memória a Libertadores de 2009, e como nessa competição uma parte de mim morreu. Provavelmente aquela parte de mim que torcia. Morreu em mim o torcedor cruzeirense nessa Libertadores que acreditava que o mundo poderia ser mais bonito se você acreditasse muito em uma coisa. Provavelmente por isso não bateu tanto os 7 a 1 do alemão, já que havia um outro 7 a 1 marcado no Mineirão, só que na forma de 2 a 1, muito mais sofrido, feito por um argentino.

Teorias e complexos conspiratórios fizeram com que os cruzeirenses procurassem por justificativas para o desencanto da final. E a discussão relativa ao  recebimento, por parte do elenco do Cruzeiro, do montante arrecadado pelos 65 mil presentes no estádio para o segundo jogo, foi o maior alvo. Na época eu confesso que me importei. Hoje olho pra trás e vejo que, mais uma vez, nada importa. A verdade é que o Cruzeiro perdeu em campo, o torcedor sofreu em casa, e essa parte de mim morreu. E o que restou foi catapultado para outro lugar, com outro posicionamento, que tenta ver na memória e no presente uma lição de vida, ao mesmo tempo que se encontra mais maduro para os outros desafios.

O real tema do texto repousa um pouco no resultado desses 2 a 1. A de que esses problemas extracampos, por vezes espelhados nas instituições que compõem as regras, e por vezes naquelas instituições que participam dos torneis, influenciam negativamente na paixão que a pessoa tem pela vida. Não é de se admirar, portanto, que o torcedor, assim como em vários outros núcleos da sociedade, acabe desesperado. Há um grande acontecimento, que escapa às nossas mãos, que nos fazem chorar. De um jeito muito esquisito, esse sofrimento, porém, acaba sendo reconfortante. Porque o que há de comunidade na sociedade é a comunidade do sofrimento. São os que, retirados de seus locais de conforto, acabam simpatizando-se com outros, na mesma situação. O futebol, em certa medida, funciona assim. Mesmo que ele divida os torcedores em bandeiras, ainda assim uma coisa boa ele faz, que é unir todo mundo nessa comunidade de sofrimento que torce.

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Independente de tudo, a vida é uma coisa muito bonita, até nos momentos mais tristes

Não era meu intuito realizar todo um exercício retórico para se alcançar esse momento. Por vezes o texto acaba tomando uma certa vida e se emancipando das mãos do próprio escritor. E toda uma variedade de informações que gostaríamos de pontuar pulam à frente de temas mais importantes, como o presente mês que vivemos. Desde um acréscimo à discussão sobre o VAR, continuando por um texto de xingamento aos líderes das instituições do esporte que se posicionam tão desesperadamente frente às câmeras para popularizar discursos contraditórios, passando, ainda, por um guia do torcedor menos tóxico, ou até o que eu gostaria que esse texto fosse. Isto é, um texto sobre a vida. No final, sai alguma coisa meio sem forma, e aparentemente sem propósito. Mas, assim espero,  muito bonita de se ver, parecida mesmo com a vida.

Tive uma certa dificuldade em encontrar menções envolvendo o futebol e o Setembro Amarelo, campanha filantrópica realizada em conjunto pelo Centro de Valorização da Vida (CVV), o Conselho Federal de Medicina (CFM) e a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) que visa a prevenção do suicídio e apoio das pessoas em estado de risco. A coisa mais significativa que encontrei foi a adesão do Ceará Sporting Club que, no dia 15 de setembro, entrou em campo contra o Vitória para divulgar e espalhar a ação. Se qualquer outra coisa me escapou, peço desculpas. Mas o Everson, já citado aqui no blog em outro texto, já me é suficiente para falar sobre isso.

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No dia 15 de setembro de 2019, o goleiro Éverson entrou em campo com o número 188, número nacional de atendimento via telefone para o combate ao suicídio

E a grande tentativa de encerrar esse texto que já está grande demais é tentar demonstrar que o mundo sim está cheio de contradições. Na maioria das vezes não nos parece haver nenhum meio para o qual possamos escapar. Seja no futebol, esporte repleto de pessoas mal intencionadas ou acontecimentos que marcam o torcedor dramaticamente, seja ainda na política, em que há pessoas que disseminam discursos de ódios, condenando o futuro de um país, ou seja em âmbito familiar, local por vezes incapaz de oferecer a segurança presumida para cada um. E mesmo assim continuamos, porque a vida continua.

Ainda sim persistimos!

E é essa mensagem que, com a vida, continua, pois enquanto optarmos por ela estaremos optando pela resistência. E se o leitor me deu o prazer de continuar até aqui ele vai saber que tudo isso teve um propósito. E vai saber que frente aos problemas mais complicados existe sempre alguma alternativa, basta olhar com perspectiva. E vai saber que, quando sofremos, não sofremos sozinhos, porque existe um grande senso de comunidade nesse sofrimento. E vai saber que até nas memórias mais tristes de nossas vidas repousa uma promessa de superação, mesmo quando não a vemos. Que quando pensamos estar mortas algumas partes de nós mesmos é quando nos vemos preparados para ajudar os outros a não se sentirem da mesma maneira que nos sentimos. E vai saber que o abraço amigo vale muito mais que qualquer rasteira da vida. E vai saber que sempre haverá quem chore por nós.


***


Caso você se encontre em qualquer dificuldade, procure ajuda!

O número 188 funciona em qualquer lugar do Brasil. É só ligar.
O site do CVV também oferece outros meios para assistência, como chats, conferências por vídeos, emails e muito mais.
(https://www.cvv.org.br/o-cvv/)
Várias faculdades, como a UFMG, oferecem também esses meios de auxílio.
Caso não seja você que esteja em dificuldade, ofereça-se aos seus amigos. A primeira coisa que o que próximo precisa é ser ouvido.

No mais, estou à disposição! Venham falar comigo!

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

As chuteiras imortais


Entrou descalço no bar nosso amigo Leo, mas seus pés estavam tão cobertos de lama que parecia calçar botinas no mínimo dois números maiores do que os seus sapatos. O cruzeiro adentrava a cancha para enfrentar o Boca, Carmen cantava Paris, Paris, e a cerveja enchia nossos copos até a risca. Túlio reivindicava a volta do futebol de verdade, que se fosse para fazer dancinha, se chamaria ensaio e não treino. Não o Túlio nosso amigo que escreve aqui no blog. O Túlio Maravilha, que como Teógenes de Tasos chegou à marca dos mil. Mil vezes Túlio balançou o barbante, mil e quatrocentas vezes o pugilista Teógenes fez beijar a lona um desavisado na Grécia Antiga e por tal feito seu nome se repetiria desde esses tempos até nossos tempos e além. É dos velhos reclamar o passado e é dos jovens reclamar dos velhos, mas gosto do Túlio e só por causa dele torço pelo Atlético, muito embora ele atacasse pelo Botafogo. Além do mais, gosto de ouvir um velho contar sua história. Carmen cantava Paris, Paris, teu rio é o rio Sena e nossos copos enchidos até a risca, como deve ser, porque bate uma tristeza ver um lagoinha de crista baixa.

Túlio mil vezes tinha balançado o barbante e nenhuma vez feito dancinha, falava com conhecimento de causa que aquele futebol meia boca que o Brasil vinha jogando, que aquela entressafra fodida era porque faltava gol e sobrava dancinha. E o gol é o ganha pão do atacante. Carmen cantava Paris, Paris, tens loura mas não tens morena. Leônidas falou que na época dele não era bem assim e ele podia falar com mais conhecimento de causa ainda, porque muito antes de Túlio tinha balançado o barbante e até gol descalço tinha feito com os pés cobertos de lama, depois que o toró transformou o gramado num pântano e suas duas delicadas chuteirinhas número 36 em dois jacarés com a bocarra aberta e os dedos enfileirados feito dentes, porém Leônidas não se avexou e jogou descalço e mordeu a rede da Polônia e levou o Brasil à vitória, porque naqueles tempos ainda não existia árbitro de vidro e nem frescura e nem o árbitro de carne e osso tinha visto que ele jogava descalço, porque a lama era tanta que todos os jogadores pareciam calçar botinas.

Mas naquela época ainda não existia o Brasil e a nossa capital era Buenos Aires, por isso Leônidas que foi nosso primeiro artilheiro, o diamante negro das chuteiras imortais, cuja memória vive no caixa de qualquer supermercado na forma de um tablete de chocolate, foi chamado pelos jornalistas esportivos franceses, de artista de circo, acrobata e malabarista. Carmen cantava Paris, je t’aime, as bananas a ponto de despencar da cabeça pelo piso ladrilhado do bar e fazer escorregar os bêbados.


Eu não tinha muito o que contar, então ouvia. Contar o quê? Minhas únicas lembranças do futebol se limitavam à vez que tinha despedaçado a vidraça do vizinho do 101 e à vez que tinha aprendido a dar o chapéu de calcanha e passado a semana inteira chapelando o vento só pela beleza que era dar um chapéu com os calcanhares e de correr pelos morros de Vespasiano atrás de bola na esperança de alcançar antes de chegar ao sopé do morro. Vespasiano tem forma de vale e nós que morávamos no morro sempre jogávamos olhando pra cima, com o gol na parte mais alta, mas sem medo de correr atrás da bola que insistia em rolar até lá embaixo. Talvez por isso mesmo o Atlético valha a metade de Minas, porque sempre joga olhando para cima na tabela, mas não tem medo de descer. Meu primo Igor, quando o galo foi rebaixado, prometeu e cumpriu não deixar de ir a nenhum jogo da temporada. É triste ver um galo com a crista caída.

Corta para 1938. A segunda guerra mundial já estava desenhada, a Alemanha já tinha tido a oportunidade de provar a supremacia nazista nas olimpíadas de 36 e a Itália não podia deixar por menos na copa de 38: iam defender o título anterior e comprovar pro mundo a superioridade do seu escrete, não podiam perder para o Brasil, que ainda nem existia, que até era bonito de se ver em campo, mas não eram futebolistas, eram uma trupe circense, malabaristas, que jogavam bola como quem dança.

Por sorte, a Itália não precisou passar a vergonha de perder para uma trupe de artistas circenses e pretos ainda por cima e mostrou pro mundo que bom mesmo era o fascismo, mas Leônidas com seu futebol dançado tinha acabado de inventar o Brasil, muito embora sua capital ainda fosse Buenos Aires, sua segunda contribuição de vulto para o mundo, tendo sido a primeira a invenção da bicicleta, e Carmen Miranda cantava Paris, je t’aime, mas eu gosto muito mais do Leme e remexia os quadris para lá e para cá e Getúlio Vargas emitia o RG da pátria, cujos pais eram o samba e o futebol: uma mulher que requebra com uma fruteira empoleirada na cabeça e um homem de calções que corre de pés descalços e enlameados.


Mestre Coqueiro que era espetado e alto como a árvore que lhe serviu de alcunha, me ensinou que o capoeira quando finta tem que acreditar que vai, senão a finta não cola. Daku me reensinou que o um pra cá, um pra lá do forró é um passo que vai e finge que vai. A palhaça Ella me mostrou numa praça de Manaus que todo gesto se faz de corpo inteiro. Penso que afinal seja tudo a mesma coisa, que a dancinha não seja o grande mal do futebol brasileiro de hoje, mas reclamar é coisa velha e já é velho dizer que o brasileiro é um povo que ginga e que o futebol e que a identidade nacional e que o tropicalismo e eu já ando tão cansado de caricaturas e não acho que a solução seja adotar o rigor militar no nosso escrete, tampouco botar uma fruteira em cima da cabeça, tampouco fugir para o Uruguai, mas não tenho resposta e me limito a tirar a poeira da garganta com um trago.

O Cruzeiro levou de dois do Boca num jogo que diz que foi roubado, mas eu não vi, não houve festa e as contas do bar se fecharam mais cedo. Muito embora eu torça pelo Atlético e não consiga compreender tão bem essa outra metade de Minas, não deixa de ser triste de ver uma raposa amuada.