sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Liberdade de expressão não paga o meu ingresso

"Dia 15 vote"

No início dos anos 1980, o Corinthians vinha de temporadas ruins, sem resultados expressivos dentro de campo, mas teve um dos times mais importantes da história do futebol brasileiro. Liderados por Sócrates, o único do escrete que vestia a camisa amarela, e por outros jogadores politizados – Wladimir, Casagrande e Zenon –, eles criaram um movimento que mais que nunca deve ser lembrado, a Democracia Corinthiana.

A proposta era muito simples, mas muito inovadora: as decisões do clube, como contratação e escalação de jogadores, concentração da equipe, o restaurante em que jantariam e até mesmo se beberiam cerveja depois dos jogos, eram tomadas por meio de uma votação democrática, em que todos os membros, do técnico ao roupeiro, tinham o mesmo peso. Num esporte conservador como futebol (que fica anos sem mudar as regras, que por décadas proibiu as mulheres de o praticarem) isso é de uma relevância incontestável, principalmente quando você se lembra que eram os últimos anos da Ditadura Militar, e a palavra "democracia" era ainda censurada no Brasil.

A ideia teve base no diretor de futebol Adilson Monteiro Alves, um sociólogo, que se ocupava em ouvir os jogadores e demais membros, uma atitude que até hoje nos soa revolucionária. Nessa gestão, que logo se tornou uma autogestão do clube, o Corinthians, cujos jogadores casados eram dispensados da concentração pra ficar com a família, chegou a uma semifinal de Campeonato Brasileiro e venceu dois Paulistas em cima do São Paulo, o time da elite (veja você que conveniente!). Esses mesmos jogadores, que tragavam cerveja e cachaça depois dos jogos, eram tidos como descompromissados pela imprensa, numa demonstração vulgar de repúdio ao movimento.

Essa politização do clube não reverberava somente nos assuntos futebolísticos, já que a Democracia era um ataque silencioso à opressão da Ditadura. A prova disso é o próprio uniforme do clube. Numa época em que as marcas começavam a estampar suas logos nos uniformes de futebol, o Corinthians, ainda sem patrocinador, entrava em campo com as frases "Diretas Já" ou "Dia 15 vote" estampadas na camisa, essa última em referência às eleições estaduais de 1982, as primeiras em 20 anos. 

Em 1984, depois de resultados ruins em campo e mudanças na direção do clube, o movimento enfraqueceu, e Sócrates cumpriu o que havia prometido. Ele disse que sairia do Corinthians se as Diretas Já não fossem aprovadas pela Câmara dos Deputados no dia 25 de abril, e na Itália ele foi jogar.

 
"Ganhar ou perder, mas sempre com democracia"

Damos um salto pra 2018 e estamos com a democracia supostamente instaurada no Brasil. As eleições presidenciais estão chegando e, naturalmente, cada um tem a sua visão de país. Jogador de futebol hoje joga muito menos e ganha muito mais, mas, como não são artistas, a gente nunca espera um posicionamento político muito forte deles, o que não nos impede de sentir enorme desapontamento quando nossos ídolos falam qualquer besteira no Twitter. Quando o Neymar, em 2014, declarou apoio ao Aécio, a gente relevou, afinal alguém esperava alguma consciência social do jogador que desde os 13, 14 anos ganha um salário de CEO? Eu não.

Pois bem, a coisa começa a ficar feia quando você vê esportistas, muitos deles de origem humilde, apoiando o Jair Bolsonaro, um político que dispensa adjetivos. Se você não sabe quem são, eu vou dedurar alguns deles aqui: Felipe Melo, do Palmeiras; Lucas Moura, do Tottenham; Jadson, do Corinthians; e Maurício Souza e Wallace, da Seleção Brasileira de Vôlei.

O esporte pode ser uma mudança no quadro de comportamento de quem assiste e pratica. E quando você pensa no futebol, que tem como torcedores os operários mais incansáveis da nação, qualquer manifestação antidemocrática é muito grave. Sendo torcedor de um time do povo, que tem como ídolo o Reinaldo, um cara que, além de jogar muito, era abertamente contra o regime, eu me questiono sobre o que o Sócrates diria de ver jogador do Corinthians votando em candidato que faz apologia a tudo aquilo que a gente mais condena. E, sim, eu tive a pachorra de me colocar lado a lado dele que não foi o melhor, mas foi o mais importante jogador do Brasil. 

Eu acredito na democracia e eu poderia morrer pela liberdade, mas, se você paga ingresso pra gritar o nome do Bolsonaro, como fizeram torcedores do Galo outro dia, você entendeu errado o que é o esporte mais popular e democrático do planeta, o único em que o pequeno pode ganhar do grande. Isso não é liberdade de expressão, isso é compactuar com alguém que quer o seu mal, porque você certamente não faz parte da patota dele. Você vai perder, assim como aqueles que você quer prejudicar.

O Corinthians acabou com a minha infância em 1999 quando levou o Brasileirão em cima do Atlético, mas eu dou a ele o respeito que ele merece por ter feito algo inédito e que certamente não vai se repetir enquanto houver cartolagem e CBF, e por isso eu espero muito que eles acabem com o Cruzeiro na final da Copa do Brasil.

(Antes de escrever esse texto eu assisti aos documentários "Ser campeão é detalhe: Democracia Corinthiana", de Gustavo Forti Leitão e Caetano Biasi, e "Democracia Corinthiana", produzido pela Coritinthians TV, ambos disponíveis no YouTube.)

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Quem chora por nós

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A concretização do erro na mitologia brasileira

O Apóstolo João deve ter ficado com uma pontinha de "eu avisei" quando as pessoas pareceram não dar tanta razão para seu evangelho. Mal sabia ele das desventuras de se escrever sobre um mito de fundação... Ou talvez soubesse, mas preferiu mesmo assim tentar ilustrar a real materialidade das coisas, ao invés de pontuar diretamente a imaterialidade daquilo que vemos.  Coitado do João! E eu, que ainda não me chamo João, vou tentar explicar de novo. Por isso peço uma modesta licença, antes de apresentar o verdadeiro tema desse texto.

Em São Paulo acabei por ter mais convicção de que não será pelo viés científico que se salvará o futebol. Afinal, algumas pessoas ainda discutem o lance ilustrativo acima como se fosse possível encontrar o real problema. Será que o juiz acertou? Será que ele errou? A resposta não interessa. Interessa muito menos ainda a discussão sobre o VAR. Será que ele vai acabar com os erros? Cadê aqueles 99,3% de acertos? Para piorar, pode-se argumentar que esse lance talvez conste entre os 0,7% de erros humanos, resguardando, assim, a ferramenta. Porém, mais uma vez, a resposta não interessa.

O que talvez interesse mais é olhar para outros lugares.

Juca Kfouri, por exemplo, um de nossos concorrentes no mercado de Blogs, foi conciso: "O duro no futebol brasileiro é isso. É ver quem defende a lisura de procedimentos". O blogueiro e escritor e jornalista e petista se refere ao "homem forte do futebol" do Cruzeiro, Itair Machado. Parece que o tal Itair saiu reclamando justiça à CONMEBOL, tudo com uma pitada de propagandinha. Logo ele, um dos responsáveis por trazer Gerson Magrão para o Cruzeiro. Contudo é Juca quem fala em justiça. Em seu pequeno Blog, quase tão pequeno quanto esse, Juca (ou João) reconhece a contradição dos injustos que cobram por justiça elegendo ainda mais injustos para postos de juízo.

O que mais me enraivesse é saber que no fundo a gente não pode nem falar sobre isso. Porque quando se fala em "domínio de pauta" é falar também que, ao criticarmos, normalmente criticamos a coisa errada. Seria como falar que o brasileirx não pode demorar mais cinco minutos no mimo do banho quente porque o Brasil não tem mais água, e simplesmente ignorar os impactos da agropecuária. Toda a conjuntura é desprezada pela maioria na medida em que se põe os holofotes sobre alguma âncora qualquer. Nesse caso, nem ao menos é a injustiça o maior problema, e sim os afetados. Podemos não entender a totalidade da conjuntura que levou propriamente a utilização do VAR para a maneira que é utilizada, por outro lado não podemos nos esquivar da realidade que é o balde de água fria que sempre é jogado sobre um pobre coitado. No exemplo da água, é sempre o pobre quem sofre, e, no do futebol, o torcedor.

E o VAR, de herói a vilão, continua sendo o tema, sendo a pauta. Nunca é demais reafirmar, para esclarecer, que a utilização da ferramenta não muda em nada os problemas do esporte. Pois existe uma vergonha interna que impede qualquer um ali dentro de exercer quaisquer tipo de justiça. Infelizmente, os verdadeiros prejudicados acabam sendo os torcedores. Não que eles sejam completamente inocentes, mas torcedor é um coisa tão sofrida, tão coitada, que é ele quem sempre chora.

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Estudiantes de La Plata, mais um time argentino que põe luz sobre problemas no Cruzeiro

Por isso o futebol mexe com a gente de um jeito pessoal. E não é de se espantar que as pessoas se agarrem nas primeiras coisas que aparecem - para o bem e para o mal. E é só falar de Gerson Magrão que me vem à memória a Libertadores de 2009, e como nessa competição uma parte de mim morreu. Provavelmente aquela parte de mim que torcia. Morreu em mim o torcedor cruzeirense nessa Libertadores que acreditava que o mundo poderia ser mais bonito se você acreditasse muito em uma coisa. Provavelmente por isso não bateu tanto os 7 a 1 do alemão, já que havia um outro 7 a 1 marcado no Mineirão, só que na forma de 2 a 1, muito mais sofrido, feito por um argentino.

Teorias e complexos conspiratórios fizeram com que os cruzeirenses procurassem por justificativas para o desencanto da final. E a discussão relativa ao  recebimento, por parte do elenco do Cruzeiro, do montante arrecadado pelos 65 mil presentes no estádio para o segundo jogo, foi o maior alvo. Na época eu confesso que me importei. Hoje olho pra trás e vejo que, mais uma vez, nada importa. A verdade é que o Cruzeiro perdeu em campo, o torcedor sofreu em casa, e essa parte de mim morreu. E o que restou foi catapultado para outro lugar, com outro posicionamento, que tenta ver na memória e no presente uma lição de vida, ao mesmo tempo que se encontra mais maduro para os outros desafios.

O real tema do texto repousa um pouco no resultado desses 2 a 1. A de que esses problemas extracampos, por vezes espelhados nas instituições que compõem as regras, e por vezes naquelas instituições que participam dos torneis, influenciam negativamente na paixão que a pessoa tem pela vida. Não é de se admirar, portanto, que o torcedor, assim como em vários outros núcleos da sociedade, acabe desesperado. Há um grande acontecimento, que escapa às nossas mãos, que nos fazem chorar. De um jeito muito esquisito, esse sofrimento, porém, acaba sendo reconfortante. Porque o que há de comunidade na sociedade é a comunidade do sofrimento. São os que, retirados de seus locais de conforto, acabam simpatizando-se com outros, na mesma situação. O futebol, em certa medida, funciona assim. Mesmo que ele divida os torcedores em bandeiras, ainda assim uma coisa boa ele faz, que é unir todo mundo nessa comunidade de sofrimento que torce.

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Independente de tudo, a vida é uma coisa muito bonita, até nos momentos mais tristes

Não era meu intuito realizar todo um exercício retórico para se alcançar esse momento. Por vezes o texto acaba tomando uma certa vida e se emancipando das mãos do próprio escritor. E toda uma variedade de informações que gostaríamos de pontuar pulam à frente de temas mais importantes, como o presente mês que vivemos. Desde um acréscimo à discussão sobre o VAR, continuando por um texto de xingamento aos líderes das instituições do esporte que se posicionam tão desesperadamente frente às câmeras para popularizar discursos contraditórios, passando, ainda, por um guia do torcedor menos tóxico, ou até o que eu gostaria que esse texto fosse. Isto é, um texto sobre a vida. No final, sai alguma coisa meio sem forma, e aparentemente sem propósito. Mas, assim espero,  muito bonita de se ver, parecida mesmo com a vida.

Tive uma certa dificuldade em encontrar menções envolvendo o futebol e o Setembro Amarelo, campanha filantrópica realizada em conjunto pelo Centro de Valorização da Vida (CVV), o Conselho Federal de Medicina (CFM) e a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) que visa a prevenção do suicídio e apoio das pessoas em estado de risco. A coisa mais significativa que encontrei foi a adesão do Ceará Sporting Club que, no dia 15 de setembro, entrou em campo contra o Vitória para divulgar e espalhar a ação. Se qualquer outra coisa me escapou, peço desculpas. Mas o Everson, já citado aqui no blog em outro texto, já me é suficiente para falar sobre isso.

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No dia 15 de setembro de 2019, o goleiro Éverson entrou em campo com o número 188, número nacional de atendimento via telefone para o combate ao suicídio

E a grande tentativa de encerrar esse texto que já está grande demais é tentar demonstrar que o mundo sim está cheio de contradições. Na maioria das vezes não nos parece haver nenhum meio para o qual possamos escapar. Seja no futebol, esporte repleto de pessoas mal intencionadas ou acontecimentos que marcam o torcedor dramaticamente, seja ainda na política, em que há pessoas que disseminam discursos de ódios, condenando o futuro de um país, ou seja em âmbito familiar, local por vezes incapaz de oferecer a segurança presumida para cada um. E mesmo assim continuamos, porque a vida continua.

Ainda sim persistimos!

E é essa mensagem que, com a vida, continua, pois enquanto optarmos por ela estaremos optando pela resistência. E se o leitor me deu o prazer de continuar até aqui ele vai saber que tudo isso teve um propósito. E vai saber que frente aos problemas mais complicados existe sempre alguma alternativa, basta olhar com perspectiva. E vai saber que, quando sofremos, não sofremos sozinhos, porque existe um grande senso de comunidade nesse sofrimento. E vai saber que até nas memórias mais tristes de nossas vidas repousa uma promessa de superação, mesmo quando não a vemos. Que quando pensamos estar mortas algumas partes de nós mesmos é quando nos vemos preparados para ajudar os outros a não se sentirem da mesma maneira que nos sentimos. E vai saber que o abraço amigo vale muito mais que qualquer rasteira da vida. E vai saber que sempre haverá quem chore por nós.


***


Caso você se encontre em qualquer dificuldade, procure ajuda!

O número 188 funciona em qualquer lugar do Brasil. É só ligar.
O site do CVV também oferece outros meios para assistência, como chats, conferências por vídeos, emails e muito mais.
(https://www.cvv.org.br/o-cvv/)
Várias faculdades, como a UFMG, oferecem também esses meios de auxílio.
Caso não seja você que esteja em dificuldade, ofereça-se aos seus amigos. A primeira coisa que o que próximo precisa é ser ouvido.

No mais, estou à disposição! Venham falar comigo!

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

As chuteiras imortais


Entrou descalço no bar nosso amigo Leo, mas seus pés estavam tão cobertos de lama que parecia calçar botinas no mínimo dois números maiores do que os seus sapatos. O cruzeiro adentrava a cancha para enfrentar o Boca, Carmen cantava Paris, Paris, e a cerveja enchia nossos copos até a risca. Túlio reivindicava a volta do futebol de verdade, que se fosse para fazer dancinha, se chamaria ensaio e não treino. Não o Túlio nosso amigo que escreve aqui no blog. O Túlio Maravilha, que como Teógenes de Tasos chegou à marca dos mil. Mil vezes Túlio balançou o barbante, mil e quatrocentas vezes o pugilista Teógenes fez beijar a lona um desavisado na Grécia Antiga e por tal feito seu nome se repetiria desde esses tempos até nossos tempos e além. É dos velhos reclamar o passado e é dos jovens reclamar dos velhos, mas gosto do Túlio e só por causa dele torço pelo Atlético, muito embora ele atacasse pelo Botafogo. Além do mais, gosto de ouvir um velho contar sua história. Carmen cantava Paris, Paris, teu rio é o rio Sena e nossos copos enchidos até a risca, como deve ser, porque bate uma tristeza ver um lagoinha de crista baixa.

Túlio mil vezes tinha balançado o barbante e nenhuma vez feito dancinha, falava com conhecimento de causa que aquele futebol meia boca que o Brasil vinha jogando, que aquela entressafra fodida era porque faltava gol e sobrava dancinha. E o gol é o ganha pão do atacante. Carmen cantava Paris, Paris, tens loura mas não tens morena. Leônidas falou que na época dele não era bem assim e ele podia falar com mais conhecimento de causa ainda, porque muito antes de Túlio tinha balançado o barbante e até gol descalço tinha feito com os pés cobertos de lama, depois que o toró transformou o gramado num pântano e suas duas delicadas chuteirinhas número 36 em dois jacarés com a bocarra aberta e os dedos enfileirados feito dentes, porém Leônidas não se avexou e jogou descalço e mordeu a rede da Polônia e levou o Brasil à vitória, porque naqueles tempos ainda não existia árbitro de vidro e nem frescura e nem o árbitro de carne e osso tinha visto que ele jogava descalço, porque a lama era tanta que todos os jogadores pareciam calçar botinas.

Mas naquela época ainda não existia o Brasil e a nossa capital era Buenos Aires, por isso Leônidas que foi nosso primeiro artilheiro, o diamante negro das chuteiras imortais, cuja memória vive no caixa de qualquer supermercado na forma de um tablete de chocolate, foi chamado pelos jornalistas esportivos franceses, de artista de circo, acrobata e malabarista. Carmen cantava Paris, je t’aime, as bananas a ponto de despencar da cabeça pelo piso ladrilhado do bar e fazer escorregar os bêbados.


Eu não tinha muito o que contar, então ouvia. Contar o quê? Minhas únicas lembranças do futebol se limitavam à vez que tinha despedaçado a vidraça do vizinho do 101 e à vez que tinha aprendido a dar o chapéu de calcanha e passado a semana inteira chapelando o vento só pela beleza que era dar um chapéu com os calcanhares e de correr pelos morros de Vespasiano atrás de bola na esperança de alcançar antes de chegar ao sopé do morro. Vespasiano tem forma de vale e nós que morávamos no morro sempre jogávamos olhando pra cima, com o gol na parte mais alta, mas sem medo de correr atrás da bola que insistia em rolar até lá embaixo. Talvez por isso mesmo o Atlético valha a metade de Minas, porque sempre joga olhando para cima na tabela, mas não tem medo de descer. Meu primo Igor, quando o galo foi rebaixado, prometeu e cumpriu não deixar de ir a nenhum jogo da temporada. É triste ver um galo com a crista caída.

Corta para 1938. A segunda guerra mundial já estava desenhada, a Alemanha já tinha tido a oportunidade de provar a supremacia nazista nas olimpíadas de 36 e a Itália não podia deixar por menos na copa de 38: iam defender o título anterior e comprovar pro mundo a superioridade do seu escrete, não podiam perder para o Brasil, que ainda nem existia, que até era bonito de se ver em campo, mas não eram futebolistas, eram uma trupe circense, malabaristas, que jogavam bola como quem dança.

Por sorte, a Itália não precisou passar a vergonha de perder para uma trupe de artistas circenses e pretos ainda por cima e mostrou pro mundo que bom mesmo era o fascismo, mas Leônidas com seu futebol dançado tinha acabado de inventar o Brasil, muito embora sua capital ainda fosse Buenos Aires, sua segunda contribuição de vulto para o mundo, tendo sido a primeira a invenção da bicicleta, e Carmen Miranda cantava Paris, je t’aime, mas eu gosto muito mais do Leme e remexia os quadris para lá e para cá e Getúlio Vargas emitia o RG da pátria, cujos pais eram o samba e o futebol: uma mulher que requebra com uma fruteira empoleirada na cabeça e um homem de calções que corre de pés descalços e enlameados.


Mestre Coqueiro que era espetado e alto como a árvore que lhe serviu de alcunha, me ensinou que o capoeira quando finta tem que acreditar que vai, senão a finta não cola. Daku me reensinou que o um pra cá, um pra lá do forró é um passo que vai e finge que vai. A palhaça Ella me mostrou numa praça de Manaus que todo gesto se faz de corpo inteiro. Penso que afinal seja tudo a mesma coisa, que a dancinha não seja o grande mal do futebol brasileiro de hoje, mas reclamar é coisa velha e já é velho dizer que o brasileiro é um povo que ginga e que o futebol e que a identidade nacional e que o tropicalismo e eu já ando tão cansado de caricaturas e não acho que a solução seja adotar o rigor militar no nosso escrete, tampouco botar uma fruteira em cima da cabeça, tampouco fugir para o Uruguai, mas não tenho resposta e me limito a tirar a poeira da garganta com um trago.

O Cruzeiro levou de dois do Boca num jogo que diz que foi roubado, mas eu não vi, não houve festa e as contas do bar se fecharam mais cedo. Muito embora eu torça pelo Atlético e não consiga compreender tão bem essa outra metade de Minas, não deixa de ser triste de ver uma raposa amuada.

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Soneto do Herói Quebrado

Ver é triste demais.
Trago marcado em mim,
do anil ao carmim,
o fogo de animais.

Ser é triste demais.
Amo seu frenesim,
mas odeio seu fim.
Não sei se sou capaz.

Porque o seu pior
viola o seu núcleo.
Oh, minha Maceió...

De um peito cerúleo,
de uma dor tão maior,
de um coração rúbeo.


terça-feira, 11 de setembro de 2018

A thing of beauty...

Não sou sentimental. Mas não há futebol sem sentimentos. De outra forma, seria apenas um esporte. Sabemos que não é.

Em dias de clássico, o futebol deixa, mais ainda, de ser só esporte. O dia 09 de setembro foi um desses dias. Palmeiras ganhou do Corinthians; Fluminense, do Botafogo; e Inter ganhou do Grêmio. Todos pelo mesmo resultado: 1 a 0. Eu poderia me deter em análises de toda natureza e tamanho sobre o significado dessa coincidência, mas estaria sendo insensível ao fazê-lo. Respeitemos o luto dos corintianos, dos botafoguenses e dos gremistas. O texto de hoje, de qualquer forma, é um pouco sobre perder.

No dia 10 de setembro, dia sem clássico, como uma segunda-feira deve ser, dei de cara com essa lembrança do Facebook:



Futebol desgraçado… Naquele ano, eu, Vitor, Daniel, Lucas, Henrique e outros amigos nos infligimos o martírio de jogar futebol toda semana. Na semana daquele dia 09 de setembro – não me lembro se havia algum clássico – o Marcelo participou pela primeira vez da nossa pelada.

Nós não jogamos o futebol melhor do que o analisamos. Mas nos divertimos fazendo os dois. A verdade é que estamos aqui, assim como estávamos na quadra aos fins de semana de 2013, para desgraçar o futebol, como bem caracterizou o Marcelo. Não é apenas um esporte, certo? Para nós, talvez, não fosse sequer um esporte.

Os tempos eram outros. Mas algo me diz que muito do que vivo hoje decorre daquele ano. Para me ater ao óbvio ululante, em 2013, houve manifestações. Algumas coisas foram quebradas, algumas bombas de efeito moral foram jogadas na gente. A política mudou de rumo. E era tempo de futebol. O desgraçado do futebol estava lá. Desde então, o Brasil desperdiçou duas Copas e uma eleição. Hoje, dos dois candidatos favoritos à presidência, um está preso e outro tomou uma facada.

Já o Marcelo, hoje, apesar do que foi dito na postagem recuperada, consegue se mover como um ser humano dotado de mobilidade. Tanto que ele foi para longe de mim. Está lá no Ceará; eu, cá em Belo Horizonte. Aliás, o América, daqui, empatou em zero a zero com o Ceará nesta rodada de clássicos. Deve ter sido um péssimo jogo – deus me livre de tê-lo assistido. Mas poderia ter sido uma ótima desculpa para matar as saudades do amigo. Fossemos nós dois menos nós mesmos e eu poderia ligar para ele e dizer “e seu Ceará, hein?”, esquecendo-me propositalmente de que ele é cruzeirense como eu, “que baba esse time! Empatar com o América?!”. E eu poderia usar isso para dizer que o Ceará é ruim, que é uma má ideia, que o nosso Cruzeiro está aqui em Belo Horizonte e que Belo Horizonte é que é bom, porque aqui é a nossa cidade, a cidade dos nossos textos, dos nossos copos de cerveja, das nossas limitações, da nossa humanidade. 

Mas eu e meus amigos padecemos de todos os males que nos fazem sermos nós mesmos. E, por isso mesmo, eu não ousaria usar o futebol como desculpa para meus sentimentos. Não há desculpas para as coisas que a gente sente. Especialmente a saudade.



O futebol está aí, esse desgraçado. No mesmo lugar em que estão os sentimentos, e não como desculpa para expressá-los. Talvez como desculpa para escrevê-los, apenas. 

Está tudo bem com ele, está tudo bem comigo, apesar do 1 a 0.

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Rua Cura D'ars

Envelhecer, mesmo que dentro de um corpo que aparenta ser jovem, transporta o tempo da cabeça, tão passada, apesar do pouco envelhecimento, para cenários um tanto distantes –  já inabitados, sem o conveniente (pelo menos caro à escrita) cheiro do mofo, tato do pé ou visão fotográfica daquilo que um dia foi casa. 

A lembrança não cheira à nada, não toca nem afeta e não posso nem dizer muito da ruína que agora é a casa. Pode-se fingir qualquer coisa quando se escreve, mas a casa continua sendo aquilo que era – concreto. E se persiste na memória como ruína é só por capricho de quem assim a descreve – a casa é além-memória, potente, muito maior do que aquilo que me edifica, tem endereço fixo na rua com nome santo, criou raízes; eu, nem tanto. 

A casa é cheia de cômodos em que se apertam camas e sofás nos quartos – esses não interessam à lembrança, por isso, começo a passear pelo cômodos de trás para frente. (Na minha casa, uma outra, havia um rebobinador de fitas-cassetes que eu adorava usar só para ouvir o barulho que tem o caminho do final para o começo.) O trajeto que eu percorro pela casa tem esse som. Dos quartos até a sala, não há corredores, então, se eu abrir a porta, dou de cara com a mesa da sala-estar-de-jantar, ela é grande, oval e parece poder acolher qualquer um que queira sentar e comer da comida que é servida. Come-se muito nessa casa, no entanto, ainda que eu me lembre do gosto de um tempero específico que sempre se coloca nessas comidas eu não sei mais que nome ele tem e também não me sinto à vontade para puxar nenhuma cadeira ou sentar nos sofás de couro vagabundo. 

Abro mais uma porta então e já encontro a saída. Antes, porém, de alcançar o portão, que é o começo do começo, paro numa varanda. 

Para minha surpresa, estou ali, congelada, aparento uma criança de dez anos de idade, mas não é como se fizesse parte do cenário de concreto. Se eu fosse dada à exatidão das palavras, seria correto dizer que estou ali como um espectro; por outro lado, a imagem da roseira sem cheiro parece ter a exatidão de coisa viva. E como coisa viva que é, a lembrança se reconstrói ainda que sem perfume de flor.


O portão de entrada é o mesmo portão de saída – essa é a explicação da sentida familiaridade com a varanda e com a rosa. Por algum motivo, mesmo passadas duas décadas, não foram raras as vezes em que desviei o caminho que me levava de qualquer bar para minha casa e dirigi devagarzinho pelo suave morro que tem a rua santa que eu descia em ponto morto, sem marcha, sem intenção e estacionava na frente do portão de entrada dessa casa em que agora eu não podia mais entrar. 

Estacionada, eu podia ver de longe e melhor a imagem da varanda. Um dia, entre a porta e portão, esse lugar do afeto, ganhei, às pressas, do meu avô uma camisa do Galo. A camisa era gigante, acho que porque, dadas às condições, meu avô não tinha muita noção do meu tamanho de criança de dez anos, até grandinha para idade, mas definitivamente pequena diante da blusa. 

Verdade seja dita, a camisa não era para mim e sim pensada para um primo mais velho. Acontece que, como neta, eu tinha também o direito ao legado. Recebi com agradecimento para não desagradar o meu avô, e especialmente agradar o meu pai, mas saí pelo portão naquele dia chateada – ganhei a herança, mas ela não me servia. E como eu desejei que ela me coubesse. Não tem ruína que desfaça da minha lembrança os sons dos gritos cada vez que o Galo ganhava um jogo – a casa era muito apertada e o som era ainda mais alto quando misturado ao latido dos cachorros, não sei se assustados ou comemorando a vitória daquele que também deveria ser o time deles. Gritos de homens, mulheres, crianças, cachorros quase chegavam a abafar o rádio sintonizado na Itatiaia que meu avô sempre ouvia de dentro de um dos quartos, adiantando o grito de gol do restante da família que assistia pela televisão. Todavia, como não me cabia a camisa, eu abria a porta e me sentava na varanda. 

Era chato. E era muito mais chato ouvir aquela felicidade barulhenta. Então, porque o barulho me incomoda muito, eu ligo o carro e acelero. Despeço-me do meu avô, agradeço o presente e vou para casa rebobinar algum filme. 

É possível que eu encoste mais algumas vezes o meu carro naquela rua. Mas a camisa, essa eu nunca usei. Depois de muito pensar o que eu faria com ela, dei a um primo mais velho que, com certeza, fez melhor proveito do legado. Era camisa de craque, do Marques, qualquer criança grande no final do anos 90 ficaria feliz de vestir o manto preto e branco. Santo, como o nome da rua. Não vou confessar o nome do santo, só posso dizer, por ora, que ele, mesmo não sendo artilheiro como Marques, foi canonizado pelo seu dom de enxergar o passado e o futuro e de curar doentes – quase sempre crianças desenganadas. Como não podia ser diferente, a vida cansativa fez o santo morrer de fadiga.

Em Pé: Taffarel, Sandro Barbosa, Sandro, Hernani, Bruno e Edgard.
Agachados: Dedé, Valdir Bigode, Jorginho, Marques e Doriva.

Talvez por causa da semelhança com o santo, não posso negar que sempre admirei o torcedor do Galo – insistente até morrer de fadiga. Esquecendo o passado, já em chão firme e estacionada em qualquer trânsito da rua das seis horas em Beagá, ouço que os torcedores do Galo lotaram o Independência, mesmo depois de o time ter perdido para o Corinthians. Perde-se um jogo, ganha-se outro. Não sei se pela fadiga ou pelo dom da insistência, o Galo venceu o jogo contra o São Paulo, um gol só, é verdade. Será que se ouvem muitos gritos na casa? 

O fato é que pouco me interessa o som da lembrança: tomei birra do Galo, da rosa, do começo do meu começo e até torci para o time rival de pirraça.  Não dizem por aí que santo de casa não faz milagre? Não enxergo futuro e a minha criança não foi curada – tá ali, sentada na varanda, congelada. E se o trânsito não tivesse, finalmente, andado, eu poderia ter lembrado agora dum poema do Bandeira por completo. Mas o fluxo segue e só tenho tempo para alguns versos que eu, de pirraça, manobro para um novo arranjo que me interessa: 

“A casa de meu avô...
Nunca pensei que ela acabasse!
Tudo lá parecia impregnado de eternidade
Meu avô morto.
como a casa de meu avô.”



segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Dentro de tudo há o sangue


Estava lendo os contos de Kenzaburo Oe no conhecido trajeto que faço da faculdade até meu estágio. O percurso inclui dois ônibus e uma baldeação entre as linhas amarela e azul do metrô e tem duração média de uma hora e vinte minutos, tempo habitualmente preenchido com leituras de textos teóricos e discos de música instrumental. Era um dia atípico, fazia muito calor e não deveria, meu corpo demonstrava sinais de tempo seco e uma leve dor de cabeça ia aos poucos se instalando na parte direita do meu crânio. O conto em questão falava novamente de morte e cadáveres, temas que parecem ser muito apreciados pelo autor.

Pequenas gotas vermelhas caem sobre as páginas brancas, interrompendo minha leitura pelo forte cheiro de ferrugem. O movimento que leva minhas mãos ao nariz é instantâneo e confirma que se trata do meu próprio sangue escorrendo pelas narinas. Minha avó costumava me ajudar a estancar o sangue nessas ocasiões e ralhava que era um grande azar ter veias finas. Nunca entendi muito bem o que ela queria dizer. Sigo seus passos novamente: inclinar a cabeça para que o sangue volte de onde veio; limpar com papel higiênico o resto de sangue; e, se possível, molhar a nuca e as narinas. 

No vagão do metrô ninguém parece me notar. O processo de estancar o sangue dura três estações e quando volto minha cabeça a sua posição normal não é perceptível nenhum rastro do líquido, exceto pelas manchas de sangue seco nas páginas. O sangue chama minha atenção para uma nota de rodapé que mencionava 万延元年のフットボール ( Man'en Gannen no Futtoboru, sem tradução para o português), romance que rendeu a Kenzaburo Oe o prêmio literário Junichiro Tanizaki. No enredo, um homem chamado Takashi começa a organizar os jovens de seu vilarejo para uma rebelião contra o Imperador. Inicialmente, Takashi treina seu grupo como um time de futebol. Marco o número da página nas notas do celular apenas por precaução (sei que meu sangue já está cumprindo esse papel) e penso no texto sobre futebol que preciso escrever para a próxima semana. 

Penso também em sangue. Me vêm à memória a passagem de Clarice em “Perdoando Deus”: “Não sou pessoa que precise ser lembrada de que dentro de tudo há o sangue. Não só não esqueço o sangue de dentro como eu o admiro e o quero, sou demais o sangue para esquecer o sangue”. Ainda acho que esse é dos contos mais bonitos do mundo e se me pegam num dia ruim sou capaz de chorar só de pensar nele. Não é um dia ruim e não há choro, existe apenas o sangue. 


Pulemos para o domingo porque já escrevi quatro longos parágrafos e ainda não falei sobre o que interessa. É dia de São Paulo e Fluminense pelo Brasileirão. A tarde é lenta, ensolarada e muito propícia para uma cerveja gelada, mais ainda para assistir um jogo de futebol no boteco da rua. O boteco da rua tem duas mesas de plástico vermelhas, algumas cadeiras sempre ocupadas por homens de meia-idade ligeiramente calvos e uma enorme TV onde são assistidos os jogos de futebol. Em uma das paredes está pendurada uma enorme bandeira do São Paulo. Da janela da sala tenho uma visão privilegiada de tudo que ali acontece.

Acompanho o jogo com o volume desligado para não tirar minha concentração da tarefa ingrata de estudar japonês para a prova. Da janela vejo uma movimentação alegre de cadeiras, copos e garrafas de cerveja. O dono do bar exibe alegre sua camisa do São Paulo. Ao passo que os exercícios de memorização de kanjis vão se complicando o jogo vai sendo esquecido. Não acompanho nenhum dos dois gols feitos durante a partida.

Minha concentração é interrompida por sons que anunciam alguma confusão. Ouço gritaria, barulho de garrafa estilhaçada e cadeira de plástico sendo arremessada ao chão. É coisa de briga de bar. Da janela vejo que um homem sangra pelo nariz com as mãos cobrindo o rosto. Do lado oposto, um homem vestido com a camisa do São Paulo gesticula, grita e ameaça enquanto está sendo detido por outros três homens. Uma discussão sobre futebol regada à álcool e temperamentos explosivos acaba em briga e um homem sangra pelo nariz do outro lado da rua. 

Observo o homem que sangra sendo socorrido com toalhas e gelo. Ele segue o mesmo protocolo de tratamentos de minha avó, um pouco mais desajeitado, provavelmente por causa da dor. As manchas de sangue em sua camiseta branca me lembram as gotas de sangue seco em meu livro. 

O acontecimento que atravessa meu domingo sem pedir licença me lembra a primeira experiência em estádio para assistir Santos e Corinthians no Pacaembu. Torcida única, o mando do jogo é do Santos. Nunca vou me esquecer do silêncio sepulcral que sucedeu o gol do Corinthians e que rendeu uma série de xingamentos explosivos por parte da torcida. Também não consigo esquecer a explosão de sentimentos que presenciei depois do gol do Santos. Meu amigo santista sendo abraçado por um desconhecido, comemorando. E eu ali sem entender muito bem, estática enquanto todos vibravam e gritavam. 

Aquele momento criou um fascínio. As únicas vezes que chorei assistindo uma partida de futebol foram em momentos que a torcida estava sob os holofotes. Não há outra explicação para meu choro ao assistir a final do Mundial de Clubes de 2012 que não seja o fascínio pela explosão de sentimentos da torcida. 

Logo eu, ensinada desde pequena a conter meus sentimentos, não chorar em público, não gritar, não xingar, não brigar. O fascínio tem uma ponta de inveja, desejo de ser aquele que chora, grita, briga, sofre, sente. Me fascina o torcedor de futebol porque sei que nunca serei como ele. O que me resta é observar tudo e achar bonito depois. Eu gostaria de sentir o sangue subindo à cabeça mais vezes. Eu gostaria de explodir em um turbilhão de sentimentos. 

Eu gostaria de ser mais o sangue para não esquecê-lo.

sábado, 1 de setembro de 2018

À ver navios


Barcos parece não acreditar que o baú perdido estava no fundo do gol

O mundo do futebol é conhecido por jogadores de várias alcunhas. Na noite de quarta-feira, 29 de Outubro, estava em campo o Pirata. Normalmente, este nome se refere àqueles que têm como características o gozo de velejar atrás de relíquias, rum, e, ocasionalmente, atrás de um tesouro. Pelo menos assim dizem os mitos. Até fizeram filmes para contar essas e outras histórias destes tripulantes. Comum nesses filmes é que, de alguma forma, eles chegam a alguma terra, diferentemente do nosso assunto neste texto. Este jogador demonstra ser um pirata fora do imaginário genérico que passa em nossas mentes. Para ele, o prazer de velejar, sem pressa, sem rumo, parece ser o seu norte.

Hernán Barcos já navegou por várias águas ao redor do planete Terra, passando pelo velho continente e, também, pela poderosa China e sua potência no mercado internacional. Passou por 14 clubes em sua carreira até então. Longe de ser um marinheiro de primeira viagem, o argentino tem 34 anos. No esporte bretão, com esta idade já consideramos o jogador como um veterano.

No escrete e em toda a sua história, uma única verdade permanece constante. Um jogador de ataque necessita de gols. É o ganha pão deles, é o que garante a sua vaga no time titular e, por fim, seu emprego. O gol é a coisa mais preciosa da cancha. Contudo, recentemente, tivemos o privilégio de ver o surgimento fenomenal do atacante que cumpre funções táticas dentro da partida. O futebol praticado nos dias de hoje exige ao jogador que ele feche os espaços, dizem especialistas. O centroavante chega a fazer de tudo: desarmes, corre até a linha defensiva para ajudar na marcação, faz o escambau, menos o gol. No moderno jogo praticado, ou o jogador se encaixa ou ele está fora do conjunto. Brilhantemente, Mauro Cézar Pereira mencionou uma vez os "jogadores lego", referindo-se ao fato de o treinador determinar se um boleiro se encaixa ou não em seu esquema. Este fato até ocorreu na seleção da França, a campeã mundial. Olivier Girould, o bonitão, fez de tudo nas partidas, exceto a barba, o cabelo e o bigode (refiro-me à falta de gol do mesmo). Um fato estranho para qualquer artilheiro de épocas passadas. Um assunto que causa uma discussão para um outro dia.

Barcos busca nas estrelas o caminho da baliza

Taticamente, é dito que a posição do nosso assunto de hoje é aquela que está mais próxima à meta adversária. Portanto, podemos dizer que é ele quem comanda, quem tem a responsabilidade de colocar a bola no fundo do barbante. Com 11 pelejas em seu currículo com a camisa azul, ele marcou incríveis 1 gol. E o que mais salta aos olhos é a quantidade de gols perdidos, a quantidade de terras que Barcos poderia ter conquistado. Se ao menos tivesse algum registro de como e quantas chances já foram perdidas, ficaríamos embasbacados. A conclusão que faço é que ele só pode estar na formação principal por se voluntariar em prol do plantel. E os gols, como ficam? A este ponto, imagino que o tento é como se fosse uma relíquia, mais uma caçada a um baú misterioso, mítico. 

Esta pobre passagem pelo esquadrão azul me faz pensar que de Capitão de sua Fragata, o argentino esteja sendo relegado a um marinheiro comum. Mais uma partida se passa e mais uma vez ele deixa de marcar um gol. Um fato que parece apenas ocorrer no futebol amador pelo mundo afora. Poderia dizer que todo jogador passa por uma fase ruim, seria justo. Todavia a justiça num mundo pirata é algo muito diferente da que temos em terra. E este barquinho parece passar longe de terra. Curiosamente, o experiente marinheiro prefere passear em campo como se tivesse em águas abertas num dia tranquilo, ensolarado e de maré baixa.

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Esse texto foi escrito por Henrique Morais, o nosso novo contribuidor. Todos os créditos da análise são de sua autoria.