"Dia 15 vote"
No início dos anos 1980, o Corinthians vinha de temporadas ruins, sem resultados expressivos dentro de campo, mas teve um dos times mais importantes da história do futebol brasileiro. Liderados por Sócrates, o único do escrete que vestia a camisa amarela, e por outros jogadores politizados – Wladimir, Casagrande e Zenon –, eles criaram um movimento que mais que nunca deve ser lembrado, a Democracia Corinthiana.
A proposta era muito simples, mas muito inovadora: as decisões do clube, como contratação e escalação de jogadores, concentração da equipe, o restaurante em que jantariam e até mesmo se beberiam cerveja depois dos jogos, eram tomadas por meio de uma votação democrática, em que todos os membros, do técnico ao roupeiro, tinham o mesmo peso. Num esporte conservador como futebol (que fica anos sem mudar as regras, que por décadas proibiu as mulheres de o praticarem) isso é de uma relevância incontestável, principalmente quando você se lembra que eram os últimos anos da Ditadura Militar, e a palavra "democracia" era ainda censurada no Brasil.
A ideia teve base no diretor de futebol Adilson Monteiro Alves, um sociólogo, que se ocupava em ouvir os jogadores e demais membros, uma atitude que até hoje nos soa revolucionária. Nessa gestão, que logo se tornou uma autogestão do clube, o Corinthians, cujos jogadores casados eram dispensados da concentração pra ficar com a família, chegou a uma semifinal de Campeonato Brasileiro e venceu dois Paulistas em cima do São Paulo, o time da elite (veja você que conveniente!). Esses mesmos jogadores, que tragavam cerveja e cachaça depois dos jogos, eram tidos como descompromissados pela imprensa, numa demonstração vulgar de repúdio ao movimento.
Essa politização do clube não reverberava somente nos assuntos futebolísticos, já que a Democracia era um ataque silencioso à opressão da Ditadura. A prova disso é o próprio uniforme do clube. Numa época em que as marcas começavam a estampar suas logos nos uniformes de futebol, o Corinthians, ainda sem patrocinador, entrava em campo com as frases "Diretas Já" ou "Dia 15 vote" estampadas na camisa, essa última em referência às eleições estaduais de 1982, as primeiras em 20 anos.
Em 1984, depois de resultados ruins em campo e mudanças na direção do clube, o movimento enfraqueceu, e Sócrates cumpriu o que havia prometido. Ele disse que sairia do Corinthians se as Diretas Já não fossem aprovadas pela Câmara dos Deputados no dia 25 de abril, e na Itália ele foi jogar.
"Ganhar ou perder, mas sempre com democracia"
Damos um salto pra 2018 e estamos com a democracia supostamente instaurada no Brasil. As eleições presidenciais estão chegando e, naturalmente, cada um tem a sua visão de país. Jogador de futebol hoje joga muito menos e ganha muito mais, mas, como não são artistas, a gente nunca espera um posicionamento político muito forte deles, o que não nos impede de sentir enorme desapontamento quando nossos ídolos falam qualquer besteira no Twitter. Quando o Neymar, em 2014, declarou apoio ao Aécio, a gente relevou, afinal alguém esperava alguma consciência social do jogador que desde os 13, 14 anos ganha um salário de CEO? Eu não.
Pois bem, a coisa começa a ficar feia quando você vê esportistas, muitos deles de origem humilde, apoiando o Jair Bolsonaro, um político que dispensa adjetivos. Se você não sabe quem são, eu vou dedurar alguns deles aqui: Felipe Melo, do Palmeiras; Lucas Moura, do Tottenham; Jadson, do Corinthians; e Maurício Souza e Wallace, da Seleção Brasileira de Vôlei.
O esporte pode ser uma mudança no quadro de comportamento de quem assiste e pratica. E quando você pensa no futebol, que tem como torcedores os operários mais incansáveis da nação, qualquer manifestação antidemocrática é muito grave. Sendo torcedor de um time do povo, que tem como ídolo o Reinaldo, um cara que, além de jogar muito, era abertamente contra o regime, eu me questiono sobre o que o Sócrates diria de ver jogador do Corinthians votando em candidato que faz apologia a tudo aquilo que a gente mais condena. E, sim, eu tive a pachorra de me colocar lado a lado dele que não foi o melhor, mas foi o mais importante jogador do Brasil.
Eu acredito na democracia e eu poderia morrer pela liberdade, mas, se você paga ingresso pra gritar o nome do Bolsonaro, como fizeram torcedores do Galo outro dia, você entendeu errado o que é o esporte mais popular e democrático do planeta, o único em que o pequeno pode ganhar do grande. Isso não é liberdade de expressão, isso é compactuar com alguém que quer o seu mal, porque você certamente não faz parte da patota dele. Você vai perder, assim como aqueles que você quer prejudicar.
O Corinthians acabou com a minha infância em 1999 quando levou o Brasileirão em cima do Atlético, mas eu dou a ele o respeito que ele merece por ter feito algo inédito e que certamente não vai se repetir enquanto houver cartolagem e CBF, e por isso eu espero muito que eles acabem com o Cruzeiro na final da Copa do Brasil.
(Antes de escrever esse texto eu assisti aos documentários "Ser campeão é detalhe: Democracia Corinthiana", de Gustavo Forti Leitão e Caetano Biasi, e "Democracia Corinthiana", produzido pela Coritinthians TV, ambos disponíveis no YouTube.)










