Meu pai se esparrama no sofá da sala com sua bacia de pipoca e um copo de Coca-Cola. Segundo minha mãe, o pai nunca foi muito chegado em cerveja ou bebidas alcoólicas. Tudo que sei sobre o meu pai são informações que recebo dos outros e penso com certa frequência que se fôssemos só eu e ele, provavelmente só saberia seu nome (Luiz), seu emprego (pasteleiro) e seu nível de parentesco comigo (pai). Enquanto ele liga a TV para assistir Palmeiras e Vasco, imagino que talvez nem saberia seu time de futebol, não fosse os comentários de meus tios corinthianos nos jantares de família. É importante que se saiba que meu pai é palmeirense numa família de corinthianos e é importante que se saiba que ele quase nunca fala ou demonstra sentimentos.
Nunca vi meu pai xingar algum jogador ou comemorar um gol. Independente da situação do Palmeiras, ele continua impassível sem esboçar qualquer reação. A imagem do pai com camiseta de time, lata de cerveja na mão e a cara vermelha de tanto gritar (ou beber) é algo distante para mim.
O jogo começa, mas não tenho muito tempo de prestar atenção nele ou em meu pai. Na verdade estou muito irritada de ter que lidar com o barulho na vizinhança justo no dia em que preciso escrever páginas e mais páginas para o trabalho de Literatura Portuguesa. Agradeço por meu pai não ser o velho que está berrando no bar do outro lado da rua e que observo com atenção - de repente qualquer coisa parece mais interessante do que escrever cinco páginas sobre Almeida Garrett.
Quando finalmente consigo ultrapassar a barreira das duas primeiras páginas, meu pai muda de canal para um filme natalino. O intervalo de tempo entre a mudança brusca de canal e os gritos de gol e fogos que se seguiram não foi suficiente para que eu pudesse entender a atitude de meu pai. Ele volta para o jogo xingando baixinho enquanto acompanha a reprise do gol da vitória.
Ao final do jogo meu pai mantém um sorriso de canto de boca raramente visto.
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A última vez que vi aquele sorriso em meu pai é uma lembrança confusa da primeira infância. Estávamos reunidos na casa da minha avó enquanto Palmeiras e Corinthians jogavam. Meus tios provocavam meu pai de todas as formas possíveis e ele continuava imperturbável, como se não estivesse de fato ali.
O primeiro gol do Palmeiras fez o silêncio na sala. Meu pai não disse nada, como sempre. Se levantou do sofá e saiu. Minha mãe e minhas tias estavam muito ocupadas na cozinha dando atenção para meu irmãozinho que tinha acabado de nascer e não perceberam quando meu pai atravessou a mesa de jantar para chegar do lado de fora.
Meu pai estava parado no jardim segurando aquele mesmo sorriso. Ficamos por lá até o final do jogo, fingindo que estávamos muito interessados nas flores e plantas da minha avó. Mesmo quando o Corinthians conseguiu finalmente virar o jogo meu pai não abandonou o sorriso. Ele ouviu as piadas e provocações, me pegou pela mão e disse que era hora de voltar para casa.
