terça-feira, 31 de julho de 2018

"That is the sound of inevitability"

Resultado de imagem para iago maidana atletico mineiro
Se bonito, por que jogador? Se jogador, por que bonito?

Qual não foi o meu espanto ao ver a Arena Fonte Nova parcialmente vazia pro jogo entre Bahia e Atlético Mineiro, ou Baêa e Galo, se você tiver intimidade. O gramado conservava severas marcas de diversão do fim de semana. Você se enganaria se achasse que era pré-Carnaval, porque foi o primeiro show do supergrupo de MPB Tribalhistas depois de 16 anos do álbum de estreia. Eu já disse que estádio não é lugar pra ser feliz, mas existe essa mania recente de chamar os estádios brasileiros de arena. 

Segunda-feira às 20h é dia e horário pra marcar um jogo oficial? Eu acho que não. É hora de analisar a consciência depois do fim de semana. Henri Chinaski, alter ego do Charles Bukowski, amava segundas, porque nas segundas as pessoas voltam do trabalho e vão direto pra casa, em oposição aos fins de semana, quando todo mundo vai ao supermercado, ao parque, à praia. Em Salvador, pouca gente vai ao estádio segunda, em BH ninguém vai à praia dia algum, Bukowski nunca jogou bola.

Começa, então, o jogo que fecha a rodada 16 do Brasileirão Assaí 2018. (Eu descobri só agora que esse é o nome oficial do campeonato.) Logo no início, Galdezani, meio-campo do Galo que faz cosplay de Roger Guedes, numa óbvia homenagem ao artilheiro do campeonato, marca um gol esquisito, mas que representa tudo o que seria o jogo: incompetência e esforço, uma colagem das mais recentes ruínas do futebol brasileiro. Golpe de sorte. O Bahia é o Morpheus sendo torturado, o Galo é o Agente Smith torturador, o gol é o som da inevitabilidade.

O primeiro tempo não foi senão 22 jogadores tentando enganar o juizão, o que comprova quão difícil é a profissão no Brasil. Victor, o São, foi o único punido por isso, numa demonstração vulgar de falta de decoro pelo mais nobre dos esportes. A bola parava a todo momento, e nossa, como isso deixou entediados os telespectadores obrigados a dividir a TV com a mãe querendo ver o episódio final de Deus Salve o Rei. Pra mim, o destaque foi Iago Maidana, zagueiro atleticano de cabelo bonito e com aspiração a modelo. O motivo é só esse mesmo.

Em outro jogo, Felipe Melo apelou muito rápido.

Na segunda metade, os baianos eram um helicóptero metralhando todo mundo vestindo preto, enquanto os mineiros pareciam satisfeitos com o placar perigoso. No melhor momento do jogo, o injustiçado juiz não marcou pênalti pro time de uniforme mais bonito da temporada porque não quis – o que aliviou a culpa do zagueiro-galã. Mas minutos depois árbitro não perdeu tempo em compensar o incompetente e esforçado time de Cláudia Leitte, cuja torcida já voltava desenganada pra casa mais uma noite. Gol roubado! O cara tava impedido! Quem se importa?! 1 a 1. O juiz é soberano na sua autoridade.

Aí vem o duelo final nos acréscimos e eu lembrei porque eu não gosto de ver jogo do Galo. É porque dói. Ricardo Oliveira, no alto dos seus 38 anos e protagonizando uma coadjuvação incontestável, recebe uma assistência perfeita, e dali ele não erra. De repente os jogadores semimortos arrumam uma correria e insistem em colocar a bola em órbita sempre que podem. É a luta final na estação de metrô, vale tudo, e como não é mais 2013, o Galo cede e o Baêa empata. O placar igual era inevitável. Tudo que o torcedor do time do Ronaldinho passou nos quase cem minutos de jogo foi raiva, mas a vaga pra Libertadores ainda tá perto. Já o torcedor baiano, tão acostumado a quicar entre as séries A e B, acordou hoje livre da zona de rebaixamento. O gol que livrou a Nabucodonosor do ataque das máquinas vai ser lembrado pra sempre até a próxima rodada, quando a ação recomeçar. E eu não troco minha vidinha de torcedor brasileiro por nenhum belo e bem cuidado gramado europeu.

Duas declarações nos últimos dias não podem ser esquecidas. A entrevista revoltada do Felipe Melo e a declaração do Marcos Paquetá, técnico do Botafogo. Eis a repetida conclusão de que o Glorioso segue caminho sem volta no projeto Série B 2019: "Temos que melhorar a concentração com relação ao adversário e à bola, coisa que estamos trabalhando bastante." Tirando o a bola e o adversário, o Fogão tá jogando bem, e disso ninguém duvida.

quinta-feira, 26 de julho de 2018

"O Furacão, os Mortos, os Rulfos e os Öziis"

Ilustração viva pra cego ver.

(...)

Costumeiros, olham ao passado os mortos de Rulfo. E o que fazem os mortos brasileiros? Os do futebol, acredito, exceto o Zagalo - o Antonio Cândido do ludopédio -, ainda choram por aquela nostalgia de algo não vivido, e recusam discussões e atualizações ao esporte. Pior ainda, vale dizer, cometem o maior dos pecados pintando jogadores como modelos, personificações recortadas e "midiaficadas" que nada mais fazem que se utilizarem de seus corpos para argumentos exteriores. Não tenho nada contra modelos, até tenho amigos que são, e a presença deles aqui serve mais para ilustrar o quanto a imagem desses esportistas concentra em si uma congruência de tempos e argumentos, na mesma medida em que escapa de suas próprias mãos o poder de decidir sobre o que está sendo dito, mostrado e apresentado. Poucos são os jogadores que anunciam a si mesmos, como músicos, "can you feel it? Jean Roch says".

(...)

As casas mortas de Rulfo não fazem sentido, basta sair pra ver. Nem precisa sair; oxalá abra a janela e veja!, as casas lá fora também não fazem sentido. É preciso alguém morrer pra ver. Quando Philip Lahm se aposentou precocemente, a promessa era de renovação, de abrir espaço para os jovens brilharem. A nova aposentaria, contudo, diz outra coisa. O que Özil nos diz é que essa renovação não veio e, se veio, veio desfigurada, porque veio dupla. E assim, portanto, inaceitável. As casas lá fora não fazem sentido porque não têm faculdades umas das outras, mesmo vizinhas. E não há nada mais vizinho que o futebol. Ao ponto em que nele, acima de tudo, materializam-se as maiores dificuldades da contemporaneidade, sendo a imigração o exemplo mais pertinente. "Alemão quando ganha" e "Turco quando perde", Özil se pinta como vítima. A meu ver com razão, já que não é o seu futebol letárgico, característico deste seu surgimento (e muito criticado por aqui), que é censurado, e sim sua paixão, seu patriotismo e sua nacionalidade. Consequentemente, sua justificativa enquanto titular da seleção Alemã.

Vamos ressaltar que Erdogan não é um símbolo qualquer, consolidou um enorme poder em si nas últimas eleições deste ano como presidente eleito, após ser primeiro ministro, desde 2002. Além de "sultão", antecipou as eleições vencidas, mudando a constituição; prendeu jornalistas e opositores no pós-tentativa-de-golpe-2016 (os hífens não são para humor); reprime a elevação Curda com unhas e dentes, mesmo tendo-os utilizados como principal ferramenta de combate ao "terrorismo" na Síria... O ponto é: Erdogan é uma figura complicada. Özil, por outro lado, não: ele é apenas um jogador de futebol, uma criança na política internacional. Ele é apenas um modelo. Portanto, nem clubismo é, saiam pra lá!

Özil, mais alemão que nunca.

(...)

As instituições de Rulfo só se fazem de mortas, quando na verdade são a própria tempestade. É da apatia delas que surge toda a violência. São elas que fazem os mortos ecoarem-se. São elas, inclusive, que fazem as casas se desentenderem. Elas não agem, deixam os mortos ecoarem, deixam os mortos se matarem. Mal sabem elas que outra tempestade vem vindo - vem vindo um furacão! E quando o furacão chegar essa apatia não será mais opção, não será mais ferramenta, porque o transtorno será tão grande que as instituições terão realmente que se justificar. Ou melhor, terão que justificar a sua existência. A gente sabe muito bem qual furacão é esse (porque aqui a analogia não é tão arrojada) e sabemos muito bem contra quem ele luta. Esse texto será publicado no dia 26, três dias antes do jogo contra o Vasco, visto que no dia 29 terá também a Libertadores e será tempo de outro falar. Nesse ínterim, mesmo que o Furacão perca, ele será vencedor. Mesmo que ele caia será campeão. E não será sozinho - o Atlético Paranaense foi autorizado a realizar seus jogos na Arena da Baixada sem torcedores rivais (medida paliativa que visa o abrandamento da tempestade que causa a violência que nos mata), transformando em uma só torcida aqueles ali presentes. E é como uma mesma torcida que cantamos:


P.S.: Fui informado aos 45 do segundo tempo que dia 25 foi o Dia do Escritor. Então segue os parabéns ao Paulo André Cren Benini, meu eleito capitão. Segue também para Juan Rulfo, o motivador do texto. Segue a todos os amigxs escritorxs.

terça-feira, 24 de julho de 2018

No meio das coisas


Um caça intergalático sai de fuga, devolvendo como pode os tiros do inimigo que vem mordendo seus calcanhares: um leviatã bélico que toma toda a tela no seu voo arrastado de nave espacial. Não sabemos quem são os tripulantes da navezinha, nem da navezona, muito menos o por quê da perseguição, vestimos a pele do proverbial cego perdido no tiroteio e mesmo assim já escolhemos nosso lado: torcemos pela navezinha. O que é o certo. Não se enganem, a questão aqui é moral: torcer pela navezona é falha de caráter. Torcemos pela navezinha, como torcemos pro Davi sapecar uma pedrada nos cornos do Golias, como torcemos pra empregada molhar as canelinhas na piscina da patroa, como Rubem Braga torceu pelo passarinho no embate contra o barão e como o Lucas torceu pro Japão engolir a Bélgica. In media res: assim começa o quarto episódio de Star Wars, imitando fórmulas que já eram manjadas quando o primeiro celta viu um bando de esquilos disputando uma bolota avantajada nas florestas bretãs e inventou o rúgbi.

E é assim que eu entro nessa história: o Brasileirão já se encaminha pra metade, sei por alto que o Inter é um deus menor do panteão futebolístico e que o Ceará é uma camisa sem estrelas, que sequer morre na praia porque passou a vida toda nadando de braçada contra a correnteza pra não ser arrastado pro fundo da série C. Além disso, lembro do Inter no International Superstar Soccer pirata e do Ceará, nem isso. Tal qual as naves do Guerra nas Estrelas, desconheço a tripulação dos times, não sei quem capitaneia os artilheiros, que dirá quem recolhe os calções no vestiário, mas já escolhi meu lado: impossível não torcer pelo Ceará. Ainda mais eu que sou um zerola quando o assunto é bola. Se montássemos uma tabela do blog, teria cadeira cativa na lanterna. Estou ciente de que futebol não é filme empoderado e premiado em Gramado e de que minha torcida será em vão, que a grama do campo está mais pra Édipo e tragédia grega, e geralmente quem está fadado a se foder acaba mais é se fodendo mesmo, tanto é que ainda é sexta-feira e eu já estou adiantando meu texto e se bobear nem vou ver esse jogo, porque não tenho sinal de TV em casa e, além do mais, que bar vai transmitir essa várzea em plena segundona, ressaca de copa ainda por cima? Torçam aí do futuro pra eu achar o bar e pro Ceará achar os gols.


(...)

Cá estamos quatro dias e um parágrafo depois. Encontrei o bar do Gordo aberto, com um único casal de meia-idade dividindo uma porção de tilápia ao som de música romântica, e pedi ao dono que ligasse no joguinho já a meados do primeiro tempo. Não tardou pro Barba Ruiva, que no intervalo descobri chamar-se Rossi, deixar a zaga do Ceará patinando no orvalho e tentar partir o travessão ao meio com um tiro de bazuca, botando as mãos nas ancas e fazendo beicinho ao ver que não havia logrado a façanha. Tudo isso no mudo, pra não arruinar por completo o encontro, coisa que não me ajudou em nada a aprender o nome dos jogadores, mas criou toda uma atmosfera pra ocasião e cenário digna das cenas mais canhestras de Twin Peaks. E por falar em canhestro, o que dizer daquele segundo tempo? O Ceará acordou pra vida, o que, na prática, transformou o jogo em uma brincadeira de peruzinho, em que o juiz corria de um lado pro outro atrás de lances que não chegavam a lugar nenhum. Sem que ninguém percebesse, a bola sobrou nas mãos do goleiro do Ceará e alguém aproveitou que já estava por ali mesmo pra fazer um golzinho. De resto, a partida não deu nem uma esmolinha de emoção que fosse aos torcedores que saíram de casa empacotados pro frio da Sibéria a troco de nada. O futebol do Inter foi tão desinteressado que beirou a ofensa. O Ceará, conforme esperado, até que tentou dibrar o destino, mas acabou metendo as chuteiras pelas mãos. Só me resta continuar torcendo pra que o América vá comendo uns pontinhos pelas beiradas e consiga se manter dependurado na série A, armar uma barraquinha e começar a vender tropeiro e latão nos dias de jogo, muito embora sua sina também não pareça das melhores. O grande vencedor da noite foi o Gordo, que mais cedo tinha pesado na farmácia e vestiu uma camisa xadrez de botões que fazia três anos não sabia o que era sair do guarda-roupa pra comemorar os trinta quilos perdidos.

sexta-feira, 20 de julho de 2018

O passado e o futuro do ponto de vista da bola

A obra literária mais antiga tem muito a ensinar ao futebol brasileiro.

Prólogo

A primeira frase ou verso, de praxe, começa com alguém acordando. Acordei com a notícia que havia de escrever o primeiro texto para o nosso renascido blog. Fiz inúmeras pesquisas relacionadas a recomeço, renascimento, obras mais antigas da história da humanidade e inícios de livros e músicas para escrever a dita peça. No decorrer das doze horas de reviravoltas, em que até cheguei a assistir uma peleja de futebol, recebi outras notícias: dois companheiros de banda, Larissa Conforto e Hugo Noguchi, agora fazem parte da gig do músico popular brasileiro Paulinho, o mosca, e o primeiro texto do blog já não ia ser o meu. Não me abalei, entretanto, já havia escrito algo e não abriria mão do raciocínio pois "o começo de um livro é precioso". Minha pesquisa me levara à "Epopeia de Gilgamesh", a estória de um semideus que se metia com todas as mulheres e homens da antiguidade e gostava duma festança, disso eu já tinha conhecimento diga-se de passagem. Também cheguei a um fragmento antigo, direto de Jerusalém, com nove linhas em que os arqueólogos só haviam discernido as expressões "eles", "você" e "depois". O destino ainda me escondia o entendimento de tal foreshadowing, mas, feito o bom brasileiro, peguei o trocado no chão, fingi que era meu e segui. Quando assustei faziam 21h30m e eu enviava áudios para meus amigos cantando Calma! / Tudo está em calma / Deixe que o beijo dure / Deixe que o tempo cure de forma zombeteira, gosto de humor, mas pasmem, tive de parar a minha playlist do Paulinho Moska para assistir o jogo Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense versus Clube Atlético Mineiro. A diferença entre os dois escretes já podia ser vista nos seus nomes de certidão.

O Primeiro Tempo

Spoiler: o primeiro tempo acabou zero a zero.

O primeiro tempo foi desastroso. O time Grêmio ficou no seu estilo tiki-taka porto-alegrense, jovem, elegante e confiante. O que eles não sabiam é que eu conseguia ver a areia suja brasileira através das águas cloradas do seu mar loiro. O elenco do time Grêmio balanceadamente metade europeu, metade brasileiro, isto diria tudo a olhos destreinados. Então metade, feito todo europeu, acha que sabe das coisas, esconde sua insegurança na sombra de uma falsa segurança e, mais importante, na vida real se apertarem eles peidam, por isso levam futebol tão a sério. Soa óbvio demais para ser verdade, mas é esse mesmo o segredo: um mesclado gostoso. Pois ao lado estão os brasileiros loucos desenfreados malucos da cabeça, uns mais velhos que fingem sabedoria, e uns mais jovens que fingem paixão. O Grêmio é bem dividido em duas porções muito bem estrategizadas, digo "parabéns Renato Gaúcho" com real convicção. Uma é um soirée, a outra é um churrascão de domingo. Os europeus são educadíssimos: Marcelo Grohe, o goleiro que só dormiu com uma mulher por toda a vida, Geromel, o zagueiro gentleman que nunca fez uma falta na vida, Bressan, o outro zagueiro cujo nome real é Simonete Bressanelli, Cícero, volante tão advogado quanto seu ancestral Marcus Tullius Cicero, e Ramiro, meia de nome real Moschen Benetti. "Nel mezzo del cammin di nostra vita" temos Bruno, o cortês que não tem nada de europeu mas gosta duma moda e de falar neck towel, e Maicon, ou Michael, que só faltou entrar de coulissé de tanto estilo. Os brasileiros são Léo Moura, um idoso, Luan, o enganador, Everton, que não é o Ribeiro nem o outro do Flamengo e por isso mesmo costuma fazer gol, e André Balada, ex de todos os times brasileiros e por isso mesmo vive fazendo gol por causa da "lei do ex", apesar de ser o pior atacante do mundo.

Spoiler: Quem ganhou o jogo foi a China, na real.

Aparentemente a bola estava rolando. Acometi que o time Atlético Mineiro é um outro tipo de mesclado: a soma do desespero brasileiro de ter de pagar dezenas de boletos atrasados empilhados em cima da mesa da copa misturada a jogadores sem senso de direção. Sem o jovem Gustavo Blanco, o meio de campo não existe. Sem Róger Guedes, vendido para a China, o ataque não existe. Sem Leonardo Silva, o único zagueiro possível, a defesa não existe. Era óbvio que o escrete ia perder, por isso mesmo todos apostaram no Grêmio no fantasy game online "Cartola FC". Se alguém observasse o certame com um olhar nem tão crítico já ia ver que é possível prever a descida do Atlético Mineiro para posições medianas na tabela. Os torcedores podem aceitar a mudança de "time da tropa de elite do futebol brasileiro" para "time que joga olhando pra cima". A boa notícia é que a contratação do colombiano Chará, reencarnação da deusa dragã Tiamat, é positiva e deu uma bagunçada boa ali. Edinho, no entanto, correu desesperadamente, como o jogador insinuante que é, por 30 minutos e se lesionou. O verdadeiro técnico do time, o menino maluquinho Luan, obviamente impôs o seu modus operandi no time, pois os jogadores não jogaram futebol no primeiro tempo e só correram feito loucos varridos.

Futuro e passado. Cumprimentos e comprimentos.

O Segundo Tempo


Spoiler: O futebol brasileiro aconteceu.


O embate de idades e modas acabou repetindo a diferença de gols da final da Copa do Brasil de Futebol de 2016 entre o tricolor gaúcho e o galo mineiro. O time Grêmio ganhou por 2 a 0, mas não sem futebol brasileiro. O primeiro gol foi à la Belgique: cruzamento na primeira trave, Bressan subiu mais que as entradas no cabelo de Everton, seu companheiro de time, e cabeceou a pelota para dentro do gol. O goleiro Victor reclamou de uma relada na sua canela, mas ainda não existe árbitro de vidro no campeonato brasileiro, então o gol foi válido. O segundo gol de André Ballantines eu não vi, mas graças à lei do ex era previsto que ele ia ocorrer uma hora ou outra. O semblante no rosto do melhor jogador do galo, Patric, se desmoronava. Após tudo isso, dois lances de dar uma boa risada. O primeiro foi a penalidade máxima a favor do Grêmio que Luan, o falso, errou. Um torcedor ainda foi flagrado xingando um "vai tomar no cu" desapontado, enquanto arquejava os membros superiores em questionamento. O segundo foi a entrada de Douglas, ex-Corinthians pois sou corintiano, que levou lágrimas aos olhos do torcedor gremista. Douglas é um exemplo de não só superação mas também do que é o verdadeiro jogador brasileiro de sucesso. Com suas contradições, que não são poucas, mas que é adorado por onde vai. Que fique bem claro, ser bom jogador não quer dizer ser o verdadeiro jogador brasileiro de sucesso. Do outro lado do campo tínhamos um outro exemplo de um conhecido senhor: Ricardo Oliveira, the Preacher. Este não é adorado em lugar nenhum e está satisfeito assim mesmo, pois só se pode adorar a Deus.

Epílogo


O que resta dessa quarta-feira é apenas a conclusão de que o Grêmio venceu o Atlético Mineiro num jogo justo. Para finalizar, sem forçar a barra, digo que Renato Gaúcho, renomado em tempos idos como o Gilgamesh tupiniquim, faz seu trabalho direito. Os dez mandamentos mineiros precisam ser substituídos de um texto de nove linhas em que só se entende "eles", "vocês" e "depois" por um que diga "eu", "nós" e "agora". O mesclado do mundo antigo e do mundo moderno. Não devemos nos esquecer da esculhambação do passado. Devemos sim, lembrar e aprender com ele. E se bobear tentar olhar para o futuro, quem sabe? Perdão, mas o Paulinho Moska, que ganhou seu apelido por ser magro e olhudo, não tem nada a ver com esse texto. Fin.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

“Lá vem eles de novo”

Imagem adicionada pelo editor chefe para "atrair a criançada".

Nosso blog tá de volta numa data muito conveniente, hoje é dia nacional do futebol. Confesso que eu não sabia, mas fui avisado pelo Google aqui. Então vamo lá! Antes de qualquer coisa, eu não assisto Falha de Cobertura, então você provavelmente não vai encontrar o mesmo tipo de piada aqui. “Provavelmente” porque sei lá o que eles falam, de repente nosso humor é igual. Eu não sei.

Duas copas aconteceram nesse meio tempo e nós continuamos idealistas. Curioso como toda copa marca a gente, né? A vida sempre tá num lugar diferente. Vou falar rapidamente dessa última então. Tivemos dois artilheiros, o VAR e o Own Goal, empatados com 11 tentos cada um até a minha última contagem. O Brasil chegou confiante, mas fracassou triunfantemente e afundou junto da usual soberba propagada pela Globo. Os europeus novamente comprovaram sua hegemonia, muitas vezes contestada com o argumento de que eles se limitam a levar os talentos das Américas e da África. Muitos vão dizer que a França só ganhou por causa dos imigrantes, mas, galera, nasceu e cresceu na França é francês, mérito dos caras. (Fica aí o alerta pros cartolas sulamericanos, tão preocupados com sua conta bancária e com os empregos pros familiares. Tá na hora de investir na base, e nas ligas nacionais! E por que não no futebol feminino também!?) Muito mais que isso, a França foi um time que não dependeu dentro e fora de campo de um só jogador.

Essa copa foi especial pra mim por um motivo: eu tava de férias, então eu só via os jogos e ia rapidinho gastar meu tempo procrastinando. Isso quer dizer que eu vi muito pouco ou nada do que os jornalistas falaram, então todas as análises ficaram por minha conta. Não vou me ater aos esquemas táticos, porque eu não entendo disso, vou deixar pros especialistas. O que eu percebi de mais impactante é que se a Rússia tem uma Geração Putin, que vê o cara como chefe de estado há anos, nós aqui temos a Geração Galvão Bueno. Pensa: em todas as copas que você viu, se você nasceu depois de 1980, ele foi a voz dos gols. A parte boa é que o Galvão é um meme ao vivo; a parte ruim é que é o Galvão, pessoa que manipula e mantém atrasado o nosso jornalismo esportivo. Sempre é ele, um ex-jogador do Flamengo ou do Corinthians e um ex-árbitro que já favoreceu muitas vezes o Flamengo ou o Corinthians comentando os jogos. Aí eles decidem se o jogo foi bom ou ruim, como se fosse um filme. Futebol não é espetáculo nem prestação de serviço, é pra maltratar cardíaco que ele existe mesmo.

Kanu perigoooso... bateu, acabou.” Lembrança do Galvão compartilhada pelo nosso leitor Tiago Clark, de Rancharia-SP.

Gostei bastante da final e torci muito pela Croácia, que jogou melhor, mas não foi objetiva. É bom lembrar também que os dois primeiros gols aconteceram em falha do juizão e atuação implacável do árbitro de vídeo. Resultado: gol contra e gol do VAR. Sonhei várias vezes com a classificação de Senegal, com a Dinamarca na final, com o Japão engolindo a Bélgica, com o título em casa da Rússia ou com qualquer seleção de camisa leve levantando o troféu, mas não foi dessa vez ainda. Quando os times pequenos ganham é mais glorioso: a criminalidade cai, a taxa de natalidade sobe, a emissão de atestados se multiplica e a cerveja nos bares e supermercados acaba. Cês lembram quando o time do Ronaldinho Gaúcho foi campeão da América? Hoje, sem chuteiras, mas ainda nos gramados tocando percussão, ele é incontestavelmente o maior jogador do mundo e um dos melhores da história do Galo.

No geral, foram boas partidas, uma média satisfatória de gols nos acréscimos e uma ansiedade que torturava a gente nos dias que não tinha jogo. Duro mesmo vai ser acompanhar o Brasileirão. Ainda bem que agora existem os aplicativos que me permitem me manter atualizado e fazer o que eu mais gosto, que é opinar sobre assuntos que eu não domino.

Feliz dia do futebol! Não pratique outra atividade física, porque esporte mesmo é só futebol. E rúgbi. Rúgbi é a prova concreta de que um dia a gente viveu na selva.