
Se bonito, por que jogador? Se jogador, por que bonito?
Qual não foi o meu espanto ao ver a Arena Fonte Nova parcialmente vazia pro jogo entre Bahia e Atlético Mineiro, ou Baêa e Galo, se você tiver intimidade. O gramado conservava severas marcas de diversão do fim de semana. Você se enganaria se achasse que era pré-Carnaval, porque foi o primeiro show do supergrupo de MPB Tribalhistas depois de 16 anos do álbum de estreia. Eu já disse que estádio não é lugar pra ser feliz, mas existe essa mania recente de chamar os estádios brasileiros de arena.
Segunda-feira às 20h é dia e horário pra marcar um jogo oficial? Eu acho que não. É hora de analisar a consciência depois do fim de semana. Henri Chinaski, alter ego do Charles Bukowski, amava segundas, porque nas segundas as pessoas voltam do trabalho e vão direto pra casa, em oposição aos fins de semana, quando todo mundo vai ao supermercado, ao parque, à praia. Em Salvador, pouca gente vai ao estádio segunda, em BH ninguém vai à praia dia algum, Bukowski nunca jogou bola.
Começa, então, o jogo que fecha a rodada 16 do Brasileirão Assaí 2018. (Eu descobri só agora que esse é o nome oficial do campeonato.) Logo no início, Galdezani, meio-campo do Galo que faz cosplay de Roger Guedes, numa óbvia homenagem ao artilheiro do campeonato, marca um gol esquisito, mas que representa tudo o que seria o jogo: incompetência e esforço, uma colagem das mais recentes ruínas do futebol brasileiro. Golpe de sorte. O Bahia é o Morpheus sendo torturado, o Galo é o Agente Smith torturador, o gol é o som da inevitabilidade.
O primeiro tempo não foi senão 22 jogadores tentando enganar o juizão, o que comprova quão difícil é a profissão no Brasil. Victor, o São, foi o único punido por isso, numa demonstração vulgar de falta de decoro pelo mais nobre dos esportes. A bola parava a todo momento, e nossa, como isso deixou entediados os telespectadores obrigados a dividir a TV com a mãe querendo ver o episódio final de Deus Salve o Rei. Pra mim, o destaque foi Iago Maidana, zagueiro atleticano de cabelo bonito e com aspiração a modelo. O motivo é só esse mesmo.
Em outro jogo, Felipe Melo apelou muito rápido.
Na segunda metade, os baianos eram um helicóptero metralhando todo mundo vestindo preto, enquanto os mineiros pareciam satisfeitos com o placar perigoso. No melhor momento do jogo, o injustiçado juiz não marcou pênalti pro time de uniforme mais bonito da temporada porque não quis – o que aliviou a culpa do zagueiro-galã. Mas minutos depois árbitro não perdeu tempo em compensar o incompetente e esforçado time de Cláudia Leitte, cuja torcida já voltava desenganada pra casa mais uma noite. Gol roubado! O cara tava impedido! Quem se importa?! 1 a 1. O juiz é soberano na sua autoridade.Aí vem o duelo final nos acréscimos e eu lembrei porque eu não gosto de ver jogo do Galo. É porque dói. Ricardo Oliveira, no alto dos seus 38 anos e protagonizando uma coadjuvação incontestável, recebe uma assistência perfeita, e dali ele não erra. De repente os jogadores semimortos arrumam uma correria e insistem em colocar a bola em órbita sempre que podem. É a luta final na estação de metrô, vale tudo, e como não é mais 2013, o Galo cede e o Baêa empata. O placar igual era inevitável. Tudo que o torcedor do time do Ronaldinho passou nos quase cem minutos de jogo foi raiva, mas a vaga pra Libertadores ainda tá perto. Já o torcedor baiano, tão acostumado a quicar entre as séries A e B, acordou hoje livre da zona de rebaixamento. O gol que livrou a Nabucodonosor do ataque das máquinas vai ser lembrado pra sempre até a próxima rodada, quando a ação recomeçar. E eu não troco minha vidinha de torcedor brasileiro por nenhum belo e bem cuidado gramado europeu.
Duas declarações nos últimos dias não podem ser esquecidas. A entrevista revoltada do Felipe Melo e a declaração do Marcos Paquetá, técnico do Botafogo. Eis a repetida conclusão de que o Glorioso segue caminho sem volta no projeto Série B 2019: "Temos que melhorar a concentração com relação ao adversário e à bola, coisa que estamos trabalhando bastante." Tirando o a bola e o adversário, o Fogão tá jogando bem, e disso ninguém duvida.