terça-feira, 24 de julho de 2018

No meio das coisas


Um caça intergalático sai de fuga, devolvendo como pode os tiros do inimigo que vem mordendo seus calcanhares: um leviatã bélico que toma toda a tela no seu voo arrastado de nave espacial. Não sabemos quem são os tripulantes da navezinha, nem da navezona, muito menos o por quê da perseguição, vestimos a pele do proverbial cego perdido no tiroteio e mesmo assim já escolhemos nosso lado: torcemos pela navezinha. O que é o certo. Não se enganem, a questão aqui é moral: torcer pela navezona é falha de caráter. Torcemos pela navezinha, como torcemos pro Davi sapecar uma pedrada nos cornos do Golias, como torcemos pra empregada molhar as canelinhas na piscina da patroa, como Rubem Braga torceu pelo passarinho no embate contra o barão e como o Lucas torceu pro Japão engolir a Bélgica. In media res: assim começa o quarto episódio de Star Wars, imitando fórmulas que já eram manjadas quando o primeiro celta viu um bando de esquilos disputando uma bolota avantajada nas florestas bretãs e inventou o rúgbi.

E é assim que eu entro nessa história: o Brasileirão já se encaminha pra metade, sei por alto que o Inter é um deus menor do panteão futebolístico e que o Ceará é uma camisa sem estrelas, que sequer morre na praia porque passou a vida toda nadando de braçada contra a correnteza pra não ser arrastado pro fundo da série C. Além disso, lembro do Inter no International Superstar Soccer pirata e do Ceará, nem isso. Tal qual as naves do Guerra nas Estrelas, desconheço a tripulação dos times, não sei quem capitaneia os artilheiros, que dirá quem recolhe os calções no vestiário, mas já escolhi meu lado: impossível não torcer pelo Ceará. Ainda mais eu que sou um zerola quando o assunto é bola. Se montássemos uma tabela do blog, teria cadeira cativa na lanterna. Estou ciente de que futebol não é filme empoderado e premiado em Gramado e de que minha torcida será em vão, que a grama do campo está mais pra Édipo e tragédia grega, e geralmente quem está fadado a se foder acaba mais é se fodendo mesmo, tanto é que ainda é sexta-feira e eu já estou adiantando meu texto e se bobear nem vou ver esse jogo, porque não tenho sinal de TV em casa e, além do mais, que bar vai transmitir essa várzea em plena segundona, ressaca de copa ainda por cima? Torçam aí do futuro pra eu achar o bar e pro Ceará achar os gols.


(...)

Cá estamos quatro dias e um parágrafo depois. Encontrei o bar do Gordo aberto, com um único casal de meia-idade dividindo uma porção de tilápia ao som de música romântica, e pedi ao dono que ligasse no joguinho já a meados do primeiro tempo. Não tardou pro Barba Ruiva, que no intervalo descobri chamar-se Rossi, deixar a zaga do Ceará patinando no orvalho e tentar partir o travessão ao meio com um tiro de bazuca, botando as mãos nas ancas e fazendo beicinho ao ver que não havia logrado a façanha. Tudo isso no mudo, pra não arruinar por completo o encontro, coisa que não me ajudou em nada a aprender o nome dos jogadores, mas criou toda uma atmosfera pra ocasião e cenário digna das cenas mais canhestras de Twin Peaks. E por falar em canhestro, o que dizer daquele segundo tempo? O Ceará acordou pra vida, o que, na prática, transformou o jogo em uma brincadeira de peruzinho, em que o juiz corria de um lado pro outro atrás de lances que não chegavam a lugar nenhum. Sem que ninguém percebesse, a bola sobrou nas mãos do goleiro do Ceará e alguém aproveitou que já estava por ali mesmo pra fazer um golzinho. De resto, a partida não deu nem uma esmolinha de emoção que fosse aos torcedores que saíram de casa empacotados pro frio da Sibéria a troco de nada. O futebol do Inter foi tão desinteressado que beirou a ofensa. O Ceará, conforme esperado, até que tentou dibrar o destino, mas acabou metendo as chuteiras pelas mãos. Só me resta continuar torcendo pra que o América vá comendo uns pontinhos pelas beiradas e consiga se manter dependurado na série A, armar uma barraquinha e começar a vender tropeiro e latão nos dias de jogo, muito embora sua sina também não pareça das melhores. O grande vencedor da noite foi o Gordo, que mais cedo tinha pesado na farmácia e vestiu uma camisa xadrez de botões que fazia três anos não sabia o que era sair do guarda-roupa pra comemorar os trinta quilos perdidos.