sexta-feira, 20 de julho de 2018

O passado e o futuro do ponto de vista da bola

A obra literária mais antiga tem muito a ensinar ao futebol brasileiro.

Prólogo

A primeira frase ou verso, de praxe, começa com alguém acordando. Acordei com a notícia que havia de escrever o primeiro texto para o nosso renascido blog. Fiz inúmeras pesquisas relacionadas a recomeço, renascimento, obras mais antigas da história da humanidade e inícios de livros e músicas para escrever a dita peça. No decorrer das doze horas de reviravoltas, em que até cheguei a assistir uma peleja de futebol, recebi outras notícias: dois companheiros de banda, Larissa Conforto e Hugo Noguchi, agora fazem parte da gig do músico popular brasileiro Paulinho, o mosca, e o primeiro texto do blog já não ia ser o meu. Não me abalei, entretanto, já havia escrito algo e não abriria mão do raciocínio pois "o começo de um livro é precioso". Minha pesquisa me levara à "Epopeia de Gilgamesh", a estória de um semideus que se metia com todas as mulheres e homens da antiguidade e gostava duma festança, disso eu já tinha conhecimento diga-se de passagem. Também cheguei a um fragmento antigo, direto de Jerusalém, com nove linhas em que os arqueólogos só haviam discernido as expressões "eles", "você" e "depois". O destino ainda me escondia o entendimento de tal foreshadowing, mas, feito o bom brasileiro, peguei o trocado no chão, fingi que era meu e segui. Quando assustei faziam 21h30m e eu enviava áudios para meus amigos cantando Calma! / Tudo está em calma / Deixe que o beijo dure / Deixe que o tempo cure de forma zombeteira, gosto de humor, mas pasmem, tive de parar a minha playlist do Paulinho Moska para assistir o jogo Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense versus Clube Atlético Mineiro. A diferença entre os dois escretes já podia ser vista nos seus nomes de certidão.

O Primeiro Tempo

Spoiler: o primeiro tempo acabou zero a zero.

O primeiro tempo foi desastroso. O time Grêmio ficou no seu estilo tiki-taka porto-alegrense, jovem, elegante e confiante. O que eles não sabiam é que eu conseguia ver a areia suja brasileira através das águas cloradas do seu mar loiro. O elenco do time Grêmio balanceadamente metade europeu, metade brasileiro, isto diria tudo a olhos destreinados. Então metade, feito todo europeu, acha que sabe das coisas, esconde sua insegurança na sombra de uma falsa segurança e, mais importante, na vida real se apertarem eles peidam, por isso levam futebol tão a sério. Soa óbvio demais para ser verdade, mas é esse mesmo o segredo: um mesclado gostoso. Pois ao lado estão os brasileiros loucos desenfreados malucos da cabeça, uns mais velhos que fingem sabedoria, e uns mais jovens que fingem paixão. O Grêmio é bem dividido em duas porções muito bem estrategizadas, digo "parabéns Renato Gaúcho" com real convicção. Uma é um soirée, a outra é um churrascão de domingo. Os europeus são educadíssimos: Marcelo Grohe, o goleiro que só dormiu com uma mulher por toda a vida, Geromel, o zagueiro gentleman que nunca fez uma falta na vida, Bressan, o outro zagueiro cujo nome real é Simonete Bressanelli, Cícero, volante tão advogado quanto seu ancestral Marcus Tullius Cicero, e Ramiro, meia de nome real Moschen Benetti. "Nel mezzo del cammin di nostra vita" temos Bruno, o cortês que não tem nada de europeu mas gosta duma moda e de falar neck towel, e Maicon, ou Michael, que só faltou entrar de coulissé de tanto estilo. Os brasileiros são Léo Moura, um idoso, Luan, o enganador, Everton, que não é o Ribeiro nem o outro do Flamengo e por isso mesmo costuma fazer gol, e André Balada, ex de todos os times brasileiros e por isso mesmo vive fazendo gol por causa da "lei do ex", apesar de ser o pior atacante do mundo.

Spoiler: Quem ganhou o jogo foi a China, na real.

Aparentemente a bola estava rolando. Acometi que o time Atlético Mineiro é um outro tipo de mesclado: a soma do desespero brasileiro de ter de pagar dezenas de boletos atrasados empilhados em cima da mesa da copa misturada a jogadores sem senso de direção. Sem o jovem Gustavo Blanco, o meio de campo não existe. Sem Róger Guedes, vendido para a China, o ataque não existe. Sem Leonardo Silva, o único zagueiro possível, a defesa não existe. Era óbvio que o escrete ia perder, por isso mesmo todos apostaram no Grêmio no fantasy game online "Cartola FC". Se alguém observasse o certame com um olhar nem tão crítico já ia ver que é possível prever a descida do Atlético Mineiro para posições medianas na tabela. Os torcedores podem aceitar a mudança de "time da tropa de elite do futebol brasileiro" para "time que joga olhando pra cima". A boa notícia é que a contratação do colombiano Chará, reencarnação da deusa dragã Tiamat, é positiva e deu uma bagunçada boa ali. Edinho, no entanto, correu desesperadamente, como o jogador insinuante que é, por 30 minutos e se lesionou. O verdadeiro técnico do time, o menino maluquinho Luan, obviamente impôs o seu modus operandi no time, pois os jogadores não jogaram futebol no primeiro tempo e só correram feito loucos varridos.

Futuro e passado. Cumprimentos e comprimentos.

O Segundo Tempo


Spoiler: O futebol brasileiro aconteceu.


O embate de idades e modas acabou repetindo a diferença de gols da final da Copa do Brasil de Futebol de 2016 entre o tricolor gaúcho e o galo mineiro. O time Grêmio ganhou por 2 a 0, mas não sem futebol brasileiro. O primeiro gol foi à la Belgique: cruzamento na primeira trave, Bressan subiu mais que as entradas no cabelo de Everton, seu companheiro de time, e cabeceou a pelota para dentro do gol. O goleiro Victor reclamou de uma relada na sua canela, mas ainda não existe árbitro de vidro no campeonato brasileiro, então o gol foi válido. O segundo gol de André Ballantines eu não vi, mas graças à lei do ex era previsto que ele ia ocorrer uma hora ou outra. O semblante no rosto do melhor jogador do galo, Patric, se desmoronava. Após tudo isso, dois lances de dar uma boa risada. O primeiro foi a penalidade máxima a favor do Grêmio que Luan, o falso, errou. Um torcedor ainda foi flagrado xingando um "vai tomar no cu" desapontado, enquanto arquejava os membros superiores em questionamento. O segundo foi a entrada de Douglas, ex-Corinthians pois sou corintiano, que levou lágrimas aos olhos do torcedor gremista. Douglas é um exemplo de não só superação mas também do que é o verdadeiro jogador brasileiro de sucesso. Com suas contradições, que não são poucas, mas que é adorado por onde vai. Que fique bem claro, ser bom jogador não quer dizer ser o verdadeiro jogador brasileiro de sucesso. Do outro lado do campo tínhamos um outro exemplo de um conhecido senhor: Ricardo Oliveira, the Preacher. Este não é adorado em lugar nenhum e está satisfeito assim mesmo, pois só se pode adorar a Deus.

Epílogo


O que resta dessa quarta-feira é apenas a conclusão de que o Grêmio venceu o Atlético Mineiro num jogo justo. Para finalizar, sem forçar a barra, digo que Renato Gaúcho, renomado em tempos idos como o Gilgamesh tupiniquim, faz seu trabalho direito. Os dez mandamentos mineiros precisam ser substituídos de um texto de nove linhas em que só se entende "eles", "vocês" e "depois" por um que diga "eu", "nós" e "agora". O mesclado do mundo antigo e do mundo moderno. Não devemos nos esquecer da esculhambação do passado. Devemos sim, lembrar e aprender com ele. E se bobear tentar olhar para o futuro, quem sabe? Perdão, mas o Paulinho Moska, que ganhou seu apelido por ser magro e olhudo, não tem nada a ver com esse texto. Fin.