Estive anteontem com o Abílio Coutinho, comentarista esportivo da velha guarda belorizontina, um mentor e tanto para o nosso projeto, sujeito excepcional, sinceramente, excepcional. Trocamos algumas palavras sobre as novas contratações do Atlético e, resumindo, ele, muito gentilmente me veio perguntar sobre “aquele projeto que eu e aqueles meninos estávamos fazendo para tentar entender o futebol”. Respondi-lhe que estava indo bem. Muito justamente, ele me retrucou: “então por que infernos eu não vi nada sendo dito sobre os jogos de domingo?”. Rubro, ou tão rubro quanto eu posso ficar, tive de admitir “Abilhosa” (foi assim que eu o conheci, há dois anos atrás) “a culpa é toda minha, a vez era minha e eu me atrasei mesmo”
Portanto, meus caros companheiros de arquibancada, em função da cobrança vinda desse gênio do futebol, eu percebi os problemas decorrentes dos deslizes no comprometimento. Sei o quanto é grave deixá-los esperando e não pretendo me repetir no erro. Sigo minha conversa em um vídeo, gravado com a ajuda de meu companheiro de domínio, Vitor Brauer. Caso tenham paciência, este é um sincero pedido de desculpas:
E eis que foi chegando o fim de semana da rodada de clássicos. Estremeci com a expectativa e tive de escolher, dentre os diversos embates, qual mereceria mais a minha atenção. Às seis horas da tarde eu estava no teatro para acabar com minha dúvida: pulei a parte mais importante do jogo, que é a imprevisibilidade, e dados já lançados, resolvi me valer dos reprises do pay-per-view. O que estava disponível no horário adequado foi o clássico paulista Santos e São Paulo. Jogão. Empate. Clássico – em todos os sentidos.
O que há de importante em um clássico é o fator épico. Nessa hora me rendo: a ciência pouco alcança os valores que regem um jogo de Brasões. Não me atenho, dessa vez, portanto, a uma análise fria da partida. Existe algo de sério no reino do futebol que devo comentar.
Falei de fator épico há pouco e não foi uma comparação simplista. Aqui vai uma: o futebol é a epopéia brasileira. Estou sendo, talvez, óbvio, mas preciso disso para alcançar, agora, aquilo de que eu sempre quis falar.
Façamos um traçado leigo e breve do que seja a epopéia: tendo em si um híbrido de poesia e de prosa, esse gênero narra, em versos, uma façanha grandiosa de um povo, que, historicamente, alcançou pontos inalcançáveis até então.
O Pasolini tem uma mania interessante de dividir as coisas na seguinte dicotomia: prosa e poesia. É cinema de prosa e cinema de poesia; futebol de prosa e futebol de poesia... Bem, não é preciso explicar muito o que é que diferencia um futebol de prosa e um de poesia – salta aos olhos essa definição. Só quis me valer dela para destrinchar a teoria. Nisso, vai o primeiro aspecto epopéico da comparação: a literariedade.
Da façanha grandiosa de um povo, que historicamente alcançou pontos inalcançáveis até então.... pôxa. O Brasil é pentacampeão e isso diz tudo.
Mas existe outra coisa que faz essa relação ser tão necessariamente épica: o Brasil necessita de heróis no futebol. É desesperador, porque sempre há uma aposta, uma promessa a fazer a torcida brasileira aguardar ao cais. Foi patética, por exemplo, a veneração e a expectativa depositadas em Kaká no ano passado, em plena Copa.
Cheguei ao ponto motivador de toda essa teoria, senão dessa iniciativa: Neymar da Silva Santos Junior. Falemos de heroísmo. Trata-se de um garoto, desses que, como diria Nelson Rodrigues, pai desse blog, não podem nem ver filme de Brigitte Bardot, mal se responsabilizam pelos próprios atos – por pouco não é o pai que tem que receber o ordenado por ele. Jogador de time único, Neymar carrega o clube no nome, ao lado de um “da Silva”, que comunga com ex-presidente icônico, com o garçom do almoço de hoje e com o dono de uma rede de Megastores – todos tão brasileiros que se percebe no preenchimento de um cabeçalho qualquer.
Há um legado de poucos que, aparentemente, o rapazinho pegou. Todas as suas semelhanças com o chamado Rei fazem a massa realmente crer em seu potencial. Leve, rápido, sagaz, malandro, novo, goleador, promissor. Tantos adjetivos que Galvão Bueno deve ter tido que comprar um novo dicionário para dar conta do recado.
Herói
Mas Neymar, O Eleito chegou em época errada. Há algo de astral no fato de Ronaldo Primeiro ter se aposentado nas proximidades desse tal tempo áureo do jogador santista. Trata-se da morte solitária do último elefante - Deus me perdoe e saiba o quanto eu simpatizo com o Fenômeno o suficiente para me livrar de toda a maldade da comparação - de uma espécie rara. O heroísmo está em decadência e nem mesmo a profecia das profecias, nem mesmo a bravura intrínseca a um povo tem conseguido deter essa fatalidade.
Ronaldo, aposentado e em baixa definição
Faz parte da configuração de que eu tanto falo, faz parte da vida moderna. Pier Paolo Pasolini deve estar se revirando no túmulo - a poesia acabou. O futebol hoje é coeso demais, comunicativo demais, coerente demais e tem toda força pra se defender e se manter assim. Mais do que prosaico, cá entre nós, o futebol atual é dissertativo, é argumentativo. Há técnicas, teorias e fatores por demais e que dão conta de tudo.
E quer um argumento para O Eleito não dar certo? Ele não consegue ficar mais de quinze minutos em pé em um jogo.Outro? Ele mente a maior parte dessas quedas. Mais um? Quando a coisa é além-fronteira ele não dá conta de ser metade do herói que ele se propõe a ser aqui . No escrete brasileiro, Neymar é inexpressivo, decepcionante, quase um Spider Man, de quem se espera a salvação e por quem se sente dó, afinal. Todo mundo vai sempre marcar o garoto, ora, alguns anos de futebol ensinam o resto do mundo a jogar, não?
Há muitos jogadores assustadoramente habilidosos, tanto quanto Neymar, O Eleito. Para não deixar de citar o clássico desse domingo, Lucas, autor do gol do São Paulo é um desses que tem, como o santista, algum resquício da linguagem poética - mas mesmo ele não conseguiu aparecer em um jogo tão marcado e protegido.
Eis as questões. Seria válido esperar a poesia acontecer? É tão bonito assim torcer, afinal? O que vai diferenciar os bons jogadores a partir de agora? Devemos ter fé nos atacantes?
Meus caros, por não saber de respostas, termino hoje em conselho: tolo é quem acredita sem duvidar e fraco é aquele que não sabe se adaptar.
Grato,















