sábado, 27 de outubro de 2018

Uma nostalgia para tempos vindouros

Belo Horizonte é uma cidade que é uma espécie de conjuntos de vales rodeados por montanhas. Nesses vales – se é que posso chamá-los assim – nesses vales, então, a cidade foi construída: uma das primeiras capitais brasileiras planejada, desenhada, racionalmente sonhada. BH foi pensada como avatar da Modernidade e da utopia de conter nossos desejos nos tracejados da Avenida do Contorno; cidade do futuro, para o progresso e o iluminismo. 

Por entre os vales e entre as montanhas, no entanto, a cidade com o belo horizonte se especializou em produzir uma escrita do tempo marcada pela melancolia. Os morros da Bahia em direção à Praça da Liberdade ou as espeluncas do centro da cidade são, desde sempre em meu coração, melancólicos. Quando a gente sua subindo os vários morros daqui, os versos do Drummond buliçam nossos olhos. 

Estou aqui em Belo Horizonte hoje. Na semana que passou, o Cruzeiro jogou contra o Ceará e, contra todos os prognósticos, perdeu por 2 a 0. Na quarta-feira, esse jogo me passou despercebido, mas ontem e hoje, pareço não parar de pensar. Torço – bem de leve – para o Cruzeiro devido ao meu pai. O Cruzeiro é, pra mim, a representação máxima da herança e da tradição incrustada nas pedras de BH. Sempre admirei mais a torcida do galo, mas, como boa herança paterna, não se larga somente com uma vontade. Todas as vezes em que me lembro que torço para o Cruzeiro, me lembro de Belo Horizonte, de meu pai ausente e, principalmente, da melancolia de minha cidade. 

Torcida do Cruzeiro em 1996, quando o time ganhou a Copa do Brasil

Escrevo hoje sobre o passado porque estou nostálgico de um futuro que pode não chegar. Escrevo sentado num dia nublado de Belo Horizonte, daqueles de outubro em que faz muito calor num céu sem sol. O Ceará jogando contra o Cruzeiro me lembrou que moro na terra do sol e, longe de lá, penso sobre nosso futuro no Brasil.

Essas últimas linhas que vou teclando acontecem na véspera da eleição mais importante do Brasil dos últimos tempos. Mais: instaura um tempo em que cada eleição vai ser mais importante que a anterior. Talvez esse texto seja esquecido por um resultado desastroso na eleição de amanhã, mas nossa esperança nostálgica de um futuro afetuoso permanece. 

sábado, 20 de outubro de 2018

Quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Boa noite, D. Como passou a semana? 
Acho que ainda não me acostumei com a ideia de escrever cartas. Fico pensando sobre essa disciplina e o que levou nosso professor a querer que escrevêssemos cartas uns aos outros. Talvez daqui alguns anos outros estudantes da USP leiam nossas cartas para entender o que se passava na cabeça dos jovens de nossa época. Desde já me sinto mal, se nós não entendemos o que está a acontecer, que dirá eles. Ou talvez entendam muito melhor e olhem para nós com resignada tristeza, assim como nós olhamos as fotografias em preto e branco de 64. A você e aos leitores do futuro deixo minhas sinceras desculpas por nunca saber o que dizer em minhas cartas, recebi e escrevi poucas em minha vida.

Em sua última carta você mencionou que é um grande fã de futebol. Gostaria de dizer que também sou, assim poderíamos trocar várias cartas com longos comentários sobre jogos e campeonatos. O assunto nunca se esgotaria. Me interessa e me fascina o esporte, mas confesso que não tenho muito tempo para acompanhar e não torço para nenhum time. J. continua a insistir que tenho cara de alvinegra durante as aulas e isso me diverte. Fico imaginando se você pensa da mesma forma. Pelo forma que ela escreve, só pode ser alvinegra. Não tenho certeza se as cartas de Clarice Lispector estão em nosso programa, mas você sabia que ela era Botafogo? Jamais imaginei algo do tipo. 

Hoje o expediente acabou tarde. No metrô várias pessoas acompanhavam a final da Copa do Brasil pelo celular. Meu primo enviou uma foto sorridente no Itaquerão em meio as discussões políticas do grupo da família e acho que todos nós entendemos aquilo como um pedido de trégua. Na baldeação da Sé fiquei sabendo do primeiro gol do Cruzeiro. 

Esta noite torci secretamente pelo Corinthians. Talvez J. esteja certo. Apesar de não ter um time, nunca simpatizei com tricolores. Venho de uma família e de um bairro majoritariamente corinthiano. Em final de campeonato é tudo muito intenso, muita gritaria e fogos pela rua. Lembro do episódio em que o hino do Corinthians tocou a madrugada inteira pela vizinhança, impedindo o sono de todos. 

Quando lembro dessas alegrias, quase me permito esquecer dos episódios de bateção de panela pelo bairro. Infelizmente tenho uma memória muito boa e o esquecimento não é um privilégio meu, nunca poderá ser. Você se lembra da história do sequestro do embaixador norte-americano em 1969? O professor comentou na minha turma, não sei se na sua também. Em 1969 o embaixador Charles Burke Elbrick foi sequestrado por militantes da Aliança Libertadora Nacional e da MR8. Ele foi solto na tarde de 7 de setembro de 1969, após a libertação de 15 presos políticos da ditadura. Havia uma partida de futebol acontecendo naquela tarde no Maracanã, o mesmo Cruzeiro vencia o Fluminense. Na dispersão da torcida, os militantes libertaram o embaixador e escaparam em meio a torcida. 


Manchete do Jornal do Brasil sobre o sequestro. Exatamente dois meses após o sequestro, Marighella foi encurralado e morto. 

Esta noite eu esperei por qualquer coisa assim. 
Silêncio total no bairro. Sem fogos, sem gritos, sem hino do Corinthians pela madrugada. Esperei por alguma manifestação de alegria, miníma que fosse. Ela não veio. A rua não estava em festa como já esteve. 

Peço desculpas por sempre escrever sobre coisas tristes, mas me parece cada dia mais difícil me alegrar por qualquer coisa. Se daqui alguns anos estas cartas forem objeto de estudo para a epistolografia, espero que elas ajudem a entender o momento político e histórico que vivemos. Acredito que a narrativa individual e a narrativa dos sofrimentos também ajudam a escrever a história. 

Amanhã espero poder recomeçar. 
Me escreva sobre qualquer coisa e me diga seu time de futebol. Torço para que seja algo feliz. 

Um abraço,
M. 

terça-feira, 2 de outubro de 2018

Paixão e Objetividade

Ultimamente tenho me encontrado cercado de dúvidas, das mais diversas. Me sinto sem respostas às indagações que faço interior. Então, não sei lá muito bem o que sairá deste texto ao final e assim é a paixão e a objetividade. Existe uma grande dificuldade ao analisarmos certos assuntos que nos envolvem emocionalmente e, ainda sim, sermos justos, objetivos e, por fim, reconhecer o certo e errado. Normalmente prefiro dizer que existem apenas caminhos, e que cada decisão leva a um caminho diferente. Exceto o óbvio ululante.

Isto posto, reflito como este esporte tem impactado a mim durante todos estes anos. Já passei momentos em que acompanhava afinco, ora indo ao estádio, por outra escutando na pachequíssima rádio Itatiaia. Esta, por sinal, me causa um grande mal estar. Não gosto destes tipos de emissoras que parecem mais torcer para os times locais e que preferem passar a mão na cabeça dos times e seus cartolas para conseguir perguntas sem nenhuma relevância aos fins de jogos.


Vista aérea do antigo Mineirão e seus arredores

Anos se passaram, as ridículas participações em Copas do Mundo, a pobreza do futebol jogado nos campeonatos caseiros continuou e o cinismo entrou. Nessa época, há alguns anos, já estava deixando de lado o futebol. Mal vi o meu time ser campeão duas vezes
da maior competição nacional. Compartilhava uma alegria aqui e ali, mas alguma coisa parecia errado. Passei a ver o negativo em tudo e no jogo também. Sabia destrinchar da cabeça aos pés as mazelas. O mal jogo praticado, os técnicos com estilos ultrapassados, dirigentes dos times cometendo decisões questionáveis a todo instante, chegando, claro, até a piada maior, a Confederação Brasileira de Futebol. Justo nós, tido como o país do futebol, o maior celeiro de talentos de todo este planeta.

Nesse momento, me vejo numa situação nova. Várias questões pessoais mudaram nesta última década vivida e a natureza desta vida têm me mostrado muito benéfica. Até para uma pessoa do contra. Todos conhecemos este tipo de pessoa, preferem torcer a mão do que reconhecer algo. “Jamais me renderei ao futebol moderno” esta e outras frases sobre vários assuntos. De toda forma, os tempos mudaram, e aqui estou escrevendo e voltando a acompanhar futebol. Não com a mesma paixão de antes mas animado e vivo.


Gol da vitória do boca juniors

Há duas semanas atrás eu me dei a oportunidade de ver o jogo do Cruzeiro contra o Boca Juniors. Saí mais cedo do trabalho, comprei cerveja, tinha petiscos, tinha meu pai, minha mãe, minha tia e meu tio. Tava animado, promessa de jogo bom, de emoção para os dois lados. Me deu até vontade de ir ao estádio com meu pai novamente. Reviver uma antiga experiência. Seria legal. Talvez. Os estádios antigos morreram. Nenhuma destas Arenas, que parecem mais shopings, podem trazer de volta aquela sensação. Era diferente, melhor ou pior, acredito que aquilo ali era mais real. Inclusive os tremores das instalações quando os torcedores pulavam nas arquibancadas. Era o máximo, pergunte a qualquer um.

Talvez eu só esteja sendo saudosista, sempre buscamos o passado como uma forma de nos trazer conforto de alguma forma. Assim como foi assistir o jogo junto ao meu pai. Hoje, estou feliz de estar aqui escrevendo com este grupo de amigos, acompanhando de uma forma mais saudável e menos objetiva. Acredito que somos indivíduos que tomam a maioria das decisões com mais paixão do que objetividade de fato. Ultimamente está muito claro, para mim. Talvez eu esteja errado. Sei que naquele dia do jogo a paixão prevaleceu, e me senti melhor do que se eu realmente tivesse sentado para analisar aquele jogo. Já me sinto pessimista a maior parte do tempo, pelo menos ultimamente tenho conseguido reconhecer alguns momentos onde a paixão e o otimismo tenham mais cor.