Belo Horizonte é uma cidade que é uma espécie de conjuntos de vales rodeados por montanhas. Nesses vales – se é que posso chamá-los assim – nesses vales, então, a cidade foi construída: uma das primeiras capitais brasileiras planejada, desenhada, racionalmente sonhada. BH foi pensada como avatar da Modernidade e da utopia de conter nossos desejos nos tracejados da Avenida do Contorno; cidade do futuro, para o progresso e o iluminismo.
Por entre os vales e entre as montanhas, no entanto, a cidade com o belo horizonte se especializou em produzir uma escrita do tempo marcada pela melancolia. Os morros da Bahia em direção à Praça da Liberdade ou as espeluncas do centro da cidade são, desde sempre em meu coração, melancólicos. Quando a gente sua subindo os vários morros daqui, os versos do Drummond buliçam nossos olhos.
Estou aqui em Belo Horizonte hoje. Na semana que passou, o Cruzeiro jogou contra o Ceará e, contra todos os prognósticos, perdeu por 2 a 0. Na quarta-feira, esse jogo me passou despercebido, mas ontem e hoje, pareço não parar de pensar. Torço – bem de leve – para o Cruzeiro devido ao meu pai. O Cruzeiro é, pra mim, a representação máxima da herança e da tradição incrustada nas pedras de BH. Sempre admirei mais a torcida do galo, mas, como boa herança paterna, não se larga somente com uma vontade. Todas as vezes em que me lembro que torço para o Cruzeiro, me lembro de Belo Horizonte, de meu pai ausente e, principalmente, da melancolia de minha cidade.
Torcida do Cruzeiro em 1996, quando o time ganhou a Copa do Brasil
Escrevo hoje sobre o passado porque estou nostálgico de um futuro que pode não chegar. Escrevo sentado num dia nublado de Belo Horizonte, daqueles de outubro em que faz muito calor num céu sem sol. O Ceará jogando contra o Cruzeiro me lembrou que moro na terra do sol e, longe de lá, penso sobre nosso futuro no Brasil.
Essas últimas linhas que vou teclando acontecem na véspera da eleição mais importante do Brasil dos últimos tempos. Mais: instaura um tempo em que cada eleição vai ser mais importante que a anterior. Talvez esse texto seja esquecido por um resultado desastroso na eleição de amanhã, mas nossa esperança nostálgica de um futuro afetuoso permanece.




