Boa noite, D. Como passou a semana?
Acho que ainda não me acostumei com a ideia de escrever cartas. Fico pensando sobre essa disciplina e o que levou nosso professor a querer que escrevêssemos cartas uns aos outros. Talvez daqui alguns anos outros estudantes da USP leiam nossas cartas para entender o que se passava na cabeça dos jovens de nossa época. Desde já me sinto mal, se nós não entendemos o que está a acontecer, que dirá eles. Ou talvez entendam muito melhor e olhem para nós com resignada tristeza, assim como nós olhamos as fotografias em preto e branco de 64. A você e aos leitores do futuro deixo minhas sinceras desculpas por nunca saber o que dizer em minhas cartas, recebi e escrevi poucas em minha vida.
Em sua última carta você mencionou que é um grande fã de futebol. Gostaria de dizer que também sou, assim poderíamos trocar várias cartas com longos comentários sobre jogos e campeonatos. O assunto nunca se esgotaria. Me interessa e me fascina o esporte, mas confesso que não tenho muito tempo para acompanhar e não torço para nenhum time. J. continua a insistir que tenho cara de alvinegra durante as aulas e isso me diverte. Fico imaginando se você pensa da mesma forma. Pelo forma que ela escreve, só pode ser alvinegra. Não tenho certeza se as cartas de Clarice Lispector estão em nosso programa, mas você sabia que ela era Botafogo? Jamais imaginei algo do tipo.
Hoje o expediente acabou tarde. No metrô várias pessoas acompanhavam a final da Copa do Brasil pelo celular. Meu primo enviou uma foto sorridente no Itaquerão em meio as discussões políticas do grupo da família e acho que todos nós entendemos aquilo como um pedido de trégua. Na baldeação da Sé fiquei sabendo do primeiro gol do Cruzeiro.
Esta noite torci secretamente pelo Corinthians. Talvez J. esteja certo. Apesar de não ter um time, nunca simpatizei com tricolores. Venho de uma família e de um bairro majoritariamente corinthiano. Em final de campeonato é tudo muito intenso, muita gritaria e fogos pela rua. Lembro do episódio em que o hino do Corinthians tocou a madrugada inteira pela vizinhança, impedindo o sono de todos.
Quando lembro dessas alegrias, quase me permito esquecer dos episódios de bateção de panela pelo bairro. Infelizmente tenho uma memória muito boa e o esquecimento não é um privilégio meu, nunca poderá ser. Você se lembra da história do sequestro do embaixador norte-americano em 1969? O professor comentou na minha turma, não sei se na sua também. Em 1969 o embaixador Charles Burke Elbrick foi sequestrado por militantes da Aliança Libertadora Nacional e da MR8. Ele foi solto na tarde de 7 de setembro de 1969, após a libertação de 15 presos políticos da ditadura. Havia uma partida de futebol acontecendo naquela tarde no Maracanã, o mesmo Cruzeiro vencia o Fluminense. Na dispersão da torcida, os militantes libertaram o embaixador e escaparam em meio a torcida.
Manchete do Jornal do Brasil sobre o sequestro. Exatamente dois meses após o sequestro, Marighella foi encurralado e morto.
Esta noite eu esperei por qualquer coisa assim.
Silêncio total no bairro. Sem fogos, sem gritos, sem hino do Corinthians pela madrugada. Esperei por alguma manifestação de alegria, miníma que fosse. Ela não veio. A rua não estava em festa como já esteve.
Peço desculpas por sempre escrever sobre coisas tristes, mas me parece cada dia mais difícil me alegrar por qualquer coisa. Se daqui alguns anos estas cartas forem objeto de estudo para a epistolografia, espero que elas ajudem a entender o momento político e histórico que vivemos. Acredito que a narrativa individual e a narrativa dos sofrimentos também ajudam a escrever a história.
Amanhã espero poder recomeçar.
Me escreva sobre qualquer coisa e me diga seu time de futebol. Torço para que seja algo feliz.
Um abraço,
M.
M.
