quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Sobre a honra

          Este texto é uma profissão de fé. Todo cronista faz, em algum momento, uma confissão sobre o que escreve, como escreve, como imagina quem o lê, etc. Oxalá eu escreva durante muito tempo pra poder refazer as diversas profissões que fizer, já que, sabemos, uma pessoa interessante é necessariamente contraditória e equivocada. 

          Este texto é uma tese sobre essa escrita que estamos fazendo e sobre minha presença nela. 

          O título desse blog é Futebol e Honra. Recentemente, tivemos discussões sobre o significado ou significados desse título. Um argumento foi o fato de usar honra no título, porque seria uma forma pretenciosa de nos apresentarmos. Particularmente, acredito muito nesse título porque é só nesse contexto que consigo falar sobre futebol – se é que tratamos de fato sobre o tema que dá título ao blog. Com efeito, a pretensão já está implícita no fato de nove amigos muito queridos e com laços profundos entre si resolverem escrever sobre um tema sobre o qual nada conhecem. Esticando a baladeira, poderia dizer que dois ou três de nós conhecemos alguma coisa sobre futebol. E é isso.

          A distância da minha cidade e desses laços que construí, tão fortes que me perfuram, permite uma saudade que faz pensar sobre o que fazemos. 

          Sempre me questionei porque nos emocionamos quando vemos Sam levantar Frodo e não somente pegar o anel; ou quando vemos alguém se sacrificar por outro; ou quando vemos um oficial alemão informar do ataque ao front francês na noite de Natal; ou quando vemos um grupo de amigos se reunir para matar um amigo que pediu pra morrer; ou quando vemos um homem apaixonado ficar para a guerra e dar adeus à sua amada dizendo We'll Always Have Paris. Ainda: quando lemos um prefácio emocionado de um homem reacionário como Vargas Llosa sobre um livro de Ángel Rama; ou quando identificamos a dignidade do velho na cantina paulista bradar com seu charme contra a TV; ou quando reconhecemos a nobreza dos vilões – os melhores; ou quando vemos a profunda amizade de Charles e Erik; ou quando vemos a senadora Kátia Abreu ser expulsa do PMDB por defender o mandato de Dilma Rousseff até o dia 31 de agosto de 2016. 

          Essa emoção que sentimos é uma espécie de enlevação e de reconhecimento de um sublime. Tenho pra mim que esse sublime é o que podemos chamar de honra. A honra é dissimulada e não se mostra. O que me atrai nela é esse seu caráter. 

Cena de Les invasions barbares na qual Rémy se reúne com seus amigos para morrer ao lado deles.

*

          Sou um homem nascido nos anos 1990 e que frequentou a Universidade nos anos 2000. No curso de Letras, tomei contato com uma importante reflexão sobre o que hoje chamamos de pós-modernidade. Esse conceito é ótimo. Ele apenas informa um estágio posterior à modernidade. Ao longo de todo o curso, as teorias que mais me interessaram foram aquelas que questionavam algumas certezas que tinha, principalmente de nação. Me interessei porque não consegui – na data, e ainda não consigo hoje – equacionar essa sensação de que sinto o Brasil pulsando nas lágrimas que descem ao ver a presidenta ser destituída.

          Acredito que esse sentimento é o que define minhas alegrias e minhas agruras. Mas, como certa vez me disse uma cartomante, sou um homem antigo e nada pós. 

*

          Sublime é o ambíguo; aquilo que é maravilhoso e perigoso. Um dinossauro é o sublime, assim como a vingança. 

          Nesse esforço de justificar a presença da honra no título desse blog sobre futebol – e honra -, lanço minha tese. Esse texto é, afinal, uma tese. Esse sentimento tênue e dissimulado que nos constrói como pertencentes a um sublime e nos coloca em uma encruzilhada sobre a complexidade de sentidos do mundo; o espelho turvo que nos põe em abismo de entendimento sobre nossa espécie no mundo e no ocidente; a ordenação cosmológica sobre a qual te reconheço e tu me reconheces: a isso, nesse momento, dou o nome honra.

Las meninas, de Velázquez.

          A honra é uma necessidade de uma cultura fundada na razão. É a correlativa da culpa. É só uma palavra na tela do computador, mas como dói! Em especial porque sentimos, em um momento somente que seja. Penso, agora, ao escrever esse texto, que talvez seja o maior ganho da civilização, esse laço esfumaçado que nos comove em grupo ou solitários.

          O futebol, em nossa cultura, talvez seja um ótimo sintoma da tenacidade desse laço. Ouço muitos velhos com quem esbarro em bares sujos pelas ruas, ouço comentaristas saudosistas atestarem uma época em que os jogadores não entravam em campo por protesto contra uma ditadura; as copas todas eram eventos nos quais a pobreza podia entrar e os estádios vendiam cerveja porque era preciso estar bêbado de fantasia ao ver um gol.

          Talvez estejam certos, os velhos.

          Talvez o futebol, nesse momento, reflita o processo de revisão pela qual a sociedade brasileira está passando. Talvez tenhamos de amargar uma transição com neymares. Talvez os sonhos envelheçam. Mas, de novo, como uma cartomante uma vez me disse, sou um homem antigo. Sou um homem Moderno. Os sublimes são uma caminhada ao sol sobre um deserto. Demoram e são quase intermináveis.

domingo, 26 de agosto de 2018

O futebol muda, e as pessoas também deviam mudar

Aguirre: velho ídolo

Diego Aguirre é um tipo curioso. Muito bom em ser mediano nas coisas que faz, ensina seus times a serem medianos. Quando treinou o Galo, tinha um time ótimo à disposição, mas não fez mais que conquistar a Florida Cup (os atleticanos só gostam porque foi título inédito). No Uruguai, é idolozinho do Peñarol, onde ganhou como jogador o Uruguaizão de 1986 e a Libertadores de 1987. Como treinador também ganhou dois nacionais, mas, numa liga que mais lembra o Campeonato Mineiro, isso pra mim é obrigação.


No São Paulo, vem liderando o Campeonato Assaí isolado, o que se consolidou na vitória antes do almoço sobre o Ceará pela vigésima primeira rodada. O jogo foi um amistoso no frio. A parte do jogo que eu consegui ver pela transmissão pirata num site coberto por anúncios não revelou ambição de nenhuma das equipes em ganhar o jogo. O São Paulo atacava e o Ceará se defendia, mas todos os jogadores pareciam correr usando uma calça jeans molhada. Gostei do Éverson, goleiro do Ceará e cria do São Paulo. Ele se inspira tanto no Rogério Ceni que usa a camisa 01 e cobra faltas quase sempre com perigo.


Em campo, um tabu prevaleceu: o Ceará nunca ganhou do São Paulo no Morumbi pelo Campeonato Brasileiro. E o goleiro Éverson tava interessado em manter as coisas como no passado, porque ele tinha o entusiasmo de uma pessoa esperando o ônibus no ponto, mesmo quando fez boas defesas, que não livraram o Vozão do seu destino implacável. Será que era receio de deixar uma má impressão e daqui a uns anos não fazer valer o ditado de que o bom filho à casa torna? A resposta não interessa. O São Paulo venceu com gol do Bruno Peres depois de uma assistência do Diego Souza, o paladino da má vontade.


O São Paulo segue sua surpreendente campanha, liderando com autoridade um campeonato cujos times favoritos preteriram em favor da Libertadores ou mesmo da Copa do Brasil. Mais um título pra eles? Já o Ceará volta pra Fortaleza pensando em priorizar a Série B de 2019, único título expressivo à vista.

Kashia: novo ídolo

Agora olha que legal. Em partida pelos Jogos Asiáticos, a chinesa Wang Shanshan marcou nove gols contra o Tajiquistão, depois de entrar como substituta aos 11 minutos do segundo tempo. Os jovens brasileiros, de tanto assistirem a jogo internacional, começaram a usar o termo inglês hat-trick – que na língua portuguesa não quer dizer nada – pra descrever o feito de se marcar três gols num mesmo jogo, mas o que essa mulher fez foi um hat-trick de hat-tricks, e isso tem de ser um recorde!

Na Europa, o jogador georgiano Guram Kashia recebeu um prêmio inédito da UEFA por usar a braçadeira de capitão com as cores da bandeira LGBT em partida pelo Holandesão da temporada passada. Naturalmente ele foi criticado e vaiado pela própria torcida, mas insistiu nesse gesto singelo, que demonstra coragem e vontade de viver num mundo igual, coisa que a gente também quer aqui em casa. Eis agora uma prova de que o futebol molda caráter e também acompanha os fenômenos sociais de seu lugar e época:

O jogador Andreas Pereira, filho de brasileiros nascido e criado na Bélgica, foi convocado por Tite para os próximos amistosos da Seleção. Ele é apenas o quarto atleta na curta lista de estrangeiros que vestiram a camisa amarela e interrompe um período de 100 anos sem que isso acontecesse. Em tempos de refugiados venezuelanos sendo perseguidos na fronteira, isso devia provocar reflexões sobre nossa hospitalidade seletiva. Dizer que o escrete nacional não precisa de talentos ultramarinos é negar todas as demonstrações que a gente viu na Copa de que rancor colonial não tem mais espaço no esporte. Deixa o cara jogar! Deixa a galera entrar!

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Às vezes a ciência deveria ser mais arte que ciência

Me chama de João e finja que eu tenho a palavra...


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Se tivesse o VAR, teria Deus feito o gol com a mão de Maradona?


No princípio era o Verbo; e nada mais. Nem ao menos Deus. Era o Verbo solto na vastidão, solitário, pois não havia nada para conjugá-lo. Procurava alguma coisa, alguma particularidade, que fosse até alguma contraparte!, mas não encontrava. Até conhecer um primo pobre distante, muito depressivo e sem graça, uma tal de Realidade. Aí o Verbo deve ter pensado "bom, pelo menos não estou mais sozinho" e lá foi se relacionar com a apática Realidade. Foi dessa relação incestuosa que nasceu o futebol. Cientificamente falando, portanto, por ser o futebol fruto da conjugação da Realidade pelo Verbo, ele seria justamente o que tomamos por "Fato". O futebol - inegável como a culpa - é o fato em constante concretização. É o feto em formação. É o meio da festa.

Assim se tem o mito fundador do futebol, e assim se tem o seu maior ensinamento: "ninguém sabe nada sobre ele". A falta de juízo em relação ao esporte não se dá pela escassez de tentativas, isso eu posso garantir, e sim porque ele é esse Fato, e tão somente esse Fato, em sua total plenitude. Com todas as contradições e paradoxos dignos de um evento, de um bom Fato. Pois, em verdade vos digo, caros leitores, esse Fato é traiçoeiro. Pode até ter sido gerado pela Realidade, mas é educado pelo Verbo. Esse Fato é sagaz. Quando pensamos que o temos é precisamente quando estamos mais distantes de seu significado, já que é impossível apreendê-lo. Impossível na medida em que o Verbo já estava no futebol, e o Verbo fez o futebol, e o futebol não o conheceu. Daí a nostalgia mal direcionada, daí a memória fragmentada, daí os traumas, daí toda a sua inapreensão. O futebol é o erro internalizado. E esse simples fato faz dar vazão a todo tipo de mal entendido relacionado ao desporto. Afinal, quem é o infeliz que tem a capacidade de realmente perceber o presente? O Juiz? A FIFA? Parece que não.


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André Luiz nos mostra que a razão crua não dá conta da realidade


Foi pensando nisso que os mais preparados cientistas da Nasa FIFA empregaram a última "palavra" em inovação tecnológica, o replay o VAR. Pelo jeito, o reconhecimento da fundamental importância do erro na formação do futebol é o primeiro passo para se alcançar a perfeição. Ao menos foi o que pareceu ignorar Pierluigi Collina, Presidente da Comissão de Arbitragem da FIFA, que, no dia 29 de junho, afirmou, após averiguar complicados cálculos matemáticos, chegar a 99,3% a taxa de acerto crítico dos juízes durante a fase de grupos da Copa do Mundo na Rússia com o auxílio do VAR, em contraponto com a irrisória taxa de 95% de acerto sem a mesma ferramenta. Pierluigi nos diz que a beleza da ciência está em poder explicar toda a realidade com essa exata precisão. O que ele não nos diz é como ele chegou a esses números.

Com tamanha exatidão, não é de se espantar que a dita ferramenta, logo após a Copa do Mundo, já tenha sido aplicada em outra Copa, só que dessa vez a do Brasil, agora em 2018. De doze a quatorze câmeras estrategicamente posicionadas em cada jogo, a utilização do VAR tentará diminuir as ocorrências de erros capitais na competição de mata-mata menos valorizada pelos brasileiros. Seu foco continuará idêntico ao utilizado na Rússia: ou seja, em casos de gols, pênaltis, cartão vermelho direto e má identificação de jogadores nas ocasiões de punição haverá a reavaliação dos profissionais para a identificação de possíveis equívocos. Continua, contudo, sem a possibilidade de ambas as equipes questionarem o poder supremo do juiz em sua decisão. Continua, ainda, a má interpretação de um acima das de cinco outros profissionais em cada um dos lances. Continua, em casos bizarros de erros, mesmo com a utilização do mecanismo, a prevalência da má fé que tanto prejudica a conclusão do Fato.

O futebol é, sobretudo, um esporte de interpretação, um fato sobre o qual o Verbo exerce a sua maior apelação. É uma festa democrática. Porém, em seu sentido lato, está muito mais para Carnaval que para Natal. E, infelizmente, a adoção do árbitro de vídeo continua apontando para a abordagem messiânica, ao invés de assumir para si a conjugação caótica que emana do povo. Ignorando que o grito único que arranha a garganta será lembrado pelos gemidos, enquanto que o coro, pelas vozes de muitos, será entoado pela história. Isso quer dizer que não vale apelar pela "suposta" retomada do Fato por um simples replay para um único juízo, e sim pela transparência do juízo difundida ao abundante número dos foliões, já que é somente no maravilhamento do Verbo que se apercebe verdadeiramente o real.

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Jesus Cristo, o primeiro dos juízes

Porém o Verbo já existia no futebol, e o Verbo fez o futebol, e o futebol ainda não o conhece. A justeza das coisas continua a ser ditada pela voz máxima do esporte, sem ampla discussão. E o Fato continua a ser julgado fora de sua grandiosidade. E o papel do engano no futebol continua a não ser considerado em sua totalidade. Não se trata de defender gol mal anulado. Não se trata de apoiar decisões que claramente favorecem determinadas equipes em detrimentos de outras. Não se trata, ainda, de negar ao futebol qualquer tipo de atualização na tentativa vã de preservar um estado "puro" do esporte que nunca existiu. Se trata, em contrapartida, de reconhecer na própria pluralidade a essência do Verbo. E, a partir dele, aprender a conviver com a apatia da realidade que nos afeta. Talvez, em última instância, se trate de ressignificar a realidade.

Calha muito bem aos da FIFA e CBF o domínio do verbo, posto que essa é a maior ferramenta de opressão. Ao se impor uma pauta específica, excluísse toda uma gama de especificidades que, porventura, poderiam ser utilizadas para a melhoria da grande discussão. E é sempre impondo uma pauta específica que nos vem o messias da razão. O próprio Verbo é ignorado nesse momento, é podado e ajustado.  A visão se limita. A razão não da conta e o Verbo se cala... Se achas que é exagero, basta ver a coitada da ciência. Totalmente submetida à realidade,  ela não se torna Fato, perde o brilho, perde a voz.


Mito Gum reconhece o serviço prestado pelo árbitro de vidro de vídeo


Há, porém, ainda muitas outras coisas que o Verbo pode fazer; e se cada uma das quais fosse escrita, cuido que nem ainda o mundo todo poderia conter os livros que se escrevessem. Amém.


***

P.S.: Agradecimentos ao Hugo Nick por chamar a minha atenção para o melhor vídeo do ano.


segunda-feira, 20 de agosto de 2018

O dia é hoje




Nada mais inofensivo que um escritor refém do passado. Podia até ser mais romântico aquele sertanejo sufrido com saudades da terra, juntando as fichas pra telefonar quantos minutinhos desse à parentada toda e à Rosinha que tinha deixado pra trás e agora só podia ver com os ouvidos, mas muito mais bonito é fazer uma chamada de vídeo pelo zap e por demoradas horas ver com os olhos – e muito mais gostoso é ver com as mãos com os beiços com a língua, mas essa tecnologia ainda não inventaram. Gosto e muito de revirar fotografias desbotadas do meu pai, mas ainda prefiro ver sua carantonha imensa deformada pela baixa resolução do Skype, quase engolindo a câmera de tão perto. Está enfiado lá em Manaus, mas posso ligar a hora que quiser e me lembrar como são mixurucas os meus dilemas, conclusão inevitável a que chego sempre que vejo o velho rindo da minha cara. O dia é hoje, não tem porque fazer da literatura um bazar de metáforas de segunda-mão e lirismo de quinta cheirando a naftalina, e só não cito Belchior pra não cair em contradição – mas talvez bote um disco pra tocar mais tarde porque refém não sou, mas tampouco sou burro a ponto de ser inimigo do passado.

Vô Sinval, meu pai e eu moramos os três na vizinhança do Independência em algum momento da vida. Vô Sinval antes mesmo do estádio existir, na época em que futebol só se via ao vivo ou pelo rádio; meu pai quando ali era o Campo do Sete, onde jogava bola mais a molecada do bairro com a permissão do seu Walter, o zelador que, na sua ingenuidade de menino, ele acreditava ser dono daquilo tudo, história que se comprova em qualquer botequim do bairro com os tiozinhos da época, quando ainda tinha a piscina e os estádios começavam a caber dentro dos aparelhos televisores; e eu hoje, já finado o time do Sete de Setembro que dava nome ao estádio, que agora tem muros mais altos mas cabe no bolso de qualquer cidadão em posse de um celular e com acesso à internet. Os filhos que não tenho talvez assistam aos jogos em primeira pessoa, da perspectiva de qualquer um dos jogadores em campo ou de três drones sobrevoando o gramado, com um óculos de realidade virtual afivelado na fuça.

O dia é hoje, mas vô Sinval é uma pessoa antiga e ainda conserva o hábito do rádio, muito embora com a TV ligada e o Galvão Bueno emudecido a golpes de controle remoto. Na minha mocoronguice de menino, não tinha capacidade pra diferenciar nem a peita do Galo da peita do Botafogo – assunto que não desperdiçarei agora porque ainda pode me render um texto inteiro neste blog –, quanto mais pra diferenciar as palavras do rádio das palavras da TV, e por isso mesmo achava aquilo muito esquisito e redundante, porém meu avô me explicou que o rádio sabia dos gols antes.

Hoje em dia o que mais faço é diferenciar palavras e se não digo que sou craque nisso é porque sei que é um trocadilho barato num texto como esse. Fiz disso a minha ocupação e é assim que ocupo grande parte das minhas horas ociosas: acabo de assistir a uma entrevista do Jonathan Safran Foer no YouTube e esse safado me inventa que só escreveu seu grande romance porque não estava tentando parecer esperto e nem impressionar ninguém e que os castores, se não roem as árvores, os dentes continuam crescendo e vão se enfiando gengiva adentro até que eles morrem e que ele também escrevia porque precisava. É um clichê e suspeito também que seja papinho puro, uma caozada do caralho. Desconfio inclusive que seja impossível escrever sem querer se amostrar, tanto quanto contar uma piada e não querer que os outros riam. O locutor do rádio entende isso porque seu trabalho é cuspir nos olhos dos cegos e fazer com que eles vejam árvores que andam e outras coisas impossíveis, como um dibre do Ronaldinho Gaúcho que deixa dois zagueiros trocando as pernas, outro caído no chão e um goleiro a ver navios. Por sorte Prometeu ainda não tinha roubado a televisão dos deuses das mídias quando aconteceram as grandes guerras mundiais, assim o fuzileiro americano de Norman Rockwell podia voltar pra sua cidadezinha no interior do Ohio e enfeitar as histórias com laços de honra e salpicar uns confetes de glória. Se tivessem sido televisionadas, as imagens seriam obscenas demais.



O dia é hoje e os milagres são outros. Assisto ao duelo do Galo contra o Fogão numa transmissão pirata pelo computador, mas o sinal é ruim e as imagens saem mastigadas. Se eu fosse criança, talvez não tivesse entendido na minha ingenuidade porque o goleiro do Botafogo tinha tomado aquele primeiro gol do Luan, já que a bola tinha ficado parada na banheira por intermináveis dez segundos antes de rolar até o fundo da rede. Interrompo o jogo pra atender uma ligação do meu pai. Reclamo que a transmissão está uma bosta e trava toda hora: ele ri: lembro que meus problemas são todos bestas. Me distraio com a conversa e quando me dou conta o jogo já acabou: três a zero pro Galo. A mídia me dá a opção de voltar o vídeo e reassistir ao resto da partida, mas esporte, que nem jazz, só faz sentido ao vivo e a prova disso é que a Globo não reprisa a final da Copa do Brasil no dia seguinte, que nem faz com o último episódio da novela. Ao contrário da maioria das pessoas, eu não sofro de alergia a spoilers, acho que saber que a Rosemary vai afinal ceder ao instinto – ou à obrigação, talvez – da maternidade e concordar em criar o filho do capeta não estraga o filme, mas que graça teria assistir o jogo sabendo que nenhuma das investidas do Botafogo iria vingar, por mais que o chute fosse certeiro e que a bola fizesse curva?

Ainda converso com meu pai, que não é locutor de rádio, mas tem muito assunto e é bom contador de história. Ele me lembra da vez que me levou pra conhecer o estádio, gostava de me fazer esse tipo de agrado: uma vez me levou ao aeroporto pra ver os aviões, noutra me levou pra passear de metrô. Diz ele que, assim que o jogo começou, eu liguei um radinho de pilha. Ele me perguntou por que tinha levado o radinho pro campo se já ia ver tudo.

Quero saber dos gols antes.

Nada mais inofensivo que um escritor refém do passado.

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Supertição

Todos os amantes das letras já devem ter percebido o erro na grafia no título. Vários conflitos serão explanados no decorrer do texto. Texto em que se faz necessária uma introdução como esta que vos apresento. No dia 16 de agosto, vulgo ontem, eu estava dirigindo meu carro para uma mecânica localizada em Santa Luzia. Visto que desconheço as veredas da cidade satélite, digitei e defini o endereço no aplicativo Waze e pé na tábua. Pelo caminho, o som do meu carro fazia um barulho comum de interferência de rádio, supunha eu. Acontecimento normal com o qual convivo diariamente em minhas viagens. Só que dessa vez algo de natureza bizarra aconteceu, o barulho ficou altíssimo subitamente e meu celular começou a receber SMSs. A interferência costuma ocorrer na estrada, no meio do mato, foi a primeira vez que aconteceu em meio à região metropolitana e de forma tão alta. Tentei ignorar e eis que, de súbito, acaba o barulho. Desço do carro, converso com o mecânico e confiro meu celular. Eu havia recebido um total de 39 SMSs com textos que me abalaram e que me abalam até hoje. No entanto, visto que não passaram 25 horas desde o acontecimento, pode ser necessária a análise do quanto fui abalado de verdade daqui a alguns meses. De qualquer forma, transcrevo aqui uma adaptação dos 39 SMS.

Após a apresentação longa do canal é apresentado o som de interferência.

1 - O sujeito Vitor Martins Brauer, código XX38*HJDXX97@JK57200***BR encontra-se deitado assistindo um stream ilegal do jogo Grêmio e Flamengo pela Copa do Brasil.

2 - O sujeito comenta com sua namorada que é "muito azar" ele ter de assistir outro jogo do Grêmio. Ele é corintiano e seu time joga no momento com a Chapecoense.

3 - Nota. O sujeito e seus amigos assistem jogos de futebol para escrever um blog. Nenhum deles entende sequer todas as regras do esporte. O blog é cômico.

4 - O sujeito e sua namorada entram numa conversa sobre superstição e misticismo, que as grafias são "bizarras" e comentam também que eles não acreditam nessas coisas

5 - Nota. A maioria dos humanos, principalmente brasileiros, são muito supersticiosos e fazem bem o sendo. Muito por isso são uma raça tão feliz.

6 - Nota. Os humanos acreditam em superstições não por provas científicas, ainda não as encontraram, mas geralmente por uma virada de sorte em seu próprio destino.

7 - Nota. O próprio sujeito que diz não acreditar em tais coisas lê mapas astrais (de forma bem distinta) e acredita em sinais apresentados pelo reino da linguagem.

8 - Nota. Para seres que desconhecem a teoria de tudo, os humanos são bem curiosos em seus titubeios sobre o desconhecido. Esse estudo se transforma no estudado.

9 - O sujeito escreve comentários sobre os dois técnicos dos times. "Maurício Barbieri deu entrevista em pé, Renato Gaúcho, sentado." Seus pensamentos se cutucam.

10 - Nota. Seria fácil para nós fazer um cálculo simples sobre a marcha das dores e sabores dos humanos que acompanham o jogo e concluir qual time iria ganhar.

11 - Nota. Observem que o sujeito encara os acontecimentos absolutos como meras pistas. Ignora que todo jogo que ele assiste do Grêmio, o Grêmio ganha, por exemplo.

12 - Nota. Ignora também que todo jogo do Corinthians pela Copa do Brasil que ele viu, o Corinthians perdeu. Inclusive uma vez para o Grêmio, na final de 2001.

13 - Nota. Os brasileiros tem a chamada "lei do ex". Uma errata em relação à ciência maior, mas que acerta em 90% das vezes que um ex jogador do time fará gol nele.

14 - Alerta. Após gol do time Flamengo, o sujeito vê o Grêmio organizando uma reação e desliga o monitor. Em sua cabeça ele imagina que o Grêmio irá ganhar.

15 - Nota. O Grêmio iria ganhar se o sujeito tivesse assistido o jogo inteiro. De acordo com os cálculos, ele seria o contrapeso necessário para um empate ao menos.

16 - O sujeito conversa com sua namorada assuntos banais, mas comenta que vai assistir a reprise do jogo Cruzeiro e Santos ao invés de ver mais um jogo do Grêmio.

17 - O sujeito dorme de forma 45% positiva. Nota. O que é mais do que a maioria dos humanos, não é maior por conta de preocupações. Humanos são burros.

18 - No outro dia pela manhã o sujeito acorda e dá uma "carona" para sua namorada ir trabalhar. Se preocupa com o que irá comer e com o seu carro.

19 - Nota. Humanos não tratam máquinas como seres. Eles acreditam que são apenas objetos sem carga emocional e "espiritual" (como eles chamam o desconhecido).

20 - Nota. Apesar disso, o sujeito deu nome ao seu carro (Interceptor) e mantém um boneco do filme "Meu Malvado Favorito" no interior de seu carro como um talismã.

21 - Após a carona, o sujeito volta à casa de sua namorada, dá comida para duas cadelas (nomes Chiquinha e Nina) mas as duas não comem. O sujeito ergue os ombros.

22 - O sujeito não se comunica com animais da forma correta. Fica fazendo uma voz aguda que faz com que os animais achem que ele está oferecendo carne a eles.

23 - O sujeito senta-se em frente ao seu computador para assistir o jogo Cruzeiro e Santos. Nota. O jogo ocorreu a menos de 390 metros da casa no dia anterior.

24 - Nota. Se o sujeito tivesse assistido o jogo ao vivo, o resultado não seria diferente. Se ele tivesse ido ao estádio também não. O sujeito não possui vínculos.

25 - Alerta. Algo extraordinário. Mensagens deverão ser movidas para a chaveta lxgxbrx txmpxlx. Aguarde para mais informações e análise.

26 - Alerta. Analisando.

27 - Alerta. Analisando.

28 - Alerta. Analisando.

29 - Análise. Após 2 ciclos de análise compreendi o que ocorria no tempo humano. Explicarei nas próximas mensagem, mas percebe-se uma ruptura.

30 - Análise. O jogo Cruzeiro e Santos do dia 15 de agosto acabou originalmente com a vitória do Santos, no último minuto com gol dramático de um contra-ataque.

31 - Análise. A ruptura ocorreu por vários fatores. O primeiro sendo a abnormalidade do jogo estar sendo assistido em reprise por uma transmissão antiga ao vivo.

32 - Análise. A segunda: a transmissão foi feita por um celular filmando outro celular que executava um stream ilegal para a rede Youtube, sendo esse stream ilegal.

33 - Análise. Os computadores entraram em loucura e os valores quânticos foram "pro espaço". Perdoem-me pela quantidade de expressões humanas, mas... caramba!

34 - Análise. No momento que o sujeito assistia o jogo os cálculos saíram de positivos para negativos para inexistentes. O tempo espaço reagiu e constrangeu-se.

35 - Análise. Sem saber, o sujeito e seus comparsas mudaram a história do país e do mundo. É necessário recalcular as matrizes e números quânticos para sabermos.

36 - Análise. Da última vez que isso aconteceu, Tom Brady reassistiu a si mesmo ganhando o Super Bowl através de uma gravação de celular e Trump acabou sendo elegido

37 - Análise. É por isso e por outras que esportes humanos só fazem sentido se assistidos ao vivo.

38 - Análise. É preciso analisar tais possibilidades agora, antes que seja tarde demais para se mudar o passado, visto que as leis só permitem 25 ciclos de mudança.

39 - Cruzeiro venceu o jogo nos penaltis. O contra ataque foi impedido pelo árbitro Rodolpho Toski Marques por uma súbita aflição paterna que o aflingiu.

Me pergunto se foi Giselle que mostrou a gravação para Tom.

Tais mensagens me deram uma sensação de estranhamento tremenda. A quantidade de caracteres possíveis por SMS é de 160. Essa limitação me deixou mais cético ainda inicialmente. Que tipo de ser se comunicaria com essa limitação. Mas após algumas horas de reflexão profunda e infernos mentais, eu resolvi aceitar como verdade absoluta tais mensagens. A mera existência de tais mensagens, sem um número de origem, e a coincidência tremenda de números e pensamentos pessoais me fazem concluir que algo ou alguém me vigia e que, de fato, existem "mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia". A boa notícia é que tais seres, humanos ou não, parecem ser curiosos e de origem bondosa. Após embarcar num oceano de paradoxos e pensamentos abissais eu resolvi poupar-lhes de tal e simplesmente deixar aqui a minha conclusão final sobre todos esses acontecimentos:

Foda-se. Não dá pra viver preocupando com essas coisa não. Se o mundo e o tempo mudarem a gente não vai perceber mesmo. Vida que segue. Fogo na Babilônia.

Foi um jogasso.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Palmeiras 1 X 0 Vasco - 12/08

Nunca gostei muito do Vasco. No dia 30 de dezembro de 2000, o Vasco jogava a final da Copa João Havelange (nome dado ao campeonato brasileiro naquele ano) contra o São Caetano em São Januário quando o alambrado do estádio cedeu. Minha memória é do ex-presidente e cartola vascaíno, Eurico Miranda, descendo ao gramado para exigir da arbitragem que o jogo continuasse normalmente, a despeito dos feridos pela tragédia. Desde então, a imagem do Vasco ficou marcada, para mim, como a do time da cartolagem de pior tipo que existe.


Eurico Miranda, escandaloso.


Já o Palmeiras, ah, Palmeiras... Como cruzeirense, não consigo não nutrir alguma simpatia pelo outro Palestra Itália. Olho aquele uniforme verde e sofrido e imagino logo uma cantina num canto de São Paulo, regida por um sujeito de rosto sanguíneo, que esbraveja, para uma televisão 42 polegadas recém-comprada, insultos e clamores dos piores tipos, desejoso de recuperar a glória que talvez um dia o time quase alcançou. Vejo, nessa cena, o pior tipo de conservador de que se tem notícia. Mas há um charme nisso. Porque o pior tipo de conservador de que se tem notícia está apaixonado pelo que sua tevê mostra. E sofre tanto. Sua ancestralidade, suas artérias pulsantes, sua saúde cardíaca, seu prazer pequeno-burguês: tudo está em jogo enquanto ele sofre. E, se você olhar com o carinho necessário, fica fácil enxergar a beleza dessa decadência humana, demasiadamente humana.

Então os dois times se encontraram neste domingo de dia dos pais (e meu personagem é obviamente um pai – os conservadores, mesmo os estéreis e sem filhos, são sempre pais). O Palmeiras ganhou de 1 a 0. 

O primeiro tempo foi quase todo do time alviverde. Muitos ataques, domínio de jogo, blá, blá, blá. O Vasco, por sua vez, tinha um jogador chamado Pikachu que, além de estragar qualquer intenção literária da minha narração com esse apelido, deu algum trabalho pro rival. Mas foi só isso. Jogo civilizado, não muito aberto, tiro de meta pra cá, tiro de meta pra lá. Nada define melhor um jogo ruim do que a frase “apenas tiro de meta para equipe do...”. O tiro de meta é a frustração maior. É a vitória da castração. É o segundo nome do tédio.

No segundo tempo, um pouco menos de tédio. Nem tanto tiro de meta. Algumas faltas. Para efeitos de comparação, no primeiro tempo, Gustavo Scarpa, do Palmeiras, se machucou sozinho em campo. No segundo, teve um pênalti – que foi, contudo, anulado, exaltando os ânimos um pouco mais. Mas foi pouco, para falar a verdade. Cheguei a sonhar acordado, enquanto via algumas faltas, com um jogo mais violento. Pensei “como é que esses caras não se matam com mais frequência?”. É que o jogo, meus pacientes leitores, é a vitória da civilização sobre a barbárie. O jogo é filho da nossa capacidade de abstração. É irmão, portanto, dos nossos desejos civilizatórios. Por isso, o jogo encanta a tantos – é um acordo que é aceito por todos os pretensos civilizadores contemporâneos, desde o mais apaixonado comunista até o meu personagem ali na cantinazinha italiana de São Paulo. É por isso que o Brasil é tão afeiçoado ao jogo. Não somos lúdicos por alegria. Somos lúdicos e amantes de coisas como futebol porque vivemos nesse lugar abstrato demais. Jogar, ou ver um jogo, é um vício necessário. Sem isso, o ar fica muito rarefeito.

O futebol brasileiro atual, no entanto, não deixa o ar ficar rarefeito. Na verdade, temos oxigênio de sobra. Ninguém perde muito o fôlego. São pontos corridos. Hoje, se um alambrado cair, não veremos o desespero de um Eurico Miranda descendo de seu trono para ralhar com o juiz. Fica pra quarta que vem. Atrasa-se um pouco, ajeita-se a matemática. O futebol, hoje matemático assim, é um irmão muito orgulhoso dos nossos projetos civilizatórios mais conservadores. Aprendeu até a ser burocrático.

A verdade é que meu personagem descendente de italiano, apaixonado e à beira de um enfarto, é uma figura um pouco fora do tempo e fora do tom. Neste domingo, dia 12, ele foi vitorioso. Continuou ranzinza, mas foi vitorioso. Do outro lado da sua tela de 42 polegadas, outro descendente de italiano (só que gaúcho), também ranzinza, retornava ao time de onde, na minha opinião, nunca deveria ter saído. Luiz Felipe Scolari fez seu retorno ao Palmeiras, escalou um time reserva, manteve sua carranca por incríveis 90 e poucos minutos e ganhou de 1 a 0. Assim, civilizadamente, também foi um ranzinza vitorioso.

90 minutos de jogo.

A propósito do Vasco, o que posso dizer? Seu atual presidente não é o Eurico Miranda. No sábado, sem escândalos, Alexandre Campello estava em um outro campo, para uma pelada, quando teve o susto de que escapou meu personagem palmeirense: passou mal e se submeteu a um cateterismo. Agora está bem.

Vitória da civilização.

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

O Kashima Antlers de ジーコ

Preciso escrever sobre futebol. Penso nos momentos em que o esporte esteve presente na minha vida e me pergunto se gostaria de escrever sobre eles. São poucos episódios, mas todos me emocionam. Talvez futuramente eu escreva sobre minha primeira vez no estádio do Pacaembu para assistir Santos x Corinthians. Talvez eu escreva sobre meu choro inexplicável ao assistir Corinthians x Chelsea na final do Mundial de Clubes.

Mas hoje, minha estreia, eu gostaria de escrever sobre minha mãe. 

Minha mãe não torce para nenhum time, mas acompanha as notícias sobre o Palmeiras para conversar com meu pai. Assiste os jogos apenas em Copas do Mundo e detesta quando saem brigas sobre futebol no boteco da rua. Apesar de não ligar muito para futebol, considero minha mãe a pessoa que me apresentou o esporte e sua importância. 

Ela me conta a história de como conheceu meu pai. Tinha acabado de se formar em Biblioteconomia e abandonava uma promissora carreira acadêmica para tentar a sorte como dekassegui no Japão. Sobre meu pai sei apenas que terminou seu primeiro casamento. Assim como muitos nipobrasileiros na década de 90, meus pais fizeram parte da entrada massiva de dekasseguis no Japão para trabalhar em fábricas e outros serviços que exigiam mão de obra pesada. Não é uma história muito bonita ou romântica, mas aconteceu assim para mim e para eles. 

Sobre as histórias, gosto de pensar que minha mãe preparava o terreno ao falar de um mundo que eu ainda não conhecia, como se dissesse: “Mariana, é neste mundo que eu te coloquei, é aqui que você existe”. Eu cheguei aqui sabendo pouco ou quase nada do mundo. Através das histórias minha mãe me situava no tempo-espaço da minha existência. 

Alguns antecedentes são importantíssimos para o entendimento do meu lugar no mundo. Desde muito pequena já sabia da morte do meu avô materno, história principal a partir da qual todas as outras se desenvolvem. Meus pais se conhecendo na fábrica japonesa. Zico jogando no Kashima Antlers, por mais estranho e desconexo que isso soe. 

Preciso explicar algumas coisas para que a minha relação com Zico faça sentido. Falando sobre futebol, é importante mencionar a criação da J-League (liga oficial de futebol japonesa) em 1993, como forma de popularizar o esporte entre os japoneses. Zico jogava pelo Flamengo e estava aposentado, mas aceita a proposta e vai para o Japão em 1991, jogando pelo Sumitomo Metals, nome do Kashima Antlers antes da criação da J-League. Ao mesmo tempo em que Zico aceitava o desafio de profissionalizar o iniciante futebol japonês, meus pais aceitavam o desafio de voltar à terra de seus antepassados para tentar a sorte. 

Zico em 1993 pelo Antlers ao lado de Alcindo.

As histórias de minha mãe sobre os anos que trabalhou no Japão são sempre sobre esforço, sacrifícios, saudades e diferenças culturais. É curioso pensar que ela estava vivendo em um país onde conseguia se reconhecer fisicamente no outro, mas para todo o resto se enxergava como uma completa estrangeira. Me conta do preconceito que sofria por ser descendente: escutava dos japoneses que era “neta de traidores da pátria” que haviam abandonado o Japão após a guerra. Colocava Medo de avião para tocar várias vezes seguidas e em todas chorava, sentia falta dos abraços e da língua portuguesa que ficava ainda mais bonita na voz de Belchior. 

Minha vida é atravessada pela questão da identidade, assim como é a vida de minha mãe e assim como foi a vida dos meus antepassados. Meu fenótipo conta a história da imigração japonesa no Brasil como se meu rosto fosse um livro aberto. A primeira noção do que significava essa sensação de não-pertencimento e de questionar minha identidade veio através dessa angústia materna. No Brasil minha mãe era vista como japonesa e nunca poderia ser totalmente aceita. No Japão minha mãe era vista como brasileira e nunca poderia ser totalmente aceita. A identidade e a ideia de nacionalidade sempre criaram pontos de tensão e dificultam nossa noção enquanto indivíduos. Para reafirmar seu lado japonês, minha mãe mantinha viva a tradição e a cultura japonesa no Brasil. Para reafirmar seu lado brasileiro, minha mãe se apegava a tudo que pudesse lembrar o país que nasceu enquanto trabalhava no Japão. 

O “não pertencer” é doloroso, mas também pode ser muito bonito. Minha mãe sempre sorri quando fala das reuniões familiares onde as mulheres se juntavam para cozinhar pratos típicos japoneses. Nos poucos momentos em que vejo seu rosto se iluminar ao falar dos anos no Japão, ela menciona a admiração japonesa por Zico. Nas palavras dela, Zico jogava um bolão e deixava os japoneses boquiabertos. Quando falava que era brasileira, os japoneses sempre mencionavam Zico e Ayrton Senna. O futebol, visto como elemento inseparável do conceito da identidade brasileira começava a fazer sucesso no Japão. Os dois mundos se juntavam em harmonia quando Zico jogava pelo Kashima Antlers, assim como acontecia quando minha bisavó preparava o tradicional missoshiro.

Um chawan de missoshiro no Brasil e os gols de Zico no Japão foram a lembrança de que os dois mundos existiam dentro de minha mãe, talvez não da forma amigável como vendem as propagandas da aliança Brasil-Japão. Para mim é impossível não se emocionar ao assistir o famoso “gol escorpião”, mesmo não entendendo nada de futebol, mas entendendo que de certa forma isso diz sobre quem eu sou hoje. 

O gol escorpião de Zico. 

Zico deixou de jogar pela J-League em jogo de despedida contra o Flamengo, perdendo de 2 x 1 em 1994, ano em que meus pais se conhecem na fábrica. Em 96 eles voltavam ao Brasil, onde nasci. 

Meus pais no Japão em 95.

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Brasil x EUA, dia 02 de agosto de 2018

Tenho um texto para escrever. A sensação é dum trabalho fácil – pego o meu lápis e faço o primeiro risco no papel ou digito a primeira palavra. A sensação é que, assim como chutar uma bola, é preciso apenas um movimento inicial do corpo – um balançar de pernas, um giro nas mãos, um impulso, uma pulsão. Penso na narração – a primeira pessoa deve estar omitida porque uma mulher não pode falar da sua condição de mulher porque uma mulher não pode falar duma outra mulher porque se uma mulher fizer isso ela não estará fazendo outra coisa que não falar de si própria e já não há quem aguente um narrador de primeira pessoa que fale só sobre si e questione a sua identidade. Então, escolho o narrador. Não, ele não pode ser homem porque nenhuma mulher mais aguenta uma mulher falando como se fosse um homem só porque só um homem está autorizado a falar sobre futebol. Assim, o narrador é um ser. Não, ele não é um ser porque nenhum ser suporta mais outro ser na masturbação eterna de se descobrir como ser. 

Abandono a ideia da narração por alguns instantes, afinal, tanta consciência acabou com a chance de qualquer fabulação. E não há fabulação que tolere tanta interrupção. Acho que foi uma escritora que uma vez alertou para o fato de que o começo de um livro é precioso e foi a voz de um homem que uma vez eu ouvi cantar “que uma mulher não deve vacilar.” Prudente, portanto, quem abandona a narração antes de macular o suntuoso ofício de narrar. 

Esqueço da mão esquerda no lápis e deixo ligada a televisão. Estou cansada, estou sempre muito cansada, e o futebol da tv é sempre um bom pretexto para dormir. Isso, pois a mão no controle é muito mais hábil que a mão no lápis e a sensação de escolher um canal é dum trabalho impossível.
Na quinta-feira, no entanto, não há muito futebol para se ver. 

Completo uma volta nas opções oferecidas por essa tv por assinatura que eu já sei que preciso parar de pagar porque ninguém atura mais pagar para ver sempre a mesma programação. Finjo que não vi, mas, na verdade, vi – que acabou de começar uma partida de futebol num canal que nunca dei conta da existência. É a final de um torneio, mas é futebol feminino. Uma mulher não deve vacilar. Tenho que escrever um texto. Tenho que falar de futebol. Ainda não sei como narrar. Mas quem ler a assinatura ao final da narração vai saber que é uma mão de mulher falando sobre o movimento do corpo de outras mulheres e ninguém engole mais esse discursinho viciado de mulher que só fala de outra mulher porque quer empoderar essa mulher mas, na verdade, é só mais uma mulher e uma mulher é só uma mulher e uma mulher não deve vacilar. 

A rapidez do ataque, contudo, interrompe uma vez mais a consciência da necessidade de narrar e o cabelo loiro que percorre o campo de um lado para o outro e tem o nome de Rapinoe e tem o corpo de mulher, mas o comentarista atrapalha o tempo todo a minha atenção porque eu estou muito cansada e não consigo prestar a atenção na Rapinoe e no comentarista falando ao mesmo tempo, então, eu não vejo mais o corpo de mulher, mas só o vulto de uma cabeça loira que corre de lá para cá no canto esquerdo da minha tv e inverte a bola para o outro lado, mas o comentarista gosta de dizer que ela incomoda e que ela é uma pedra no sapato e que a arbitragem marcou o impedimento errado porque o cabelo loiro não estava impedido no meu canto direito, mas que o corpo de mulher, por ele, podia estar sempre impedido porque ele incomoda muito. 

Procuro pela Marta para tentar procurar por minha atenção. Esqueço que só liguei a tv porque queria dormir. Estou muito cansada e só conheço a Marta, então é para ela que olho. A rapidez do seu contra-ataque aumenta também o embalo da defesa das norte-americanas de quem Marta deixa os corpos para trás, cruza para Adriana, que é rápida, muito rápida, e que quase perde a bola, mas não perde, passa para Débora, que é chamada de Debinha, porque uma mulher é só uma mulher e tem que aceitar o diminutivo para poder jogar como um homem, mas, na verdade, uma mulher é uma mulher que tem que jogar com o seu cinismo e com as suas pernas de mulher que cruza para Bia, que faz a tabela com a Adriana, que tenta recuperar a bola, que entrou no gol porque Davidson foi mais rápida, mas, na verdade, errou o passe e fez gol contra e uma mulher não deve vacilar. Gol. 

Não posso agora mais comentar sobre esse jogo, afinal, mesmo que o Brasil vença os Estados Unidos será uma mácula no suntuoso ofício de jogar porque ganhou com um gol contra e foi um jogo feio, feio igual a Marta, que já chamaram de feia, mas que, depois da derrota da seleção brasileira masculina na Copa do mês passado, foi convidada para fazer propaganda de cosmético porque vai ficar bonita quando passar maquiagem e porque ninguém quer ver mais a cara bonita do Neymar que eles insistem em chamar de bonito, mas bonita mesmo é a cara da namorada dele, que parece até que joga mais futebol que a Marta porque poucas pessoas se lembravam de comentar que a cara da Marta apareceu pela décima quarta vez como indicada para melhor cara de jogadora do mundo enquanto a cara de namorada aparecia o tempo todo só como uma namorada porque uma mulher é só uma mulher, ainda que a cara dela apareça separada da cara do namorado no canal em que só aparecem caras famosas e que não precisa nem pagar tv por assinatura para vê-la o tempo todo. 

Foco no jogo, procuro pela Marta e me concentro. O começo de um livro é precioso. O de um jogo, tenho a impressão que nem tanto. Time que ataca não ganha. Acho que foi de uma mulher, na infância, que ouvi isso que tomei como se fosse um ditado. Mas uma mulher é só uma mulher e é claro que essa é uma frase absurda de mulher que pensa que pode falar sobre futebol. O Brasil tenta pela esquerda novamente, esbarra na velocidade uma vez mais. As norte-americanas não me parecem calmas, no entanto, a sensação que passam é dum trabalho fácil. Se inverterem o jogo para a direita talvez as brasileiras não consigam mais girar com tanta habilidade seus corpos de mulher porque no Brasil corpo de mulher pega a mania de girar pela esquerda. Acabado o primeiro tempo, parece impossível que a seleção brasileira perca esse jogo de virada, como aconteceu no mesmo torneio no ano passado.

Porém o cabelo loiro, ele incomoda. Que mania tem também essas mulheres de quererem colocar todas as mulheres do time para jogar. Talvez se não fosse a Letícia, terceira goleira, as norte-americanas não tivessem marcado um, dois, três, quatro gols. Rose Lavalle. Julie Ertz. Tobin Heath. Alex Morgan. Nenhum diminutivo. Nenhuma campanha de maquiagem. Nenhuma insegurança sobre jogar um próximo torneio, mas alguma sobre a licença maternidade porque o corpo de mulher foi feito para jogar futebol e para jogar mais gente no mundo que padece de tanta cara de gente. 

Rapinoe.

O jogo acaba. Prevejo os comentários sobre o abatimento das brasileiras depois do segundo gol e a expectativa de que, na Copa na França no ano que vem, elas não fiquem na defensiva o restante do jogo. Lembro da mulher da minha infância: time que primeiro ataca não ganha. Lembro das mulheres da minha infância: nunca soube dizer do ataque, mas da defensiva. Parece então impossível agora que as brasileiras sustentassem o placar favorável quando ainda precisam primeiro defender que é um corpo de mulher em campo e que uma mulher é só uma mulher e que a Marta não podia não entrar no lugar no Neymar nos jogos na Copa, como pediram por aí, porque ela joga como uma mulher e porque ela só pode ser comparada com outra cara de mulher. 

Apesar da consciência, ainda tenho um texto para escrever. Mas eu só consigo me lembrar de quando o comentarista estava incomodado com o corpo de uma mulher e me pergunto o tempo todo qual narrador eu preciso escolher para incomodar menos porque uma mulher não deve vacilar. Quero narrar e não quero que me chamem menor ou não quero que a cara da minha narração seja comparada à cara de outro narrador porque uma escrita da mão esquerda de uma mulher é só a escrita de uma mulher que deveria forjar felicidade se comparada à mão direita de um homem. Quero narrar com a voz de uma mulher que não nasceu nesse século. Quero narrar a voz de uma mulher que jogou futebol em Londres no século XIX porque o seu irmão (ela ainda não era casada quando jogou futebol em Londres), um operário que jogava futebol para ser amansado no trabalho dentro das fábricas, foi para a guerra e ela teve que ser amansada pelo futebol para também poder trabalhar nas fábricas, mesmo que o seu corpo fosse um corpo de mulher – e porque o era, quando acabou a guerra, ela nunca mais pôde jogar futebol porque uma mulher é só uma mulher e, por isso, ela precisa se casar porque uma mulher não deve vacilar. Quero narrar com a cara de uma mulher que vai se chamar Zalfa – ela é bem mais alta do que eu, não faz ideia do que seja sororidade, embora sua carreira no futebol, no Araguari Atlético Clube, em 1958, tenha sido motivada pela solidariedade às freiras do Colégio Araguari, que precisavam de promover um evento para arrecadar fundos para evitar a falência da escola. Então foi assim que escolhi a narradora: Zalfa é mineira igual mim, gosta de colégio igual a mim, sua criadora; será inspiração para Marta, que teve o foco de minha atenção durante o jogo do Torneio das Nações do dia dois de agosto de 2018 e que nasceu em 1986, ano da primeira Copa do Mundo de Futebol Feminino; sofrerá pressões das próprias freiras que não sabiam o que era solidariedade e que ela mesma ajudou e, por fim, terá que parar de jogar futebol porque o decreto-lei 3.199 criado pelo Estado Novo, em 1941, noticiava que “(…) às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, para esse efeito, o Conselho Nacional de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país” e só foi revogado em 1979 quando decidiram que o corpo de uma mulher era sim compatível com esse esporte, mas que uma mulher continua sendo só uma mulher, então, deve ser por isso que, até hoje, a cara da namorada do Neymar continua a ser mais falada no Brasil, apesar de a cara da Marta ter sido considerada pela ONU uma das caras mais influentes do mundo. 


Então, não. Minha narradora vai ser escritora e não vai jogar futebol e só vai amarrar alguma coisa no pé para se lançar no fundo de um rio porque uma mulher é só uma mulher e escrever só é profissão para uma mulher se nenhum homem comentar que sua mão esquerda de escritora incomoda muita gente e se ela não se negar a parir mais gente, afinal, foi para isso que Adão cedeu uma costela – para criar o corpo de uma mulher, que também foi expulsa daquilo que chamaram paraíso porque uma mulher é só uma mulher e uma mulher não deve vacilar. A narradora não vai se chamar mais Zalfa, mas ela continua bem alta e vai nascer em Londres, três anos antes de ser jogada a primeira partida de futebol feminino pelas operárias da fábrica que precisavam de disciplina porque o corpo de uma mulher foi expulso do paraíso porque ele incomoda muita gente e precisa ser amansado. Ela se chama Adeline Virginia Stephen, mas vai assinar Virginia Woolf porque uma mulher é só uma mulher e ela precisou se casar com um editor de livros para poder escrever. Vão comentar por aí que ela tinha a saúde mental fraca e que, portanto, foi expulsa do paraíso, já que amarrou uma pedra no pé sem fazer gol algum, mas, antes, porque incomodava muita gente, falou para muitas mulheres que uma mulher não deve vacilar porque a escrita é incompatível com seu corpo de mulher, afinal, foi “a consciência do que diriam os homens sobre uma mulher que fala de suas paixões que a despertou do estado de inconsciência como artista. Não podia mais escrever. O transe tinha acabado. A imaginação não conseguia mais trabalhar. Isso creio que é uma experiencia muito comum entre as mulheres que escrevem – ficam bloqueadas pelo extremo convencionalismo do outro sexo” e uma mulher é só uma mulher. 

Adeline Virginia Stephen.

Então, não. Minha narradora não vai mais se chamar Virgínia porque ela não amarrou nenhuma pedra no pé, mas um bola. Ela é alta, joga futebol, que ainda não é profissão para mulher porque ela tem consciência do que dirão os homens sobre sua cara feia jogando futebol e, então, o transe está acabado. Mas eu tenho um texto para escrever. A sensação é dum trabalho fácil – pego o meu lápis e faço o primeiro risco no papel ou digito a primeira palavra. A sensação é que, assim como chutar uma bola, é preciso apenas um movimento inicial do corpo – um balançar de pernas, um giro nas mãos, um impulso, uma pulsão que amarra uma pedra no meu pé e que manda tudo isso pro fundo de um rio. A sensação é dum trabalho fácil, mas eu estou muito cansada e só liguei o jogo na tv porque precisava de dormir. Eu só preciso girar bem o corpo, tomar um impulso, então, o transe terá acabado porque eu tenho consciência do que dirão os homens sobre a minha mão esquerda feia e eu sou só uma mulher que não deve vacilar. 

***

*Em 1931, a escritora londrina Virgínia Woolf leu o discurso, mais tarde, intitulado o como “Profissões para mulheres” para a Sociedade Nacional de Auxílio às Mulheres. O discurso foi publicado postumamente em A morte da Mariposa, em 1942, e na coletânea Profissões para mulheres e outros artigos feministas, 2012. 

*Em 1885, foi realizada a primeira partida de futebol feminina da qual se tem notícia, em Londres. As jogadoras eram operárias das fábricas inglesas, que foram recrutadas como mão de obra, uma vez que grande parte da população masculina havia deixado as fábricas para partirem para a guerra (Primeira Guerra Mundial). Para saber mais: http://trivela.uol.com.br/quando-futebol-feminino-atraiu-multidoes-durante-primeira-guerra-mundial/

*O Araguari Atlético Clube é considerado o primeiro clube do Brasil a formar um time feminino, que, em meados de 1958, selecionou 22 meninas para um jogo beneficente em dezembro daquele mesmo ano. Para saber mais: http://futebolfeminino.museudofutebol.org.br/teste/?p=1427.

*Marta é a atleta de futebol que mais vezes foi indicada à melhor do mundo (considerando homens e mulheres).

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Os nomes do Pai

Desde que me conheço como um ser e não como uma junção de partes, torço para o Cruzeiro. O único brinquedo que guardo em meu guarda-roupa é um ursinho pequeno e singelo que tinha o escudo do Cruzeiro no seu peito, mas do lado direito - pensando agora, é curioso que esteja do lado direito e não do esquerdo. Digo tinha o escudo, pois após inúmeras surras da vida e de outros, e de cirurgias de recomposição das pernas, dos olhos e dos braços, as estrelas celestes hoje não aparecem mais. Esse ursinho foi dado a mim por meu pai.

No Brasil, e em minha experiência familiar, o futebol é uma herança paterna, repassada e reelaborada geração após geração. Talvez por isso minha relação com o futebol seja melancólica e nostálgica de um tempo que não existiu. Joguei futebol. Fui goleiro e lateral direito, mas nunca houve um sentimento de pertencer àquele espaço e àquela euforia. Embora me emocionasse e chorasse ao ver o gol do Cruzeiro contra o Guarani no Mineirão – último jogo em que fui ao campo – sempre me senti como contemplando um aquário inatingível. É uma relação nostálgica fina de querer voltar a um espaço ao qual jamais pertenci. 

Talvez se quiséssemos buscar alguns nomes do Pai, recorrer ao futebol seria uma saída. Sou de uma geração de filhos da mãe, mas sou filho de meu pai e esse sangue arde aqui.


Todo esse preâmbulo é necessário porque redescobri o futebol no abraço de meus amigos. Hoje moro no Ceará. Descubro que o Brasil é gigante cada vez que desço em Confins e dou um cheiro em cada uma das pessoas desse blog. Cada vez mais sei que essa vida é uma arte de encontros embora haja tantos desencontros por essa vida.

Ah,ontem o Cruzeiro ganhou do Santos por 1 x 0 com um gol do Raniel. Ontem também foi a estreia de Cuca à frente do Santos e houve uso do árbitro de vídeo no jogo. O jogo foi bem morno e sem muitas excitações – alguns diriam que a defesa do Fábio foi um momento assim, mas não eu.


Como todos meus amigos já usaram as citações fílmicas que queria usar, por hoje não as há.