sexta-feira, 10 de agosto de 2018

O Kashima Antlers de ジーコ

Preciso escrever sobre futebol. Penso nos momentos em que o esporte esteve presente na minha vida e me pergunto se gostaria de escrever sobre eles. São poucos episódios, mas todos me emocionam. Talvez futuramente eu escreva sobre minha primeira vez no estádio do Pacaembu para assistir Santos x Corinthians. Talvez eu escreva sobre meu choro inexplicável ao assistir Corinthians x Chelsea na final do Mundial de Clubes.

Mas hoje, minha estreia, eu gostaria de escrever sobre minha mãe. 

Minha mãe não torce para nenhum time, mas acompanha as notícias sobre o Palmeiras para conversar com meu pai. Assiste os jogos apenas em Copas do Mundo e detesta quando saem brigas sobre futebol no boteco da rua. Apesar de não ligar muito para futebol, considero minha mãe a pessoa que me apresentou o esporte e sua importância. 

Ela me conta a história de como conheceu meu pai. Tinha acabado de se formar em Biblioteconomia e abandonava uma promissora carreira acadêmica para tentar a sorte como dekassegui no Japão. Sobre meu pai sei apenas que terminou seu primeiro casamento. Assim como muitos nipobrasileiros na década de 90, meus pais fizeram parte da entrada massiva de dekasseguis no Japão para trabalhar em fábricas e outros serviços que exigiam mão de obra pesada. Não é uma história muito bonita ou romântica, mas aconteceu assim para mim e para eles. 

Sobre as histórias, gosto de pensar que minha mãe preparava o terreno ao falar de um mundo que eu ainda não conhecia, como se dissesse: “Mariana, é neste mundo que eu te coloquei, é aqui que você existe”. Eu cheguei aqui sabendo pouco ou quase nada do mundo. Através das histórias minha mãe me situava no tempo-espaço da minha existência. 

Alguns antecedentes são importantíssimos para o entendimento do meu lugar no mundo. Desde muito pequena já sabia da morte do meu avô materno, história principal a partir da qual todas as outras se desenvolvem. Meus pais se conhecendo na fábrica japonesa. Zico jogando no Kashima Antlers, por mais estranho e desconexo que isso soe. 

Preciso explicar algumas coisas para que a minha relação com Zico faça sentido. Falando sobre futebol, é importante mencionar a criação da J-League (liga oficial de futebol japonesa) em 1993, como forma de popularizar o esporte entre os japoneses. Zico jogava pelo Flamengo e estava aposentado, mas aceita a proposta e vai para o Japão em 1991, jogando pelo Sumitomo Metals, nome do Kashima Antlers antes da criação da J-League. Ao mesmo tempo em que Zico aceitava o desafio de profissionalizar o iniciante futebol japonês, meus pais aceitavam o desafio de voltar à terra de seus antepassados para tentar a sorte. 

Zico em 1993 pelo Antlers ao lado de Alcindo.

As histórias de minha mãe sobre os anos que trabalhou no Japão são sempre sobre esforço, sacrifícios, saudades e diferenças culturais. É curioso pensar que ela estava vivendo em um país onde conseguia se reconhecer fisicamente no outro, mas para todo o resto se enxergava como uma completa estrangeira. Me conta do preconceito que sofria por ser descendente: escutava dos japoneses que era “neta de traidores da pátria” que haviam abandonado o Japão após a guerra. Colocava Medo de avião para tocar várias vezes seguidas e em todas chorava, sentia falta dos abraços e da língua portuguesa que ficava ainda mais bonita na voz de Belchior. 

Minha vida é atravessada pela questão da identidade, assim como é a vida de minha mãe e assim como foi a vida dos meus antepassados. Meu fenótipo conta a história da imigração japonesa no Brasil como se meu rosto fosse um livro aberto. A primeira noção do que significava essa sensação de não-pertencimento e de questionar minha identidade veio através dessa angústia materna. No Brasil minha mãe era vista como japonesa e nunca poderia ser totalmente aceita. No Japão minha mãe era vista como brasileira e nunca poderia ser totalmente aceita. A identidade e a ideia de nacionalidade sempre criaram pontos de tensão e dificultam nossa noção enquanto indivíduos. Para reafirmar seu lado japonês, minha mãe mantinha viva a tradição e a cultura japonesa no Brasil. Para reafirmar seu lado brasileiro, minha mãe se apegava a tudo que pudesse lembrar o país que nasceu enquanto trabalhava no Japão. 

O “não pertencer” é doloroso, mas também pode ser muito bonito. Minha mãe sempre sorri quando fala das reuniões familiares onde as mulheres se juntavam para cozinhar pratos típicos japoneses. Nos poucos momentos em que vejo seu rosto se iluminar ao falar dos anos no Japão, ela menciona a admiração japonesa por Zico. Nas palavras dela, Zico jogava um bolão e deixava os japoneses boquiabertos. Quando falava que era brasileira, os japoneses sempre mencionavam Zico e Ayrton Senna. O futebol, visto como elemento inseparável do conceito da identidade brasileira começava a fazer sucesso no Japão. Os dois mundos se juntavam em harmonia quando Zico jogava pelo Kashima Antlers, assim como acontecia quando minha bisavó preparava o tradicional missoshiro.

Um chawan de missoshiro no Brasil e os gols de Zico no Japão foram a lembrança de que os dois mundos existiam dentro de minha mãe, talvez não da forma amigável como vendem as propagandas da aliança Brasil-Japão. Para mim é impossível não se emocionar ao assistir o famoso “gol escorpião”, mesmo não entendendo nada de futebol, mas entendendo que de certa forma isso diz sobre quem eu sou hoje. 

O gol escorpião de Zico. 

Zico deixou de jogar pela J-League em jogo de despedida contra o Flamengo, perdendo de 2 x 1 em 1994, ano em que meus pais se conhecem na fábrica. Em 96 eles voltavam ao Brasil, onde nasci. 

Meus pais no Japão em 95.