Aguirre: velho
ídolo
Diego Aguirre é um tipo curioso. Muito bom em ser mediano nas coisas que faz, ensina seus times a serem medianos. Quando treinou o Galo, tinha um time ótimo à disposição, mas não fez mais que conquistar a Florida Cup (os atleticanos só gostam porque foi título inédito). No Uruguai, é idolozinho do Peñarol, onde ganhou como jogador o Uruguaizão de 1986 e a Libertadores de 1987. Como treinador também ganhou dois nacionais, mas, numa liga que mais lembra o Campeonato Mineiro, isso pra mim é obrigação.
No São Paulo, vem liderando o Campeonato
Assaí isolado, o que se consolidou na vitória antes do almoço sobre o Ceará
pela vigésima primeira rodada. O jogo foi um amistoso no frio. A parte do jogo
que eu consegui ver pela transmissão pirata num site coberto por anúncios não
revelou ambição de nenhuma das equipes em ganhar o jogo. O São Paulo atacava e
o Ceará se defendia, mas todos os jogadores pareciam correr usando uma calça
jeans molhada. Gostei do Éverson, goleiro do Ceará e cria do São Paulo. Ele se
inspira tanto no Rogério Ceni que usa a camisa 01 e cobra faltas quase sempre
com perigo.
Em campo, um tabu prevaleceu: o Ceará
nunca ganhou do São Paulo no Morumbi pelo Campeonato Brasileiro. E o goleiro
Éverson tava interessado em manter as coisas como no passado, porque ele tinha
o entusiasmo de uma pessoa esperando o ônibus no ponto, mesmo quando fez boas
defesas, que não livraram o Vozão do seu destino implacável. Será que era
receio de deixar uma má impressão e daqui a uns anos não fazer valer o ditado
de que o bom filho à casa torna? A resposta não interessa. O São Paulo venceu
com gol do Bruno Peres depois de uma assistência do Diego Souza, o paladino da
má vontade.
O São Paulo segue sua surpreendente
campanha, liderando com autoridade um campeonato cujos times favoritos
preteriram em favor da Libertadores ou mesmo da Copa do Brasil. Mais um título
pra eles? Já o Ceará volta pra Fortaleza pensando em priorizar a Série B de
2019, único título expressivo à vista.
Kashia: novo
ídolo
Agora olha que legal. Em partida pelos Jogos Asiáticos, a chinesa Wang Shanshan marcou nove gols contra o Tajiquistão, depois de entrar como substituta aos 11 minutos do segundo tempo. Os jovens brasileiros, de tanto assistirem a jogo internacional, começaram a usar o termo inglês hat-trick – que na língua portuguesa não quer dizer nada – pra descrever o feito de se marcar três gols num mesmo jogo, mas o que essa mulher fez foi um hat-trick de hat-tricks, e isso tem de ser um recorde!
Na Europa, o jogador georgiano Guram Kashia recebeu um prêmio inédito da UEFA por usar a braçadeira de capitão com as cores da bandeira LGBT em partida pelo Holandesão da temporada passada. Naturalmente ele foi criticado e vaiado pela própria torcida, mas insistiu nesse gesto singelo, que demonstra coragem e vontade de viver num mundo igual, coisa que a gente também quer aqui em casa. Eis agora uma prova de que o futebol molda caráter e também acompanha os fenômenos sociais de seu lugar e época:
O jogador Andreas Pereira, filho de
brasileiros nascido e criado na Bélgica, foi convocado por Tite para os
próximos amistosos da Seleção. Ele é apenas o quarto atleta na curta lista de
estrangeiros que vestiram a camisa amarela e interrompe um período de 100 anos
sem que isso acontecesse. Em tempos de refugiados venezuelanos sendo
perseguidos na fronteira, isso devia provocar reflexões sobre nossa
hospitalidade seletiva. Dizer que o escrete nacional não precisa de talentos
ultramarinos é negar todas as demonstrações que a gente viu na Copa de que
rancor colonial não tem mais espaço no esporte. Deixa o cara jogar! Deixa a
galera entrar!

