sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Às vezes a ciência deveria ser mais arte que ciência

Me chama de João e finja que eu tenho a palavra...


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Se tivesse o VAR, teria Deus feito o gol com a mão de Maradona?


No princípio era o Verbo; e nada mais. Nem ao menos Deus. Era o Verbo solto na vastidão, solitário, pois não havia nada para conjugá-lo. Procurava alguma coisa, alguma particularidade, que fosse até alguma contraparte!, mas não encontrava. Até conhecer um primo pobre distante, muito depressivo e sem graça, uma tal de Realidade. Aí o Verbo deve ter pensado "bom, pelo menos não estou mais sozinho" e lá foi se relacionar com a apática Realidade. Foi dessa relação incestuosa que nasceu o futebol. Cientificamente falando, portanto, por ser o futebol fruto da conjugação da Realidade pelo Verbo, ele seria justamente o que tomamos por "Fato". O futebol - inegável como a culpa - é o fato em constante concretização. É o feto em formação. É o meio da festa.

Assim se tem o mito fundador do futebol, e assim se tem o seu maior ensinamento: "ninguém sabe nada sobre ele". A falta de juízo em relação ao esporte não se dá pela escassez de tentativas, isso eu posso garantir, e sim porque ele é esse Fato, e tão somente esse Fato, em sua total plenitude. Com todas as contradições e paradoxos dignos de um evento, de um bom Fato. Pois, em verdade vos digo, caros leitores, esse Fato é traiçoeiro. Pode até ter sido gerado pela Realidade, mas é educado pelo Verbo. Esse Fato é sagaz. Quando pensamos que o temos é precisamente quando estamos mais distantes de seu significado, já que é impossível apreendê-lo. Impossível na medida em que o Verbo já estava no futebol, e o Verbo fez o futebol, e o futebol não o conheceu. Daí a nostalgia mal direcionada, daí a memória fragmentada, daí os traumas, daí toda a sua inapreensão. O futebol é o erro internalizado. E esse simples fato faz dar vazão a todo tipo de mal entendido relacionado ao desporto. Afinal, quem é o infeliz que tem a capacidade de realmente perceber o presente? O Juiz? A FIFA? Parece que não.


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André Luiz nos mostra que a razão crua não dá conta da realidade


Foi pensando nisso que os mais preparados cientistas da Nasa FIFA empregaram a última "palavra" em inovação tecnológica, o replay o VAR. Pelo jeito, o reconhecimento da fundamental importância do erro na formação do futebol é o primeiro passo para se alcançar a perfeição. Ao menos foi o que pareceu ignorar Pierluigi Collina, Presidente da Comissão de Arbitragem da FIFA, que, no dia 29 de junho, afirmou, após averiguar complicados cálculos matemáticos, chegar a 99,3% a taxa de acerto crítico dos juízes durante a fase de grupos da Copa do Mundo na Rússia com o auxílio do VAR, em contraponto com a irrisória taxa de 95% de acerto sem a mesma ferramenta. Pierluigi nos diz que a beleza da ciência está em poder explicar toda a realidade com essa exata precisão. O que ele não nos diz é como ele chegou a esses números.

Com tamanha exatidão, não é de se espantar que a dita ferramenta, logo após a Copa do Mundo, já tenha sido aplicada em outra Copa, só que dessa vez a do Brasil, agora em 2018. De doze a quatorze câmeras estrategicamente posicionadas em cada jogo, a utilização do VAR tentará diminuir as ocorrências de erros capitais na competição de mata-mata menos valorizada pelos brasileiros. Seu foco continuará idêntico ao utilizado na Rússia: ou seja, em casos de gols, pênaltis, cartão vermelho direto e má identificação de jogadores nas ocasiões de punição haverá a reavaliação dos profissionais para a identificação de possíveis equívocos. Continua, contudo, sem a possibilidade de ambas as equipes questionarem o poder supremo do juiz em sua decisão. Continua, ainda, a má interpretação de um acima das de cinco outros profissionais em cada um dos lances. Continua, em casos bizarros de erros, mesmo com a utilização do mecanismo, a prevalência da má fé que tanto prejudica a conclusão do Fato.

O futebol é, sobretudo, um esporte de interpretação, um fato sobre o qual o Verbo exerce a sua maior apelação. É uma festa democrática. Porém, em seu sentido lato, está muito mais para Carnaval que para Natal. E, infelizmente, a adoção do árbitro de vídeo continua apontando para a abordagem messiânica, ao invés de assumir para si a conjugação caótica que emana do povo. Ignorando que o grito único que arranha a garganta será lembrado pelos gemidos, enquanto que o coro, pelas vozes de muitos, será entoado pela história. Isso quer dizer que não vale apelar pela "suposta" retomada do Fato por um simples replay para um único juízo, e sim pela transparência do juízo difundida ao abundante número dos foliões, já que é somente no maravilhamento do Verbo que se apercebe verdadeiramente o real.

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Jesus Cristo, o primeiro dos juízes

Porém o Verbo já existia no futebol, e o Verbo fez o futebol, e o futebol ainda não o conhece. A justeza das coisas continua a ser ditada pela voz máxima do esporte, sem ampla discussão. E o Fato continua a ser julgado fora de sua grandiosidade. E o papel do engano no futebol continua a não ser considerado em sua totalidade. Não se trata de defender gol mal anulado. Não se trata de apoiar decisões que claramente favorecem determinadas equipes em detrimentos de outras. Não se trata, ainda, de negar ao futebol qualquer tipo de atualização na tentativa vã de preservar um estado "puro" do esporte que nunca existiu. Se trata, em contrapartida, de reconhecer na própria pluralidade a essência do Verbo. E, a partir dele, aprender a conviver com a apatia da realidade que nos afeta. Talvez, em última instância, se trate de ressignificar a realidade.

Calha muito bem aos da FIFA e CBF o domínio do verbo, posto que essa é a maior ferramenta de opressão. Ao se impor uma pauta específica, excluísse toda uma gama de especificidades que, porventura, poderiam ser utilizadas para a melhoria da grande discussão. E é sempre impondo uma pauta específica que nos vem o messias da razão. O próprio Verbo é ignorado nesse momento, é podado e ajustado.  A visão se limita. A razão não da conta e o Verbo se cala... Se achas que é exagero, basta ver a coitada da ciência. Totalmente submetida à realidade,  ela não se torna Fato, perde o brilho, perde a voz.


Mito Gum reconhece o serviço prestado pelo árbitro de vidro de vídeo


Há, porém, ainda muitas outras coisas que o Verbo pode fazer; e se cada uma das quais fosse escrita, cuido que nem ainda o mundo todo poderia conter os livros que se escrevessem. Amém.


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P.S.: Agradecimentos ao Hugo Nick por chamar a minha atenção para o melhor vídeo do ano.