segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Brasil x EUA, dia 02 de agosto de 2018

Tenho um texto para escrever. A sensação é dum trabalho fácil – pego o meu lápis e faço o primeiro risco no papel ou digito a primeira palavra. A sensação é que, assim como chutar uma bola, é preciso apenas um movimento inicial do corpo – um balançar de pernas, um giro nas mãos, um impulso, uma pulsão. Penso na narração – a primeira pessoa deve estar omitida porque uma mulher não pode falar da sua condição de mulher porque uma mulher não pode falar duma outra mulher porque se uma mulher fizer isso ela não estará fazendo outra coisa que não falar de si própria e já não há quem aguente um narrador de primeira pessoa que fale só sobre si e questione a sua identidade. Então, escolho o narrador. Não, ele não pode ser homem porque nenhuma mulher mais aguenta uma mulher falando como se fosse um homem só porque só um homem está autorizado a falar sobre futebol. Assim, o narrador é um ser. Não, ele não é um ser porque nenhum ser suporta mais outro ser na masturbação eterna de se descobrir como ser. 

Abandono a ideia da narração por alguns instantes, afinal, tanta consciência acabou com a chance de qualquer fabulação. E não há fabulação que tolere tanta interrupção. Acho que foi uma escritora que uma vez alertou para o fato de que o começo de um livro é precioso e foi a voz de um homem que uma vez eu ouvi cantar “que uma mulher não deve vacilar.” Prudente, portanto, quem abandona a narração antes de macular o suntuoso ofício de narrar. 

Esqueço da mão esquerda no lápis e deixo ligada a televisão. Estou cansada, estou sempre muito cansada, e o futebol da tv é sempre um bom pretexto para dormir. Isso, pois a mão no controle é muito mais hábil que a mão no lápis e a sensação de escolher um canal é dum trabalho impossível.
Na quinta-feira, no entanto, não há muito futebol para se ver. 

Completo uma volta nas opções oferecidas por essa tv por assinatura que eu já sei que preciso parar de pagar porque ninguém atura mais pagar para ver sempre a mesma programação. Finjo que não vi, mas, na verdade, vi – que acabou de começar uma partida de futebol num canal que nunca dei conta da existência. É a final de um torneio, mas é futebol feminino. Uma mulher não deve vacilar. Tenho que escrever um texto. Tenho que falar de futebol. Ainda não sei como narrar. Mas quem ler a assinatura ao final da narração vai saber que é uma mão de mulher falando sobre o movimento do corpo de outras mulheres e ninguém engole mais esse discursinho viciado de mulher que só fala de outra mulher porque quer empoderar essa mulher mas, na verdade, é só mais uma mulher e uma mulher é só uma mulher e uma mulher não deve vacilar. 

A rapidez do ataque, contudo, interrompe uma vez mais a consciência da necessidade de narrar e o cabelo loiro que percorre o campo de um lado para o outro e tem o nome de Rapinoe e tem o corpo de mulher, mas o comentarista atrapalha o tempo todo a minha atenção porque eu estou muito cansada e não consigo prestar a atenção na Rapinoe e no comentarista falando ao mesmo tempo, então, eu não vejo mais o corpo de mulher, mas só o vulto de uma cabeça loira que corre de lá para cá no canto esquerdo da minha tv e inverte a bola para o outro lado, mas o comentarista gosta de dizer que ela incomoda e que ela é uma pedra no sapato e que a arbitragem marcou o impedimento errado porque o cabelo loiro não estava impedido no meu canto direito, mas que o corpo de mulher, por ele, podia estar sempre impedido porque ele incomoda muito. 

Procuro pela Marta para tentar procurar por minha atenção. Esqueço que só liguei a tv porque queria dormir. Estou muito cansada e só conheço a Marta, então é para ela que olho. A rapidez do seu contra-ataque aumenta também o embalo da defesa das norte-americanas de quem Marta deixa os corpos para trás, cruza para Adriana, que é rápida, muito rápida, e que quase perde a bola, mas não perde, passa para Débora, que é chamada de Debinha, porque uma mulher é só uma mulher e tem que aceitar o diminutivo para poder jogar como um homem, mas, na verdade, uma mulher é uma mulher que tem que jogar com o seu cinismo e com as suas pernas de mulher que cruza para Bia, que faz a tabela com a Adriana, que tenta recuperar a bola, que entrou no gol porque Davidson foi mais rápida, mas, na verdade, errou o passe e fez gol contra e uma mulher não deve vacilar. Gol. 

Não posso agora mais comentar sobre esse jogo, afinal, mesmo que o Brasil vença os Estados Unidos será uma mácula no suntuoso ofício de jogar porque ganhou com um gol contra e foi um jogo feio, feio igual a Marta, que já chamaram de feia, mas que, depois da derrota da seleção brasileira masculina na Copa do mês passado, foi convidada para fazer propaganda de cosmético porque vai ficar bonita quando passar maquiagem e porque ninguém quer ver mais a cara bonita do Neymar que eles insistem em chamar de bonito, mas bonita mesmo é a cara da namorada dele, que parece até que joga mais futebol que a Marta porque poucas pessoas se lembravam de comentar que a cara da Marta apareceu pela décima quarta vez como indicada para melhor cara de jogadora do mundo enquanto a cara de namorada aparecia o tempo todo só como uma namorada porque uma mulher é só uma mulher, ainda que a cara dela apareça separada da cara do namorado no canal em que só aparecem caras famosas e que não precisa nem pagar tv por assinatura para vê-la o tempo todo. 

Foco no jogo, procuro pela Marta e me concentro. O começo de um livro é precioso. O de um jogo, tenho a impressão que nem tanto. Time que ataca não ganha. Acho que foi de uma mulher, na infância, que ouvi isso que tomei como se fosse um ditado. Mas uma mulher é só uma mulher e é claro que essa é uma frase absurda de mulher que pensa que pode falar sobre futebol. O Brasil tenta pela esquerda novamente, esbarra na velocidade uma vez mais. As norte-americanas não me parecem calmas, no entanto, a sensação que passam é dum trabalho fácil. Se inverterem o jogo para a direita talvez as brasileiras não consigam mais girar com tanta habilidade seus corpos de mulher porque no Brasil corpo de mulher pega a mania de girar pela esquerda. Acabado o primeiro tempo, parece impossível que a seleção brasileira perca esse jogo de virada, como aconteceu no mesmo torneio no ano passado.

Porém o cabelo loiro, ele incomoda. Que mania tem também essas mulheres de quererem colocar todas as mulheres do time para jogar. Talvez se não fosse a Letícia, terceira goleira, as norte-americanas não tivessem marcado um, dois, três, quatro gols. Rose Lavalle. Julie Ertz. Tobin Heath. Alex Morgan. Nenhum diminutivo. Nenhuma campanha de maquiagem. Nenhuma insegurança sobre jogar um próximo torneio, mas alguma sobre a licença maternidade porque o corpo de mulher foi feito para jogar futebol e para jogar mais gente no mundo que padece de tanta cara de gente. 

Rapinoe.

O jogo acaba. Prevejo os comentários sobre o abatimento das brasileiras depois do segundo gol e a expectativa de que, na Copa na França no ano que vem, elas não fiquem na defensiva o restante do jogo. Lembro da mulher da minha infância: time que primeiro ataca não ganha. Lembro das mulheres da minha infância: nunca soube dizer do ataque, mas da defensiva. Parece então impossível agora que as brasileiras sustentassem o placar favorável quando ainda precisam primeiro defender que é um corpo de mulher em campo e que uma mulher é só uma mulher e que a Marta não podia não entrar no lugar no Neymar nos jogos na Copa, como pediram por aí, porque ela joga como uma mulher e porque ela só pode ser comparada com outra cara de mulher. 

Apesar da consciência, ainda tenho um texto para escrever. Mas eu só consigo me lembrar de quando o comentarista estava incomodado com o corpo de uma mulher e me pergunto o tempo todo qual narrador eu preciso escolher para incomodar menos porque uma mulher não deve vacilar. Quero narrar e não quero que me chamem menor ou não quero que a cara da minha narração seja comparada à cara de outro narrador porque uma escrita da mão esquerda de uma mulher é só a escrita de uma mulher que deveria forjar felicidade se comparada à mão direita de um homem. Quero narrar com a voz de uma mulher que não nasceu nesse século. Quero narrar a voz de uma mulher que jogou futebol em Londres no século XIX porque o seu irmão (ela ainda não era casada quando jogou futebol em Londres), um operário que jogava futebol para ser amansado no trabalho dentro das fábricas, foi para a guerra e ela teve que ser amansada pelo futebol para também poder trabalhar nas fábricas, mesmo que o seu corpo fosse um corpo de mulher – e porque o era, quando acabou a guerra, ela nunca mais pôde jogar futebol porque uma mulher é só uma mulher e, por isso, ela precisa se casar porque uma mulher não deve vacilar. Quero narrar com a cara de uma mulher que vai se chamar Zalfa – ela é bem mais alta do que eu, não faz ideia do que seja sororidade, embora sua carreira no futebol, no Araguari Atlético Clube, em 1958, tenha sido motivada pela solidariedade às freiras do Colégio Araguari, que precisavam de promover um evento para arrecadar fundos para evitar a falência da escola. Então foi assim que escolhi a narradora: Zalfa é mineira igual mim, gosta de colégio igual a mim, sua criadora; será inspiração para Marta, que teve o foco de minha atenção durante o jogo do Torneio das Nações do dia dois de agosto de 2018 e que nasceu em 1986, ano da primeira Copa do Mundo de Futebol Feminino; sofrerá pressões das próprias freiras que não sabiam o que era solidariedade e que ela mesma ajudou e, por fim, terá que parar de jogar futebol porque o decreto-lei 3.199 criado pelo Estado Novo, em 1941, noticiava que “(…) às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, para esse efeito, o Conselho Nacional de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país” e só foi revogado em 1979 quando decidiram que o corpo de uma mulher era sim compatível com esse esporte, mas que uma mulher continua sendo só uma mulher, então, deve ser por isso que, até hoje, a cara da namorada do Neymar continua a ser mais falada no Brasil, apesar de a cara da Marta ter sido considerada pela ONU uma das caras mais influentes do mundo. 


Então, não. Minha narradora vai ser escritora e não vai jogar futebol e só vai amarrar alguma coisa no pé para se lançar no fundo de um rio porque uma mulher é só uma mulher e escrever só é profissão para uma mulher se nenhum homem comentar que sua mão esquerda de escritora incomoda muita gente e se ela não se negar a parir mais gente, afinal, foi para isso que Adão cedeu uma costela – para criar o corpo de uma mulher, que também foi expulsa daquilo que chamaram paraíso porque uma mulher é só uma mulher e uma mulher não deve vacilar. A narradora não vai se chamar mais Zalfa, mas ela continua bem alta e vai nascer em Londres, três anos antes de ser jogada a primeira partida de futebol feminino pelas operárias da fábrica que precisavam de disciplina porque o corpo de uma mulher foi expulso do paraíso porque ele incomoda muita gente e precisa ser amansado. Ela se chama Adeline Virginia Stephen, mas vai assinar Virginia Woolf porque uma mulher é só uma mulher e ela precisou se casar com um editor de livros para poder escrever. Vão comentar por aí que ela tinha a saúde mental fraca e que, portanto, foi expulsa do paraíso, já que amarrou uma pedra no pé sem fazer gol algum, mas, antes, porque incomodava muita gente, falou para muitas mulheres que uma mulher não deve vacilar porque a escrita é incompatível com seu corpo de mulher, afinal, foi “a consciência do que diriam os homens sobre uma mulher que fala de suas paixões que a despertou do estado de inconsciência como artista. Não podia mais escrever. O transe tinha acabado. A imaginação não conseguia mais trabalhar. Isso creio que é uma experiencia muito comum entre as mulheres que escrevem – ficam bloqueadas pelo extremo convencionalismo do outro sexo” e uma mulher é só uma mulher. 

Adeline Virginia Stephen.

Então, não. Minha narradora não vai mais se chamar Virgínia porque ela não amarrou nenhuma pedra no pé, mas um bola. Ela é alta, joga futebol, que ainda não é profissão para mulher porque ela tem consciência do que dirão os homens sobre sua cara feia jogando futebol e, então, o transe está acabado. Mas eu tenho um texto para escrever. A sensação é dum trabalho fácil – pego o meu lápis e faço o primeiro risco no papel ou digito a primeira palavra. A sensação é que, assim como chutar uma bola, é preciso apenas um movimento inicial do corpo – um balançar de pernas, um giro nas mãos, um impulso, uma pulsão que amarra uma pedra no meu pé e que manda tudo isso pro fundo de um rio. A sensação é dum trabalho fácil, mas eu estou muito cansada e só liguei o jogo na tv porque precisava de dormir. Eu só preciso girar bem o corpo, tomar um impulso, então, o transe terá acabado porque eu tenho consciência do que dirão os homens sobre a minha mão esquerda feia e eu sou só uma mulher que não deve vacilar. 

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*Em 1931, a escritora londrina Virgínia Woolf leu o discurso, mais tarde, intitulado o como “Profissões para mulheres” para a Sociedade Nacional de Auxílio às Mulheres. O discurso foi publicado postumamente em A morte da Mariposa, em 1942, e na coletânea Profissões para mulheres e outros artigos feministas, 2012. 

*Em 1885, foi realizada a primeira partida de futebol feminina da qual se tem notícia, em Londres. As jogadoras eram operárias das fábricas inglesas, que foram recrutadas como mão de obra, uma vez que grande parte da população masculina havia deixado as fábricas para partirem para a guerra (Primeira Guerra Mundial). Para saber mais: http://trivela.uol.com.br/quando-futebol-feminino-atraiu-multidoes-durante-primeira-guerra-mundial/

*O Araguari Atlético Clube é considerado o primeiro clube do Brasil a formar um time feminino, que, em meados de 1958, selecionou 22 meninas para um jogo beneficente em dezembro daquele mesmo ano. Para saber mais: http://futebolfeminino.museudofutebol.org.br/teste/?p=1427.

*Marta é a atleta de futebol que mais vezes foi indicada à melhor do mundo (considerando homens e mulheres).