Nada mais inofensivo que um
escritor refém do passado. Podia até ser mais romântico aquele sertanejo
sufrido com saudades da terra, juntando as fichas pra telefonar quantos
minutinhos desse à parentada toda e à Rosinha que tinha deixado pra trás e
agora só podia ver com os ouvidos, mas muito mais bonito é fazer uma chamada de
vídeo pelo zap e por demoradas horas ver com os olhos – e muito mais gostoso é
ver com as mãos com os beiços com a língua, mas essa tecnologia ainda não
inventaram. Gosto e muito de revirar fotografias desbotadas do meu pai, mas ainda
prefiro ver sua carantonha imensa deformada pela baixa resolução do Skype, quase
engolindo a câmera de tão perto. Está enfiado lá em Manaus, mas posso ligar a
hora que quiser e me lembrar como são mixurucas os meus dilemas, conclusão
inevitável a que chego sempre que vejo o velho rindo da minha cara. O dia é
hoje, não tem porque fazer da literatura um bazar de metáforas de segunda-mão e
lirismo de quinta cheirando a naftalina, e só não cito Belchior pra não cair em
contradição – mas talvez bote um disco pra tocar mais tarde porque refém não
sou, mas tampouco sou burro a ponto de ser inimigo do passado.
Vô Sinval, meu pai e eu moramos
os três na vizinhança do Independência em algum momento da vida. Vô Sinval
antes mesmo do estádio existir, na época em que futebol só se via ao vivo ou pelo
rádio; meu pai quando ali era o Campo do Sete, onde jogava bola mais a molecada
do bairro com a permissão do seu Walter, o zelador que, na sua ingenuidade de
menino, ele acreditava ser dono daquilo tudo, história que se comprova em
qualquer botequim do bairro com os tiozinhos da época, quando ainda tinha a
piscina e os estádios começavam a caber dentro dos aparelhos televisores; e
eu hoje, já finado o time do Sete de Setembro que dava nome ao estádio, que agora
tem muros mais altos mas cabe no bolso de qualquer cidadão em posse de um
celular e com acesso à internet. Os
filhos que não tenho talvez assistam aos jogos em primeira pessoa, da perspectiva de
qualquer um dos jogadores em campo ou de três drones sobrevoando o gramado, com um óculos de realidade virtual afivelado na fuça.
O dia é hoje, mas vô Sinval é uma
pessoa antiga e ainda conserva o hábito do rádio, muito embora com a TV ligada
e o Galvão Bueno emudecido a golpes de controle remoto. Na minha mocoronguice de
menino, não tinha capacidade pra diferenciar nem a peita do Galo da peita do
Botafogo – assunto que não desperdiçarei agora porque ainda pode me render um
texto inteiro neste blog –, quanto mais pra diferenciar as palavras do rádio
das palavras da TV, e por isso mesmo achava aquilo muito esquisito e redundante, porém meu
avô me explicou que o rádio sabia dos
gols antes.
Hoje em dia o que mais faço é diferenciar
palavras e se não digo que sou craque nisso é porque sei que é um trocadilho
barato num texto como esse. Fiz disso a minha ocupação e é assim que ocupo
grande parte das minhas horas ociosas: acabo de assistir a uma entrevista do
Jonathan Safran Foer no YouTube e esse safado me inventa que só escreveu seu
grande romance porque não estava tentando parecer esperto e nem impressionar
ninguém e que os castores, se não roem as árvores, os dentes continuam
crescendo e vão se enfiando gengiva adentro até que eles morrem e que ele
também escrevia porque precisava. É um clichê e suspeito também que seja
papinho puro, uma caozada do caralho. Desconfio inclusive que seja impossível
escrever sem querer se amostrar, tanto quanto contar uma piada e não querer que
os outros riam. O locutor do rádio entende isso porque seu trabalho é cuspir
nos olhos dos cegos e fazer com que eles vejam árvores que andam e outras
coisas impossíveis, como um dibre do Ronaldinho Gaúcho que deixa dois zagueiros
trocando as pernas, outro caído no chão e um goleiro a ver navios. Por sorte Prometeu
ainda não tinha roubado a televisão dos deuses das mídias quando aconteceram as
grandes guerras mundiais, assim o fuzileiro americano de Norman Rockwell podia voltar
pra sua cidadezinha no interior do Ohio e enfeitar as histórias com laços de
honra e salpicar uns confetes de glória. Se tivessem sido televisionadas, as
imagens seriam obscenas demais.
O dia é hoje e os milagres são
outros. Assisto ao duelo do Galo contra o Fogão numa transmissão pirata pelo
computador, mas o sinal é ruim e as imagens saem mastigadas. Se eu fosse
criança, talvez não tivesse entendido na minha ingenuidade porque o goleiro do
Botafogo tinha tomado aquele primeiro gol do Luan, já que a bola tinha ficado
parada na banheira por intermináveis dez segundos antes de rolar até o fundo da
rede. Interrompo o jogo pra atender uma ligação do meu pai. Reclamo que a transmissão está
uma bosta e trava toda hora: ele ri: lembro que meus problemas são todos
bestas. Me distraio com a conversa e quando me dou conta o jogo já acabou: três
a zero pro Galo. A mídia me dá a opção de voltar o vídeo e reassistir ao resto
da partida, mas esporte, que nem jazz, só faz sentido ao vivo e a prova disso é
que a Globo não reprisa a final da Copa do Brasil no dia seguinte, que nem faz
com o último episódio da novela. Ao contrário da maioria das pessoas, eu não
sofro de alergia a spoilers, acho que
saber que a Rosemary vai afinal ceder ao instinto – ou à obrigação, talvez – da
maternidade e concordar em criar o filho do capeta não estraga o filme, mas que
graça teria assistir o jogo sabendo que nenhuma das investidas do Botafogo iria
vingar, por mais que o chute fosse certeiro e que a bola fizesse curva?
Ainda converso com meu pai, que
não é locutor de rádio, mas tem muito assunto e é bom contador de história. Ele
me lembra da vez que me levou pra conhecer o estádio, gostava de me fazer esse
tipo de agrado: uma vez me levou ao aeroporto pra ver os aviões, noutra me
levou pra passear de metrô. Diz ele que, assim que o jogo começou, eu liguei um
radinho de pilha. Ele me perguntou por que tinha levado o radinho pro campo se
já ia ver tudo.
Quero saber dos gols antes.
Nada mais inofensivo que um
escritor refém do passado.

