Entrou descalço no bar nosso amigo Leo, mas seus pés estavam tão cobertos de lama que parecia calçar botinas no mínimo dois números maiores do que os seus sapatos. O cruzeiro adentrava a cancha para enfrentar o Boca, Carmen cantava Paris, Paris, e a cerveja enchia nossos copos até a risca. Túlio reivindicava a volta do futebol de verdade, que se fosse para fazer dancinha, se chamaria ensaio e não treino. Não o Túlio nosso amigo que escreve aqui no blog. O Túlio Maravilha, que como Teógenes de Tasos chegou à marca dos mil. Mil vezes Túlio balançou o barbante, mil e quatrocentas vezes o pugilista Teógenes fez beijar a lona um desavisado na Grécia Antiga e por tal feito seu nome se repetiria desde esses tempos até nossos tempos e além. É dos velhos reclamar o passado e é dos jovens reclamar dos velhos, mas gosto do Túlio e só por causa dele torço pelo Atlético, muito embora ele atacasse pelo Botafogo. Além do mais, gosto de ouvir um velho contar sua história. Carmen cantava Paris, Paris, teu rio é o rio Sena e nossos copos enchidos até a risca, como deve ser, porque bate uma tristeza ver um lagoinha de crista baixa.
Túlio mil vezes tinha balançado o barbante e nenhuma vez feito dancinha, falava com conhecimento de causa que aquele futebol meia boca que o Brasil vinha jogando, que aquela entressafra fodida era porque faltava gol e sobrava dancinha. E o gol é o ganha pão do atacante. Carmen cantava Paris, Paris, tens loura mas não tens morena. Leônidas falou que na época dele não era bem assim e ele podia falar com mais conhecimento de causa ainda, porque muito antes de Túlio tinha balançado o barbante e até gol descalço tinha feito com os pés cobertos de lama, depois que o toró transformou o gramado num pântano e suas duas delicadas chuteirinhas número 36 em dois jacarés com a bocarra aberta e os dedos enfileirados feito dentes, porém Leônidas não se avexou e jogou descalço e mordeu a rede da Polônia e levou o Brasil à vitória, porque naqueles tempos ainda não existia árbitro de vidro e nem frescura e nem o árbitro de carne e osso tinha visto que ele jogava descalço, porque a lama era tanta que todos os jogadores pareciam calçar botinas.
Mas naquela época ainda não existia o Brasil e a nossa capital era Buenos Aires, por isso Leônidas que foi nosso primeiro artilheiro, o diamante negro das chuteiras imortais, cuja memória vive no caixa de qualquer supermercado na forma de um tablete de chocolate, foi chamado pelos jornalistas esportivos franceses, de artista de circo, acrobata e malabarista. Carmen cantava Paris, je t’aime, as bananas a ponto de despencar da cabeça pelo piso ladrilhado do bar e fazer escorregar os bêbados.
Eu não tinha muito o que contar, então ouvia. Contar o quê? Minhas únicas lembranças do futebol se limitavam à vez que tinha despedaçado a vidraça do vizinho do 101 e à vez que tinha aprendido a dar o chapéu de calcanha e passado a semana inteira chapelando o vento só pela beleza que era dar um chapéu com os calcanhares e de correr pelos morros de Vespasiano atrás de bola na esperança de alcançar antes de chegar ao sopé do morro. Vespasiano tem forma de vale e nós que morávamos no morro sempre jogávamos olhando pra cima, com o gol na parte mais alta, mas sem medo de correr atrás da bola que insistia em rolar até lá embaixo. Talvez por isso mesmo o Atlético valha a metade de Minas, porque sempre joga olhando para cima na tabela, mas não tem medo de descer. Meu primo Igor, quando o galo foi rebaixado, prometeu e cumpriu não deixar de ir a nenhum jogo da temporada. É triste ver um galo com a crista caída.
Corta para 1938. A segunda guerra mundial já estava desenhada, a Alemanha já tinha tido a oportunidade de provar a supremacia nazista nas olimpíadas de 36 e a Itália não podia deixar por menos na copa de 38: iam defender o título anterior e comprovar pro mundo a superioridade do seu escrete, não podiam perder para o Brasil, que ainda nem existia, que até era bonito de se ver em campo, mas não eram futebolistas, eram uma trupe circense, malabaristas, que jogavam bola como quem dança.
Por sorte, a Itália não precisou passar a vergonha de perder para uma trupe de artistas circenses e pretos ainda por cima e mostrou pro mundo que bom mesmo era o fascismo, mas Leônidas com seu futebol dançado tinha acabado de inventar o Brasil, muito embora sua capital ainda fosse Buenos Aires, sua segunda contribuição de vulto para o mundo, tendo sido a primeira a invenção da bicicleta, e Carmen Miranda cantava Paris, je t’aime, mas eu gosto muito mais do Leme e remexia os quadris para lá e para cá e Getúlio Vargas emitia o RG da pátria, cujos pais eram o samba e o futebol: uma mulher que requebra com uma fruteira empoleirada na cabeça e um homem de calções que corre de pés descalços e enlameados.
Mestre Coqueiro que era espetado e alto como a árvore que lhe serviu de alcunha, me ensinou que o capoeira quando finta tem que acreditar que vai, senão a finta não cola. Daku me reensinou que o um pra cá, um pra lá do forró é um passo que vai e finge que vai. A palhaça Ella me mostrou numa praça de Manaus que todo gesto se faz de corpo inteiro. Penso que afinal seja tudo a mesma coisa, que a dancinha não seja o grande mal do futebol brasileiro de hoje, mas reclamar é coisa velha e já é velho dizer que o brasileiro é um povo que ginga e que o futebol e que a identidade nacional e que o tropicalismo e eu já ando tão cansado de caricaturas e não acho que a solução seja adotar o rigor militar no nosso escrete, tampouco botar uma fruteira em cima da cabeça, tampouco fugir para o Uruguai, mas não tenho resposta e me limito a tirar a poeira da garganta com um trago.
O Cruzeiro levou de dois do Boca num jogo que diz que foi roubado, mas eu não vi, não houve festa e as contas do bar se fecharam mais cedo. Muito embora eu torça pelo Atlético e não consiga compreender tão bem essa outra metade de Minas, não deixa de ser triste de ver uma raposa amuada.

