
A concretização do erro na mitologia brasileira
O Apóstolo João deve ter ficado com uma pontinha de "eu avisei" quando as pessoas pareceram não dar tanta razão para seu evangelho. Mal sabia ele das desventuras de se escrever sobre um mito de fundação... Ou talvez soubesse, mas preferiu mesmo assim tentar ilustrar a real materialidade das coisas, ao invés de pontuar diretamente a imaterialidade daquilo que vemos. Coitado do João! E eu, que ainda não me chamo João, vou tentar explicar de novo. Por isso peço uma modesta licença, antes de apresentar o verdadeiro tema desse texto.
Em São Paulo acabei por ter mais convicção de que não será pelo viés científico que se salvará o futebol. Afinal, algumas pessoas ainda discutem o lance ilustrativo acima como se fosse possível encontrar o real problema. Será que o juiz acertou? Será que ele errou? A resposta não interessa. Interessa muito menos ainda a discussão sobre o VAR. Será que ele vai acabar com os erros? Cadê aqueles 99,3% de acertos? Para piorar, pode-se argumentar que esse lance talvez conste entre os 0,7% de erros humanos, resguardando, assim, a ferramenta. Porém, mais uma vez, a resposta não interessa.
O que talvez interesse mais é olhar para outros lugares.
Juca Kfouri, por exemplo, um de nossos concorrentes no mercado de Blogs, foi conciso: "O duro no futebol brasileiro é isso. É ver quem defende a lisura de procedimentos". O blogueiro e escritor e jornalista e petista se refere ao "homem forte do futebol" do Cruzeiro, Itair Machado. Parece que o tal Itair saiu reclamando justiça à CONMEBOL, tudo com uma pitada de propagandinha. Logo ele, um dos responsáveis por trazer Gerson Magrão para o Cruzeiro. Contudo é Juca quem fala em justiça. Em seu pequeno Blog, quase tão pequeno quanto esse, Juca (ou João) reconhece a contradição dos injustos que cobram por justiça elegendo ainda mais injustos para postos de juízo.
O que mais me enraivesse é saber que no fundo a gente não pode nem falar sobre isso. Porque quando se fala em "domínio de pauta" é falar também que, ao criticarmos, normalmente criticamos a coisa errada. Seria como falar que o brasileirx não pode demorar mais cinco minutos no mimo do banho quente porque o Brasil não tem mais água, e simplesmente ignorar os impactos da agropecuária. Toda a conjuntura é desprezada pela maioria na medida em que se põe os holofotes sobre alguma âncora qualquer. Nesse caso, nem ao menos é a injustiça o maior problema, e sim os afetados. Podemos não entender a totalidade da conjuntura que levou propriamente a utilização do VAR para a maneira que é utilizada, por outro lado não podemos nos esquivar da realidade que é o balde de água fria que sempre é jogado sobre um pobre coitado. No exemplo da água, é sempre o pobre quem sofre, e, no do futebol, o torcedor.
E o VAR, de herói a vilão, continua sendo o tema, sendo a pauta. Nunca é demais reafirmar, para esclarecer, que a utilização da ferramenta não muda em nada os problemas do esporte. Pois existe uma vergonha interna que impede qualquer um ali dentro de exercer quaisquer tipo de justiça. Infelizmente, os verdadeiros prejudicados acabam sendo os torcedores. Não que eles sejam completamente inocentes, mas torcedor é um coisa tão sofrida, tão coitada, que é ele quem sempre chora.

Estudiantes de La Plata, mais um time argentino que põe luz sobre problemas no Cruzeiro
Por isso o futebol mexe com a gente de um jeito pessoal. E não é de se espantar que as pessoas se agarrem nas primeiras coisas que aparecem - para o bem e para o mal. E é só falar de Gerson Magrão que me vem à memória a Libertadores de 2009, e como nessa competição uma parte de mim morreu. Provavelmente aquela parte de mim que torcia. Morreu em mim o torcedor cruzeirense nessa Libertadores que acreditava que o mundo poderia ser mais bonito se você acreditasse muito em uma coisa. Provavelmente por isso não bateu tanto os 7 a 1 do alemão, já que havia um outro 7 a 1 marcado no Mineirão, só que na forma de 2 a 1, muito mais sofrido, feito por um argentino.
O real tema do texto repousa um pouco no resultado desses 2 a 1. A de que esses problemas extracampos, por vezes espelhados nas instituições que compõem as regras, e por vezes naquelas instituições que participam dos torneis, influenciam negativamente na paixão que a pessoa tem pela vida. Não é de se admirar, portanto, que o torcedor, assim como em vários outros núcleos da sociedade, acabe desesperado. Há um grande acontecimento, que escapa às nossas mãos, que nos fazem chorar. De um jeito muito esquisito, esse sofrimento, porém, acaba sendo reconfortante. Porque o que há de comunidade na sociedade é a comunidade do sofrimento. São os que, retirados de seus locais de conforto, acabam simpatizando-se com outros, na mesma situação. O futebol, em certa medida, funciona assim. Mesmo que ele divida os torcedores em bandeiras, ainda assim uma coisa boa ele faz, que é unir todo mundo nessa comunidade de sofrimento que torce.
Não era meu intuito realizar todo um exercício retórico para se alcançar esse momento. Por vezes o texto acaba tomando uma certa vida e se emancipando das mãos do próprio escritor. E toda uma variedade de informações que gostaríamos de pontuar pulam à frente de temas mais importantes, como o presente mês que vivemos. Desde um acréscimo à discussão sobre o VAR, continuando por um texto de xingamento aos líderes das instituições do esporte que se posicionam tão desesperadamente frente às câmeras para popularizar discursos contraditórios, passando, ainda, por um guia do torcedor menos tóxico, ou até o que eu gostaria que esse texto fosse. Isto é, um texto sobre a vida. No final, sai alguma coisa meio sem forma, e aparentemente sem propósito. Mas, assim espero, muito bonita de se ver, parecida mesmo com a vida.
Tive uma certa dificuldade em encontrar menções envolvendo o futebol e o Setembro Amarelo, campanha filantrópica realizada em conjunto pelo Centro de Valorização da Vida (CVV), o Conselho Federal de Medicina (CFM) e a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) que visa a prevenção do suicídio e apoio das pessoas em estado de risco. A coisa mais significativa que encontrei foi a adesão do Ceará Sporting Club que, no dia 15 de setembro, entrou em campo contra o Vitória para divulgar e espalhar a ação. Se qualquer outra coisa me escapou, peço desculpas. Mas o Everson, já citado aqui no blog em outro texto, já me é suficiente para falar sobre isso.

No dia 15 de setembro de 2019, o goleiro Éverson entrou em campo com o número 188, número nacional de atendimento via telefone para o combate ao suicídio
E a grande tentativa de encerrar esse texto que já está grande demais é tentar demonstrar que o mundo sim está cheio de contradições. Na maioria das vezes não nos parece haver nenhum meio para o qual possamos escapar. Seja no futebol, esporte repleto de pessoas mal intencionadas ou acontecimentos que marcam o torcedor dramaticamente, seja ainda na política, em que há pessoas que disseminam discursos de ódios, condenando o futuro de um país, ou seja em âmbito familiar, local por vezes incapaz de oferecer a segurança presumida para cada um. E mesmo assim continuamos, porque a vida continua.
Ainda sim persistimos!
E é essa mensagem que, com a vida, continua, pois enquanto optarmos por ela estaremos optando pela resistência. E se o leitor me deu o prazer de continuar até aqui ele vai saber que tudo isso teve um propósito. E vai saber que frente aos problemas mais complicados existe sempre alguma alternativa, basta olhar com perspectiva. E vai saber que, quando sofremos, não sofremos sozinhos, porque existe um grande senso de comunidade nesse sofrimento. E vai saber que até nas memórias mais tristes de nossas vidas repousa uma promessa de superação, mesmo quando não a vemos. Que quando pensamos estar mortas algumas partes de nós mesmos é quando nos vemos preparados para ajudar os outros a não se sentirem da mesma maneira que nos sentimos. E vai saber que o abraço amigo vale muito mais que qualquer rasteira da vida. E vai saber que sempre haverá quem chore por nós.
Caso não seja você que esteja em dificuldade, ofereça-se aos seus amigos. A primeira coisa que o que próximo precisa é ser ouvido.
No mais, estou à disposição! Venham falar comigo!
Em São Paulo acabei por ter mais convicção de que não será pelo viés científico que se salvará o futebol. Afinal, algumas pessoas ainda discutem o lance ilustrativo acima como se fosse possível encontrar o real problema. Será que o juiz acertou? Será que ele errou? A resposta não interessa. Interessa muito menos ainda a discussão sobre o VAR. Será que ele vai acabar com os erros? Cadê aqueles 99,3% de acertos? Para piorar, pode-se argumentar que esse lance talvez conste entre os 0,7% de erros humanos, resguardando, assim, a ferramenta. Porém, mais uma vez, a resposta não interessa.
O que talvez interesse mais é olhar para outros lugares.
Juca Kfouri, por exemplo, um de nossos concorrentes no mercado de Blogs, foi conciso: "O duro no futebol brasileiro é isso. É ver quem defende a lisura de procedimentos". O blogueiro e escritor e jornalista e petista se refere ao "homem forte do futebol" do Cruzeiro, Itair Machado. Parece que o tal Itair saiu reclamando justiça à CONMEBOL, tudo com uma pitada de propagandinha. Logo ele, um dos responsáveis por trazer Gerson Magrão para o Cruzeiro. Contudo é Juca quem fala em justiça. Em seu pequeno Blog, quase tão pequeno quanto esse, Juca (ou João) reconhece a contradição dos injustos que cobram por justiça elegendo ainda mais injustos para postos de juízo.
O que mais me enraivesse é saber que no fundo a gente não pode nem falar sobre isso. Porque quando se fala em "domínio de pauta" é falar também que, ao criticarmos, normalmente criticamos a coisa errada. Seria como falar que o brasileirx não pode demorar mais cinco minutos no mimo do banho quente porque o Brasil não tem mais água, e simplesmente ignorar os impactos da agropecuária. Toda a conjuntura é desprezada pela maioria na medida em que se põe os holofotes sobre alguma âncora qualquer. Nesse caso, nem ao menos é a injustiça o maior problema, e sim os afetados. Podemos não entender a totalidade da conjuntura que levou propriamente a utilização do VAR para a maneira que é utilizada, por outro lado não podemos nos esquivar da realidade que é o balde de água fria que sempre é jogado sobre um pobre coitado. No exemplo da água, é sempre o pobre quem sofre, e, no do futebol, o torcedor.
E o VAR, de herói a vilão, continua sendo o tema, sendo a pauta. Nunca é demais reafirmar, para esclarecer, que a utilização da ferramenta não muda em nada os problemas do esporte. Pois existe uma vergonha interna que impede qualquer um ali dentro de exercer quaisquer tipo de justiça. Infelizmente, os verdadeiros prejudicados acabam sendo os torcedores. Não que eles sejam completamente inocentes, mas torcedor é um coisa tão sofrida, tão coitada, que é ele quem sempre chora.

Estudiantes de La Plata, mais um time argentino que põe luz sobre problemas no Cruzeiro
Por isso o futebol mexe com a gente de um jeito pessoal. E não é de se espantar que as pessoas se agarrem nas primeiras coisas que aparecem - para o bem e para o mal. E é só falar de Gerson Magrão que me vem à memória a Libertadores de 2009, e como nessa competição uma parte de mim morreu. Provavelmente aquela parte de mim que torcia. Morreu em mim o torcedor cruzeirense nessa Libertadores que acreditava que o mundo poderia ser mais bonito se você acreditasse muito em uma coisa. Provavelmente por isso não bateu tanto os 7 a 1 do alemão, já que havia um outro 7 a 1 marcado no Mineirão, só que na forma de 2 a 1, muito mais sofrido, feito por um argentino.
Teorias e complexos conspiratórios fizeram com que os cruzeirenses procurassem por justificativas para o desencanto da final. E a discussão relativa ao recebimento, por parte do elenco do Cruzeiro, do montante arrecadado pelos 65 mil presentes no estádio para o segundo jogo, foi o maior alvo. Na época eu confesso que me importei. Hoje olho pra trás e vejo que, mais uma vez, nada importa. A verdade é que o Cruzeiro perdeu em campo, o torcedor sofreu em casa, e essa parte de mim morreu. E o que restou foi catapultado para outro lugar, com outro posicionamento, que tenta ver na memória e no presente uma lição de vida, ao mesmo tempo que se encontra mais maduro para os outros desafios.
O real tema do texto repousa um pouco no resultado desses 2 a 1. A de que esses problemas extracampos, por vezes espelhados nas instituições que compõem as regras, e por vezes naquelas instituições que participam dos torneis, influenciam negativamente na paixão que a pessoa tem pela vida. Não é de se admirar, portanto, que o torcedor, assim como em vários outros núcleos da sociedade, acabe desesperado. Há um grande acontecimento, que escapa às nossas mãos, que nos fazem chorar. De um jeito muito esquisito, esse sofrimento, porém, acaba sendo reconfortante. Porque o que há de comunidade na sociedade é a comunidade do sofrimento. São os que, retirados de seus locais de conforto, acabam simpatizando-se com outros, na mesma situação. O futebol, em certa medida, funciona assim. Mesmo que ele divida os torcedores em bandeiras, ainda assim uma coisa boa ele faz, que é unir todo mundo nessa comunidade de sofrimento que torce.

Independente de tudo, a vida é uma coisa muito bonita, até nos momentos mais tristes
Não era meu intuito realizar todo um exercício retórico para se alcançar esse momento. Por vezes o texto acaba tomando uma certa vida e se emancipando das mãos do próprio escritor. E toda uma variedade de informações que gostaríamos de pontuar pulam à frente de temas mais importantes, como o presente mês que vivemos. Desde um acréscimo à discussão sobre o VAR, continuando por um texto de xingamento aos líderes das instituições do esporte que se posicionam tão desesperadamente frente às câmeras para popularizar discursos contraditórios, passando, ainda, por um guia do torcedor menos tóxico, ou até o que eu gostaria que esse texto fosse. Isto é, um texto sobre a vida. No final, sai alguma coisa meio sem forma, e aparentemente sem propósito. Mas, assim espero, muito bonita de se ver, parecida mesmo com a vida.
Tive uma certa dificuldade em encontrar menções envolvendo o futebol e o Setembro Amarelo, campanha filantrópica realizada em conjunto pelo Centro de Valorização da Vida (CVV), o Conselho Federal de Medicina (CFM) e a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) que visa a prevenção do suicídio e apoio das pessoas em estado de risco. A coisa mais significativa que encontrei foi a adesão do Ceará Sporting Club que, no dia 15 de setembro, entrou em campo contra o Vitória para divulgar e espalhar a ação. Se qualquer outra coisa me escapou, peço desculpas. Mas o Everson, já citado aqui no blog em outro texto, já me é suficiente para falar sobre isso.
No dia 15 de setembro de 2019, o goleiro Éverson entrou em campo com o número 188, número nacional de atendimento via telefone para o combate ao suicídio
Ainda sim persistimos!
E é essa mensagem que, com a vida, continua, pois enquanto optarmos por ela estaremos optando pela resistência. E se o leitor me deu o prazer de continuar até aqui ele vai saber que tudo isso teve um propósito. E vai saber que frente aos problemas mais complicados existe sempre alguma alternativa, basta olhar com perspectiva. E vai saber que, quando sofremos, não sofremos sozinhos, porque existe um grande senso de comunidade nesse sofrimento. E vai saber que até nas memórias mais tristes de nossas vidas repousa uma promessa de superação, mesmo quando não a vemos. Que quando pensamos estar mortas algumas partes de nós mesmos é quando nos vemos preparados para ajudar os outros a não se sentirem da mesma maneira que nos sentimos. E vai saber que o abraço amigo vale muito mais que qualquer rasteira da vida. E vai saber que sempre haverá quem chore por nós.
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Caso você se encontre em qualquer dificuldade, procure ajuda!
O número 188 funciona em qualquer lugar do Brasil. É só ligar.
O site do CVV também oferece outros meios para assistência, como chats, conferências por vídeos, emails e muito mais.
(https://www.cvv.org.br/o-cvv/)
Várias faculdades, como a UFMG, oferecem também esses meios de auxílio.O número 188 funciona em qualquer lugar do Brasil. É só ligar.
O site do CVV também oferece outros meios para assistência, como chats, conferências por vídeos, emails e muito mais.
(https://www.cvv.org.br/o-cvv/)
Caso não seja você que esteja em dificuldade, ofereça-se aos seus amigos. A primeira coisa que o que próximo precisa é ser ouvido.
No mais, estou à disposição! Venham falar comigo!