Em dias de clássico, o futebol deixa, mais ainda, de ser só esporte. O dia 09 de setembro foi um desses dias. Palmeiras ganhou do Corinthians; Fluminense, do Botafogo; e Inter ganhou do Grêmio. Todos pelo mesmo resultado: 1 a 0. Eu poderia me deter em análises de toda natureza e tamanho sobre o significado dessa coincidência, mas estaria sendo insensível ao fazê-lo. Respeitemos o luto dos corintianos, dos botafoguenses e dos gremistas. O texto de hoje, de qualquer forma, é um pouco sobre perder.
No dia 10 de setembro, dia sem clássico, como uma segunda-feira deve ser, dei de cara com essa lembrança do Facebook:
Futebol desgraçado… Naquele ano, eu, Vitor, Daniel, Lucas, Henrique e outros amigos nos infligimos o martírio de jogar futebol toda semana. Na semana daquele dia 09 de setembro – não me lembro se havia algum clássico – o Marcelo participou pela primeira vez da nossa pelada.
Nós não jogamos o futebol melhor do que o analisamos. Mas nos divertimos fazendo os dois. A verdade é que estamos aqui, assim como estávamos na quadra aos fins de semana de 2013, para desgraçar o futebol, como bem caracterizou o Marcelo. Não é apenas um esporte, certo? Para nós, talvez, não fosse sequer um esporte.
Os tempos eram outros. Mas algo me diz que muito do que vivo hoje decorre daquele ano. Para me ater ao óbvio ululante, em 2013, houve manifestações. Algumas coisas foram quebradas, algumas bombas de efeito moral foram jogadas na gente. A política mudou de rumo. E era tempo de futebol. O desgraçado do futebol estava lá. Desde então, o Brasil desperdiçou duas Copas e uma eleição. Hoje, dos dois candidatos favoritos à presidência, um está preso e outro tomou uma facada.
Já o Marcelo, hoje, apesar do que foi dito na postagem recuperada, consegue se mover como um ser humano dotado de mobilidade. Tanto que ele foi para longe de mim. Está lá no Ceará; eu, cá em Belo Horizonte. Aliás, o América, daqui, empatou em zero a zero com o Ceará nesta rodada de clássicos. Deve ter sido um péssimo jogo – deus me livre de tê-lo assistido. Mas poderia ter sido uma ótima desculpa para matar as saudades do amigo. Fossemos nós dois menos nós mesmos e eu poderia ligar para ele e dizer “e seu Ceará, hein?”, esquecendo-me propositalmente de que ele é cruzeirense como eu, “que baba esse time! Empatar com o América?!”. E eu poderia usar isso para dizer que o Ceará é ruim, que é uma má ideia, que o nosso Cruzeiro está aqui em Belo Horizonte e que Belo Horizonte é que é bom, porque aqui é a nossa cidade, a cidade dos nossos textos, dos nossos copos de cerveja, das nossas limitações, da nossa humanidade.
Mas eu e meus amigos padecemos de todos os males que nos fazem sermos nós mesmos. E, por isso mesmo, eu não ousaria usar o futebol como desculpa para meus sentimentos. Não há desculpas para as coisas que a gente sente. Especialmente a saudade.
O futebol está aí, esse desgraçado. No mesmo lugar em que estão os sentimentos, e não como desculpa para expressá-los. Talvez como desculpa para escrevê-los, apenas.
Está tudo bem com ele, está tudo bem comigo, apesar do 1 a 0.
