Estava lendo os contos de Kenzaburo Oe no conhecido trajeto que faço da faculdade até meu estágio. O percurso inclui dois ônibus e uma baldeação entre as linhas amarela e azul do metrô e tem duração média de uma hora e vinte minutos, tempo habitualmente preenchido com leituras de textos teóricos e discos de música instrumental. Era um dia atípico, fazia muito calor e não deveria, meu corpo demonstrava sinais de tempo seco e uma leve dor de cabeça ia aos poucos se instalando na parte direita do meu crânio. O conto em questão falava novamente de morte e cadáveres, temas que parecem ser muito apreciados pelo autor.
Pequenas gotas vermelhas caem sobre as páginas brancas, interrompendo minha leitura pelo forte cheiro de ferrugem. O movimento que leva minhas mãos ao nariz é instantâneo e confirma que se trata do meu próprio sangue escorrendo pelas narinas. Minha avó costumava me ajudar a estancar o sangue nessas ocasiões e ralhava que era um grande azar ter veias finas. Nunca entendi muito bem o que ela queria dizer. Sigo seus passos novamente: inclinar a cabeça para que o sangue volte de onde veio; limpar com papel higiênico o resto de sangue; e, se possível, molhar a nuca e as narinas.
No vagão do metrô ninguém parece me notar. O processo de estancar o sangue dura três estações e quando volto minha cabeça a sua posição normal não é perceptível nenhum rastro do líquido, exceto pelas manchas de sangue seco nas páginas. O sangue chama minha atenção para uma nota de rodapé que mencionava 万延元年のフットボール ( Man'en Gannen no Futtoboru, sem tradução para o português), romance que rendeu a Kenzaburo Oe o prêmio literário Junichiro Tanizaki. No enredo, um homem chamado Takashi começa a organizar os jovens de seu vilarejo para uma rebelião contra o Imperador. Inicialmente, Takashi treina seu grupo como um time de futebol. Marco o número da página nas notas do celular apenas por precaução (sei que meu sangue já está cumprindo esse papel) e penso no texto sobre futebol que preciso escrever para a próxima semana.
Penso também em sangue. Me vêm à memória a passagem de Clarice em “Perdoando Deus”: “Não sou pessoa que precise ser lembrada de que dentro de tudo há o sangue. Não só não esqueço o sangue de dentro como eu o admiro e o quero, sou demais o sangue para esquecer o sangue”. Ainda acho que esse é dos contos mais bonitos do mundo e se me pegam num dia ruim sou capaz de chorar só de pensar nele. Não é um dia ruim e não há choro, existe apenas o sangue.
Pulemos para o domingo porque já escrevi quatro longos parágrafos e ainda não falei sobre o que interessa. É dia de São Paulo e Fluminense pelo Brasileirão. A tarde é lenta, ensolarada e muito propícia para uma cerveja gelada, mais ainda para assistir um jogo de futebol no boteco da rua. O boteco da rua tem duas mesas de plástico vermelhas, algumas cadeiras sempre ocupadas por homens de meia-idade ligeiramente calvos e uma enorme TV onde são assistidos os jogos de futebol. Em uma das paredes está pendurada uma enorme bandeira do São Paulo. Da janela da sala tenho uma visão privilegiada de tudo que ali acontece.
Acompanho o jogo com o volume desligado para não tirar minha concentração da tarefa ingrata de estudar japonês para a prova. Da janela vejo uma movimentação alegre de cadeiras, copos e garrafas de cerveja. O dono do bar exibe alegre sua camisa do São Paulo. Ao passo que os exercícios de memorização de kanjis vão se complicando o jogo vai sendo esquecido. Não acompanho nenhum dos dois gols feitos durante a partida.
Minha concentração é interrompida por sons que anunciam alguma confusão. Ouço gritaria, barulho de garrafa estilhaçada e cadeira de plástico sendo arremessada ao chão. É coisa de briga de bar. Da janela vejo que um homem sangra pelo nariz com as mãos cobrindo o rosto. Do lado oposto, um homem vestido com a camisa do São Paulo gesticula, grita e ameaça enquanto está sendo detido por outros três homens. Uma discussão sobre futebol regada à álcool e temperamentos explosivos acaba em briga e um homem sangra pelo nariz do outro lado da rua.
Observo o homem que sangra sendo socorrido com toalhas e gelo. Ele segue o mesmo protocolo de tratamentos de minha avó, um pouco mais desajeitado, provavelmente por causa da dor. As manchas de sangue em sua camiseta branca me lembram as gotas de sangue seco em meu livro.
O acontecimento que atravessa meu domingo sem pedir licença me lembra a primeira experiência em estádio para assistir Santos e Corinthians no Pacaembu. Torcida única, o mando do jogo é do Santos. Nunca vou me esquecer do silêncio sepulcral que sucedeu o gol do Corinthians e que rendeu uma série de xingamentos explosivos por parte da torcida. Também não consigo esquecer a explosão de sentimentos que presenciei depois do gol do Santos. Meu amigo santista sendo abraçado por um desconhecido, comemorando. E eu ali sem entender muito bem, estática enquanto todos vibravam e gritavam.
Aquele momento criou um fascínio. As únicas vezes que chorei assistindo uma partida de futebol foram em momentos que a torcida estava sob os holofotes. Não há outra explicação para meu choro ao assistir a final do Mundial de Clubes de 2012 que não seja o fascínio pela explosão de sentimentos da torcida.
Logo eu, ensinada desde pequena a conter meus sentimentos, não chorar em público, não gritar, não xingar, não brigar. O fascínio tem uma ponta de inveja, desejo de ser aquele que chora, grita, briga, sofre, sente. Me fascina o torcedor de futebol porque sei que nunca serei como ele. O que me resta é observar tudo e achar bonito depois. Eu gostaria de sentir o sangue subindo à cabeça mais vezes. Eu gostaria de explodir em um turbilhão de sentimentos.
Eu gostaria de ser mais o sangue para não esquecê-lo.
