Envelhecer, mesmo que dentro de um corpo que aparenta ser jovem, transporta o tempo da cabeça, tão passada, apesar do pouco envelhecimento, para cenários um tanto distantes – já inabitados, sem o conveniente (pelo menos caro à escrita) cheiro do mofo, tato do pé ou visão fotográfica daquilo que um dia foi casa.
A lembrança não cheira à nada, não toca nem afeta e não posso nem dizer muito da ruína que agora é a casa. Pode-se fingir qualquer coisa quando se escreve, mas a casa continua sendo aquilo que era – concreto. E se persiste na memória como ruína é só por capricho de quem assim a descreve – a casa é além-memória, potente, muito maior do que aquilo que me edifica, tem endereço fixo na rua com nome santo, criou raízes; eu, nem tanto.
A casa é cheia de cômodos em que se apertam camas e sofás nos quartos – esses não interessam à lembrança, por isso, começo a passear pelo cômodos de trás para frente. (Na minha casa, uma outra, havia um rebobinador de fitas-cassetes que eu adorava usar só para ouvir o barulho que tem o caminho do final para o começo.) O trajeto que eu percorro pela casa tem esse som. Dos quartos até a sala, não há corredores, então, se eu abrir a porta, dou de cara com a mesa da sala-estar-de-jantar, ela é grande, oval e parece poder acolher qualquer um que queira sentar e comer da comida que é servida. Come-se muito nessa casa, no entanto, ainda que eu me lembre do gosto de um tempero específico que sempre se coloca nessas comidas eu não sei mais que nome ele tem e também não me sinto à vontade para puxar nenhuma cadeira ou sentar nos sofás de couro vagabundo.
Abro mais uma porta então e já encontro a saída. Antes, porém, de alcançar o portão, que é o começo do começo, paro numa varanda.
Para minha surpresa, estou ali, congelada, aparento uma criança de dez anos de idade, mas não é como se fizesse parte do cenário de concreto. Se eu fosse dada à exatidão das palavras, seria correto dizer que estou ali como um espectro; por outro lado, a imagem da roseira sem cheiro parece ter a exatidão de coisa viva. E como coisa viva que é, a lembrança se reconstrói ainda que sem perfume de flor.
O portão de entrada é o mesmo portão de saída – essa é a explicação da sentida familiaridade com a varanda e com a rosa. Por algum motivo, mesmo passadas duas décadas, não foram raras as vezes em que desviei o caminho que me levava de qualquer bar para minha casa e dirigi devagarzinho pelo suave morro que tem a rua santa que eu descia em ponto morto, sem marcha, sem intenção e estacionava na frente do portão de entrada dessa casa em que agora eu não podia mais entrar.
Estacionada, eu podia ver de longe e melhor a imagem da varanda. Um dia, entre a porta e portão, esse lugar do afeto, ganhei, às pressas, do meu avô uma camisa do Galo. A camisa era gigante, acho que porque, dadas às condições, meu avô não tinha muita noção do meu tamanho de criança de dez anos, até grandinha para idade, mas definitivamente pequena diante da blusa.
Verdade seja dita, a camisa não era para mim e sim pensada para um primo mais velho. Acontece que, como neta, eu tinha também o direito ao legado. Recebi com agradecimento para não desagradar o meu avô, e especialmente agradar o meu pai, mas saí pelo portão naquele dia chateada – ganhei a herança, mas ela não me servia. E como eu desejei que ela me coubesse. Não tem ruína que desfaça da minha lembrança os sons dos gritos cada vez que o Galo ganhava um jogo – a casa era muito apertada e o som era ainda mais alto quando misturado ao latido dos cachorros, não sei se assustados ou comemorando a vitória daquele que também deveria ser o time deles. Gritos de homens, mulheres, crianças, cachorros quase chegavam a abafar o rádio sintonizado na Itatiaia que meu avô sempre ouvia de dentro de um dos quartos, adiantando o grito de gol do restante da família que assistia pela televisão. Todavia, como não me cabia a camisa, eu abria a porta e me sentava na varanda.
Era chato. E era muito mais chato ouvir aquela felicidade barulhenta. Então, porque o barulho me incomoda muito, eu ligo o carro e acelero. Despeço-me do meu avô, agradeço o presente e vou para casa rebobinar algum filme.
É possível que eu encoste mais algumas vezes o meu carro naquela rua. Mas a camisa, essa eu nunca usei. Depois de muito pensar o que eu faria com ela, dei a um primo mais velho que, com certeza, fez melhor proveito do legado. Era camisa de craque, do Marques, qualquer criança grande no final do anos 90 ficaria feliz de vestir o manto preto e branco. Santo, como o nome da rua. Não vou confessar o nome do santo, só posso dizer, por ora, que ele, mesmo não sendo artilheiro como Marques, foi canonizado pelo seu dom de enxergar o passado e o futuro e de curar doentes – quase sempre crianças desenganadas. Como não podia ser diferente, a vida cansativa fez o santo morrer de fadiga.
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| Em Pé: Taffarel, Sandro Barbosa, Sandro, Hernani, Bruno e Edgard. Agachados: Dedé, Valdir Bigode, Jorginho, Marques e Doriva. |
Talvez por causa da semelhança com o santo, não posso negar que sempre admirei o torcedor do Galo – insistente até morrer de fadiga. Esquecendo o passado, já em chão firme e estacionada em qualquer trânsito da rua das seis horas em Beagá, ouço que os torcedores do Galo lotaram o Independência, mesmo depois de o time ter perdido para o Corinthians. Perde-se um jogo, ganha-se outro. Não sei se pela fadiga ou pelo dom da insistência, o Galo venceu o jogo contra o São Paulo, um gol só, é verdade. Será que se ouvem muitos gritos na casa?
O fato é que pouco me interessa o som da lembrança: tomei birra do Galo, da rosa, do começo do meu começo e até torci para o time rival de pirraça. Não dizem por aí que santo de casa não faz milagre? Não enxergo futuro e a minha criança não foi curada – tá ali, sentada na varanda, congelada. E se o trânsito não tivesse, finalmente, andado, eu poderia ter lembrado agora dum poema do Bandeira por completo. Mas o fluxo segue e só tenho tempo para alguns versos que eu, de pirraça, manobro para um novo arranjo que me interessa:
“A casa de meu avô...
Nunca pensei que ela acabasse!
Tudo lá parecia impregnado de eternidade
Meu avô morto.
como a casa de meu avô.”

