segunda-feira, 12 de novembro de 2018

As guerras esquecidas


 Nemanja Matic, à esquerda

Os conflitos da Primeira Guerra Mundial acabaram exatos cem anos atrás, no dia 11 de novembro de 1918, com a assinatura do Armistício de Compiègne pelos Aliados e pela Alemanha. O documento oficializava o fim do combate na terra, no mar e no ar. Com isso, desde 1921 os cidadãos dos territórios britânicos usam os “poppies” – um broche vermelho em forma de papoula – pra honrar os membros das forças armadas que morreram em serviço, número que ultrapassa um milhão. Em todos os anos, desde então, a homenagem se prolonga por dias durante o mês de novembro, até o Remembrance Day, que em 2018 foi um domingo.

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Quando o vilarejo sérvio de Vrelo foi bombardeado em 1999, numa ofensiva da OTAN pra expulsar forças sérvias do Kosovo, Nemanja Matic tinha 12 anos. Esse foi um dos episódios da Guerra Civil Iugoslava, uma sequência de conflitos armados que aconteceram na antiga Iugoslávia, cujo objetivo, entre outros, era a formação de um estado sérvio. Quase todos os crimes de guerra foram cometidos, como limpeza étnica, crimes contra a humanidade e estupro. O Reino Unido é membro da OTAN desde 1949.

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Quando James McClean era um garoto em Derry, Irlanda do Norte, também por volta de 1999, ele ouvia histórias sobre as seis pessoas que viviam no seu bairro e haviam sido mortas no Domingo Sangrento, em 30 de janeiro de 1972, aquele mesmo de "Sunday Bloody Sunday", do U2. Nesse dia, o Exército Inglês atirou em católicos e protestantes desarmados que manifestavam contra a mania do Governo Britânico de prender cidadãos suspeitos de terrorismo sem julgamento e contra as diferenças religiosas em seu país. Catorze pessoas morreram. A Irlanda do Norte faz parte do Reino Unido desde 1921, quando foi fundado o estado após a separação do que se tornaria a República da Irlanda.

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Nos últimos anos, as ligas profissionais inglesas de futebol adotaram o uso dos poppies no uniforme dos clubes pra lembrar os mortos, mas não sem causar constrangimento entre os jogadores que discordam da prática. Matic, do Manchester United, e McClean, do Stoke City, não usam o broche e tiveram de se justificar publicamente depois de repreensão pela imprensa e ameaças por parte dos torcedores dos próprios clubes em que jogam. Com os motivos explícitos revelados pelos atletas, fica implícito que eles enxergam no poppy a desapropriação de um ato genuíno por políticos britânicos do presente que impulsionaram guerras no Afeganistão, no Iraque ou na Síria, por exemplo. Antes disso, óbvio, estão as experiências dos dois jogadores, que viram de frente o gosto por guerra do país que criou o futebol.
 
James McClean, à esquerda

Matic e McClean não falharam em prestar respeito aos mortos da Primeira Guerra mesmo sem usar o poppy. Do outro lado, o Reino Unido também não falhou em violar o direito à vida desses jogadores e de tantos outros sérvios, irlandeses e cidadãos de outras nações ao longo dos últimos cem anos. Quando o apocalipse se torna prioridade e é guerra o que se deseja, é preciso encarar as consequências e não as deixar pra caridade ou homenagens póstumas. Não existe lado certo na guerra, mas nos tempos de paz também é necessário lembrar dos mortos no outro lado da trincheira.

Aqui no Brasil, domingo foi dia de prova II do Enem e nenhum brasileiro recebeu homenagem por ter morrido na Primeira Guerra. Eu, que não tenho nada que ver guerras mundiais e Reino Unido, não usei o poppy. Eu não gosto de guerra nem de forças armadas, mas gosto de futebol e de U2. Nunca duvidei da força social que move esse esporte e acredito que ele seja lugar pra expressão de todos os pontos de vista que interessem às comunidades local e global.

Na Inglaterra, o grito silencioso de dois jogadores – que não foram os únicos – foi ouvido de longe e incomodou. Incomodou porque guerras esquecidas foram lembradas a uma nação cujo patriotismo exacerbado promoveu a separação do resto da Europa, o que faz com que eu me pergunte quando vão lançar o broche em homenagem à sensatez soberana britânica.

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Matic entrou em campo nesse domingo, e seu time perdeu o clássico de Manchester por 3 a 1. O Stoke City de McClean jogou sábado contra o Nottingham Forest e não saiu do 0 a 0. Mais uma vez eles não usaram o broche.