sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Elogio à teimosia


Mil vezes a derrota dos teimosos à vitória dos embusteiros. Só mesmo vacilão pra tomar o lado de certos vitoriosos, e não faltam casos que deem conta disso na história dessa nossa terrinha sofrida. Eu poderia narrar aqui a fibra dos sertanejos que preferiram acabar cravados de petardos e soterrados pelos escombros da sua comuna evangélica em Canudos a levar desaforo dos graúdos, ou o atrevimento de Zumbi no cerco derradeiro ao quilombo de Palmares que, não se sabe se por conhecimento de causa ou intuição de gênio, imitou a estratégia empregada por outro escravo insurgido dezessete séculos antes dele, contra o general romano Caio Clódio. Encurralados no monte Vesúvio, Espartaco e sua galera improvisaram um rapel com as cordas de que dispunham, arrodearam o despenhadeiro, subiram por trás dos inimigos e cobriram eles de porrada. Zumbi não teve a mesma sorte e os quilombolas foram lançados abismo abaixo, eu poderia até entrar a sordidez dos detalhes, mas como o blog trata é de futebol, vou contar a história da derrota que me levou a escolher a camisa do Galo. Além do mais, são tempos sinistros, a treta se assoma no horizonte e eu não quero pesar a onda de ninguém.

Em meados de sei lá quando, eu vivia de favor com uma porção de familiares aparentados por sangue e por empréstimo, espalhados por casinhas e barracões num mesmo lote, não tão longe do Mineirão, e o Galo caiu pra segunda divisão. Num desses barracões, morava meu primo Igor Galo Doido. Calculem que, além desse apelido que dispensa comentários, meu primo era conhecido na família por não vestir azul. Na época, eu fazia pouco caso do futebol, mas mesmo assim me impressionei com a atitude do meu primo: diante da derrota, Igor e Túlio, seu parceiro de camisa e de copo, prometeram ir a todos os jogos disputados em casa pelo Galo, até que ele voltasse à primeira divisão, e eu perdi a conta de quantas vezes vi os dois saírem uniformizados com a peita alvinegra e voltarem roucos e trocando as pernas. Não foram poucas as estradas que os dois pegaram pra acompanhar a campanha do time em outros estados. Enfrentaram a derrota com teimosia.


Foi também com teimosia que os times brasileiros enfrentaram a justiça seletiva do árbitro de vidro na Libertadores esse ano. Primeiro o Cruzeiro contra o Boca e depois o Grêmio contra o River. Conforme apitava a conveniência, o juiz do futuro arquivava lances duvidosos, ou interrompia suas férias pra martelar sentenças questionáveis. O Grêmio sofreu nas mãos de um juiz carcamano, como chamavam antigamente os comerciantes italianos pelas bandas do Paraná (acredito que a ascendência italiana me confira o direito de usar essa injúria), que forçou com as mãos um dos lados da balança usada pra sopesar os lances do jogo: resultou daí que carcar a mão na bola tinha um peso e penalidade diferentes pra cada time. No caso do River, carcar a mão na bola não foi sequer a julgamento; já no caso do Grêmio, foi crime punido com penalidade máxima e um gol que não foi marcado pela mão de Deus, mas com um empurrãozinho do juiz. Nem por isso o Grêmio abandonou a partida, enfrentou a injustiça com teimosia. É verdade que perdeu e foi eliminado, mas haverá outras Libertadores pra disputar, o mundo gira, vacilão roda e, mesmo quando a derrota lhe faz cara feia, a vida teima em continuar.