quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Os Daronquinho

***
ESCLARECIMENTO

DARONQUINHO (do grego vulgar Daronco + -inho, in "brasilian affective diminutives")
          Da-ron-qui-nho: Subs. Masc. Sing.

         Aquele que, em certames e jogos, faz cumprir as regras estabelecidas; árbitro, julgador; juíz. Autoridade máxima dos preceitos da moral e ordem.

***

Daronquinho 1

Antes de mais nada, vamos esclarecer uma coisa: consultei um especialista nas linguagens das ruas paulistas, o internacional Tiago Baccarin, primo da Morena Baccarin e faixa-preta em significados informais das palavras portuguesas na internet, só para trazer essa novidade. O hodierno termo vem suprir a necessidade de nomear aqueles juízes que por vezes ou parecem não dominarem totalmente as determinadas normas existentes no desporto ou então dominam muito mais do que nos deixam saber as "regras do jogo". Isto é, esclareço ainda mais, tomam algumas decisões, naqueles calorentos momentos, minimamente questionáveis, o que nos faz pensar que talvez as "regras do jogo" sejam um pouco diferentes daquelas documentadas em papéis. 

De acordo com o nosso especialista, o termo Daronquinho deriva de um monstro da arbitragem, Anderson Daronco, cujo os braços são maiores que seu currículo. Até onde consta, pelo viés popular, a nova palavra acabou se desvinculando de sua origem, tornando-se singular. Apesar disso, ainda é um excelente objeto ilustrativo para se pensar o papel dos Daronquinho nos vários jogos de diferentes níveis disputados nesse Brasilzão de Deus. Como o nosso blog é totalmente imparcial, não poderíamos afirmar, por exemplo, todo o "amor" que os palmeirenses nutrem pelo Daronco original, afinal foi ele quem em várias ocasiões prejudicou o verdão, hoje líder do Assaí. Também não podemos afirmar ser bastante questionável a inalienação seletiva de determinados juízes por aí ao condenarem alguns e caucionarem outros. Afirmaremos, todavia, que estaremos discutindo somente, e tão somente só, as ações de Daronquinho que, no limiar da verdade, transpassam algumas de suas motivações ou incapacidades de arbitragem no decorrer de suas ações. 

E não é de se espantar que quando presenciamos as ações dos juízes tomemos, por nós, certos juízos. Obviamente que tais juízos jamais seguirão totalmente desconectados da realidade, e mesmo que não sejamos inteiramente capacitados, nossos julgamentos se aproximam do que nos ensinam as regras existentes e fundamentadas, os indivíduos discricionários dotados de poderes e, para não dizerem que não sou de humanas, uma porcentagem mínima de uma praxe subjetiva e pessoal. Assim se salvaguarda o direito a sistematização de eventos populares, como o esporte, e a tentativa de se organizar essa festa, já afirmada aqui em outra oportunidade, emanada pela democratização e carnavalização popular. Salvaguarda-se também o ingrato papel da arbitragem nessas várias festas, visto que o caráter burocrático tende a diminuir diferentes pesos que porventura podem ser aplicados a uma só medida. Entretanto, é importante elucidar que há igualmente o salvaguardamento do direito ao questionamento desses poderes, pelo princípio básico de cada um que é a tentativa... Repito, a tentativa de se aperfeiçoar e minimizar injustiças. Todavia, há injustiças. E por mais que o texto sirva mais como uma evidenciação anedótica que propriamente como um discurso fundamentalmente científico, ainda assim há injustiças praticadas por injustos em posição de juízo que precisam ser discutidas. Nesse sentido, lanço mão à pergunta: quem julga os julgadores?

Daronquinho 2

A bola da vez para ser discutida é o Inter. Nessa trigésima segunda rodada do brasileirão alguns argumentaram que o colorado sagrou-se vencedor por 2 a 1 na partida contra o Atlético Paranaense por interferência direta do juiz, mas não o juiz da foto, que é o Igor Junior Benevenuto, mas do juíz Rodrigo Ferreira. Na partida contra o Furacão, o Daronquinho Ferreira chamou a responsabilidade para si ao marcar alguma coisa sobre Rossi na entrada da área. Eu sei que existem algumas discussões relacionadas no Brasil recentemente sobre "pós-verdades" e qual a melhor maneira de se lidar com tanto erro de leitura cometidos por brasileiros, porém no lance a gente verifica perfeitamente que não foi pênalti. Tudo bem, na realidade tudo acontece muito rápido e muito bagunçado, e às vezes essas figuras de arbitragem se guiam mais pelos instintos que propriamente por toda a racionalidade de um replay. Pois bem, na trigésima primeira rodada do Assaí, uma antes dessa polêmica, o Inter se envolveu numa outra polêmica acerca de pênaltis, só que dessa vez contra o Vasco e dessa vez contra a si. A partida foi incendiada por Kelvin que, aos 44 do segundo tempo, tentou invadir a área e foi supostamente derrubado por dois jogadores colorados. Verdade seja dita, o Daronquinho Benevenuto apenas acatou a marcação daquele encostado que fica sentado ao lado do gol, e marcou um pênalti não existente, o que concedeu a Maxi Lopez a oportunidade de empatar a partida em 1 a 1. Na trigésima rodada, mais uma vez o Inter, agora sem pênalti, viu um de seus gols anulado no empate por 2 a 2 contra o Santos, num lance em que, após uma divisão entre Cuesta e Sánchez, a bola sobrou para Leandro Damião que numa rara oportunidade fez um belíssimo gol. Anulado. Coitado do Damião, nunca faz gol, e quando faz tem lá um Daronquinho pra atrapalhar. 

Recentemente o presidente do Internacional encabeçou uma iniciativa. Com apoio inicial de 14 clubes da série A do brasileirão, o intuito era aplicar ao campeonato a utilização do famigerado VAR nos restantes jogos da competição. Mais tarde, quatro outro clubes juntaram-se ao manifesto (apenas o Vasco se omitiu, e o Atlético Mineiro, até onde saiba, apoiou, porém com ressalvas). O pedido foi negado, afinal não adiantaria ter esse tipo de iniciativa ainda nesse campeonato. Em entrevista após o último jogo contra o Furacão, Marcelo Medeiros comentou sobre o mais recente erro dos Daronquinho. E não tem muito para comentar sobre isso, já que se fossemos continuar a contagem de erros a favor ou contra qualquer equipe brasileira em competições nacionais ou internacionais ficaríamos apontando em quase todas as partidas os mesmos "erros capitais". A imagem que fica é que as justiças feitas assemelham-se muito mais a injustiças recorrentes, travestidas de exceções num balanceamento e nivelamento pelo "regular". Por fim, fica evidente o comentário do Coronel "Daronquinho" Marinho, presidente da Comissão de Arbitragem da CBF, que disse que se fossemos balancear os acertos e erros estaríamos em saldo positivo. Em entrevista ao Sportv no dia 24 de outubro, a avaliação pelo Coronel Daronquinho sobre a arbitragem foi "bom". Muito sucinto.

Daronquinho 3


Acredito que tenha sido Walter Benjamin que afirmou em sua vasta bibliografia ser a realidade composta de inúmeras injustiças, a grande maioria delas sem possíveis remediações, e sendo, não obstante, a maior dessas injustiças a nossa eventual apatia frente ao estado de absurdo da realidade. Temos o direito, como foi dito, de manifestarmos e apontarmos as injustiças. Pois, apesar de gritarmos aos ventos,  gritamos com a segurança de não estarmos apáticos e pecadores do maior dos pecados. E mesmo que as instituições sistematicamente burocráticas existam para moderarem a ocorrência de um maior número de injustiças comparadas àquelas já ocorrentes, ainda assim são passíveis de críticas, por mais levianas que sejam, tal como esse texto. A própria figura de autoridade por si é contraditória, uma vez que ela busca minimizar, senão acabar, com as contradições de seu campo. Como falei, é ingrato o papel de árbitro... O d'Os Daronquinho, nem tanto. O papel dos Daronquinho é servir de exemplo elucidativo da incapacidade de se ajustar totalmente a sociedade ou manifestações sociais a um tipo de comportamento inteiramente moralista e ordenado. O papel dos Daronquinho é fazer a gente ver que um dia um time ganha, noutro o time perde, por vezes com interferências externas, e tudo que podemos fazer é aguentar e seguir em frente, porque amanhã pode ser a nossa vez de sermos beneficiados em detrimento de se prejudicar outro alguém. O papel dos Daronquinho é afirmar o caixa 2 como um dos piores crimes democráticos e depois afirmar que está tudo bem o Ônix Lorenzoli ser possível ministro, já que ele se desculpou, e não ter problema nenhum em aparentar estranheza quanto a sua tendência pessoal.

No jogo das comparações, talvez seja ingrato, da minha parte, julgar essas figuras de autoridade do conforto da minha casa sentado na minha cadeira de plástico escrevendo no meu blog amado. Talvez esse não seja o meu papel, o de julgar os julgadores. Mas de uma coisa eu tenho certeza, é meu papel colocar os Daronquinho com erro de concordância em todo o texto, porque se eles não concordam entre si lá fora, não sou eu quem vai fazê-los concordarem aqui dentro. 



***
Fica registrado meu apoio ao Paraná, matematicamente rebaixo. Força, consagrados!
Fica registrado também meus agradecimentos ao Tiago Baccarin, o primo que, com muito senso de humor, concordou aparecer nesse blog. Muito obrigado.