Confesso que abri um sorriso ao final do jogo do Internacional e Palmeiras. Não me julguem parcial, não é esse o caso. Dois foram os fatores que motivaram minha alegria.
O primeiro motivo foram os gols do Inter. Estou rendido ao hábito de exaltar os heróis, os atacantes dos times. A perspectiva de a seleção poder contar com Fred, o Ébrio; Neymar, o Eleito; Ronaldinho Segundo e Leandro Damião na partida de quarta-feira contra a Argentina já me traz certo prazer, ou, sendo realista, certa consolação. Meus parabéns, Leandro Damião, hoje você conquistou a artilharia do campeonato e mostrou a humildade e o espírito de equipe de que um jogador selecionado precisa.
Mas, cá entre nós, o personagem mais importante de Dom Quixote é o Sancho Panza. E eu me refiro ao lateral direito Nei. Para fins de exemplificação, cito o segundo gol do Colorado, armado pelo lateral, que venceu a marcação e presenteou o colega artilheiro com a cara do gol. Mas essa foi a jogada mais simples para descrever o Nei – na essência, trata-se de um homem forte, que possui o que um certo pelézinho da nova geração anda precisando: raça. As arrancadas que o rapaz promoveu nesse jogo conseguiram desarticular até mesmo a melhor defesa do campeonato – e não vou falar necessariamente no demérito das defesas em geral do campeonato, o que eu quero é ressaltar o valor da sede de dianteira nos jogadores cuja posição possui essa função estratégica de armar. Num jogo de xadrez, diríamos que uma torre talvez pudesse ser comparada à função e valor de Nei.
O segundo motivo de meu sorriso foi a reação da torcida do Palmeiras. Futebol é a democracia que dá certo no Brasil e um gesto como o dos torcedores paulistas não me faz, senão, emocionado politicamente. De costas para o campo, uma ala dos fiéis palmeirenses protestou contra a diretoria do clube, xingando o habitual, mas fazendo-o com a classe que oblitera os palavrões em função do que eles querem comunicar.
Felipão é um cara ótimo, aliás. Quando penso em Palmeiras, não consigo pensar em técnico melhor: ascendência italiana, cultura cristã, heroísmo disciplinado, senso de coletividade e uma Ordem do Infante D. Henrique, concedida pelo sensato ex-presidente lusitano Jorge Sampaio – em suma, um homem de bem. Crítico como só, dessa vez, ele não puniu a equipe, mas elevou o valor real de seu futebol, que, apesar da derrota, dominou os primeiros minutos dos dois tempos e conseguiu passar alguns sustos nos sulistas. Quanto à torcida, ele recitou sua posição:
“O que vocês esperavam? Jogando em casa e tomando de três, queriam que a torcida aplaudisse e achasse tudo bonito? A torcida até que se comportou corretamente, foi educada. Claro que viu o time perder e não aceitou, e por isso se manifestou. Mas podemos dizer que foram educados”
Educados, os torcedores dirigiram seus insultos, principalmente, ao vice- presidente do clube, Roberto Frizzo, chegando, quando de sua descida ao vestiário, a lançar, muito cortesmente, algumas garrafas no abonado dirigente, que acredita que algo sobrenatural interfere no trabalho do Palmeiras e diz entender as angústias dos ocupantes das arquibancadas.
De fato, pode ser que haja algo de sobrenatural atuando no Palmeiras. Talvez as velas de Tite. Não sei. Mas o ataque do Verdão esteve ali o jogo inteiro e, em determinados momentos, foi possível identificar até mesmo uma postura retranqueira da parte do Internacional, que, de fato, mantinha-se no 4-5-1. Nesse aspecto, mérito da zaga colorada.
E por outro lado, como a melhor zaga do Campeonato dos Campeonatos falhou três vezes? Como um time de um único atacante consegue furar a zaga e ignorar a presença respeitosa e quarentona do goleiro palmeirense vitalício Marcos? E agora, mérito da ofensiva colorada.
Foi um jogo bom, entendem? Menos apegado à lógica, a partida foi narrativa, interessante, diriam alguns que até surpreendente. Eu não diria que é surpreendente, ora, vá lá. Mas, os jogos bons são aqueles que não merecem perdedores e, mesmo assim, muito cruelmente, os tem.

